Ainda bem que, guiado pelo faro apurado e por seu instinto político singular, o presidente Lula decidiu estar na Sapucaí para acompanhar o desfile da Acadêmicos de Niterói. Foi um gesto de presença que, somado à sua participação nos carnavais do Recife e de Salvador, revelou uma sintonia fina com o pulso do país. A resposta popular veio como o Brasil costuma oferecer: com espontaneidade, carinho, afeto e calor humano.
Se recorrermos a uma metáfora de outra paixão nacional, o futebol, Lula não apenas marcou um golaço; protagonizou um daqueles lances raros em que o jogador percebe o movimento do jogo antes de todos, avança no tempo exato e conclui com naturalidade. Gol de placa, bonito sem esforço, desses que fazem a torcida se levantar antes mesmo de a bola tocar a rede. Um momento em que técnica, instinto e leitura de campo se encontram. E, como acontece com os grandes gols, o mais impressionante foi a simplicidade com que tudo pareceu acontecer.
O desfecho do desfile da Acadêmicos de Niterói confirmou o acerto de Lula. O “olê, olê, olê, olá, Lula, Lula lá”, coro espontâneo que percorreu a avenida ao final da apresentação, repetido em ondas pelas arquibancadas, não foi ensaiado nem solicitado. Foi reconhecimento.
Por mais que a transmissão oficial da Globo tenha boicotado o momento e se esforçado para reduzir sua visibilidade, a cena foi amplamente registrada e compartilhada, em tempo real, pelos milhares de celulares presentes. Em tempos de comunicação distribuída, a realidade encontra sempre seus próprios caminhos.
Para além do boicote da Globo, arrisco um método particularmente eficaz e confiável para medir o alcance do movimento político de Lula: observar a angústia que ele provocou no fascismo brasileiro. E, nesse aspecto, o desfile alcançou níveis bastante expressivos, produziu úlceras e agudizou erisipelas na extrema-direita.
Michelle Bolsonaro, a doce esposa, bela, recatada e do lar, manifestou indignação com a representação de seu marido como o palhaço Bozo, ostentando uma tornozeleira eletrônica, atrás das grades. O detalhe curioso é que a escola de samba, nesse ponto específico, adotou uma contenção criativa pouco comum no carnaval. Limitou-se a organizar elementos já sedimentados na imagética pública. A alegoria, por assim dizer, assumiu um caráter quase documental: apenas registro, nada de invenção. A única licença criativa foi a inclusão da tornozeleira, pois, até onde sei — embora possa estar enganado —, criminosos recolhidos à Papuda não necessitam desse adereço. No mais, em vez de fantasia, apresentou-se um documento, um retrato sem elaboração artística, a simples reprodução da realidade em estado bruto. Nesse caso, a arte não precisou inventar; apenas organizou o real com um pouco de cor e ritmo.
Já a pastora da Igreja Batista da Lagoinha e também senadora da República, Damares Alves, interrompeu um retiro espiritual e um período de jejum para protocolar uma ação popular (popular, neste caso, significando ela própria). Alegou uso indevido de recursos públicos e criticou uma ala que, segundo sua interpretação, teria ridicularizado evangélicos. Para quem já relatou conversas com Jesus em uma goiabeira, a reação parece um tanto desproporcional. O carnaval, território histórico da pluralidade e da irreverência, acabou tratado como se devesse obedecer a um padrão particular de conduta, com meninos vestindo azul e meninas vestindo rosa. Puro damarismo cultural!
Das profundezas de um marrecódromo qualquer, o ex-juiz parcial Sérgio Moro, esforçando-se para receber alguma nesga de luz de algum holofote, classificou o desfile, nas redes, como propaganda eleitoral antecipada. Mencionou riscos institucionais e evocou imagens de personalismo político. É curioso observar como uma manifestação aberta, plural e transmitida a todo o país pode ser percebida como sinal de ameaça à democracia. Logo ele, parteiro do fascismo brasileiro, conhecido por se mover pelo lado escuro do direito, encontrando-se com procuradores no anonimato dos Telegram da vida, para combinar a execução do crime perfeito — sim, na cabeça do meliante de Curitiba, seria um crime perfeito “atribuir a Lula” um triplex no Guarujá —, que destruiria de vez a institucionalidade brasileira, agora preocupado com a saúde das instituições. O carnaval tem dessas virtudes: abre espaço para muitas fantasias, inclusive as mais improváveis.
Flávio Bolsonaro, enquanto operava o caixa de sua chocolateria, anunciou a intenção de acionar o Tribunal Superior Eleitoral por supostos “crimes na Sapucaí”. Nas redes, falou em campanha antecipada e uso irregular de recursos. Para um adepto das rachadinhas, condecorador em série e amigo íntimo de milicianos, o zelo jurídico chama atenção. Ainda mais quando aplicado a carros alegóricos, fantasias e refrões que nascem, tradicionalmente, da mistura de crítica social e humor coletivo. O carnaval, nesse caso, parece ter sido interpretado como um comício com excesso de purpurina.
Quando o fascismo esperneia com tanta intensidade contra o desfile de uma escola de samba, é sinal de que o impacto político foi estrondoso. A arte popular cumpriu, mais uma vez, sua função clássica: observou o país, captou suas tensões e devolveu tudo em forma de espetáculo.
Enquanto isso, o presidente esteve onde a política raramente perde quando comparece: entre gente comum, sem barreiras, sem mediações, participando de um dos rituais mais profundos da cultura brasileira. A recepção calorosa não foi construída por estratégia de marketing que, diga-se, tentou demovê-lo da participação. Foi fruto de identificação. Há algo de poderoso em um governante que compreende que o vínculo político também se alimenta de presença simbólica.
A noite terminou com Lula em posição confortável, envolvido pelo entusiasmo das arquibancadas, enquanto seus críticos mobilizavam notas, ações e alertas institucionais contra um desfile de carnaval. O contraste diz muito sobre diferentes modos de compreender o país.
O Brasil, com sua capacidade singular de transformar crítica em festa e memória em ritmo, segue ensinando uma lição simples: quem se aproxima de sua energia coletiva ganha densidade política; quem tenta enquadrá-la em molduras rígidas acaba falando sozinho. Lula parece ter nascido com o dom de compreender essa brasilidade, de respirá-la e de transformá-la em ativo político capaz de impulsionar a melhoria da vida de seus conterrâneos.
Pode-se dizer que a Sapucaí iluminou mais do que carros alegóricos. Iluminou uma escolha. Lula compreendeu o momento e, contra a vontade dos endinheirados — densamente expressa e vocalizada pela mídia —, ocupou o espaço certo e saiu fortalecido. E, quando setores mais duros reagem com evidente incômodo à alegria popular, o que se revela não é uma ameaça à ordem, mas o sinal de que a vida democrática continua pulsando, livre, criativa e compartilhada. Uma democracia que canta, que ri e que, apesar de tudo, ainda convida a todos para a mesma avenida.
Foto da capa: Carro alegórico da Escola de Samba Acadêmcos de Niterói em 2026. – Foto: Redes Sociais.
Veja aqui a íntegra do desfile da Acadêmicos de Niterói com a gravação do Bruno Resende Carnaval, no YouTube.
Veja e ouça aqui o samba-enredo da Acadêmicos de Niterói, no Clip Oficial Rio Carnaval.





