Por Solon Saldanha *
Apesar do anúncio de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, declarou que as operações militares no Líbano não serão interrompidas. Tel Aviv manteve bombardeios intensos nesta quarta-feira (8), atingindo Tiro e os subúrbios de Beirute, enquanto o governo libanês e potências europeias clamam pela extensão da trégua ao território vizinho.
A Exclusão do Líbano e a Continuidade dos Ataques
O alívio temporário nas tensões entre Washington e Teerã não se traduziu em paz para o povo libanês. Em pronunciamento oficial, o gabinete de Benjamin Netanyahu deixou claro que o acordo de 15 dias mediado pelo Paquistão não abrange as frentes de batalha em solo libanês. Na prática, Israel sinaliza a intenção de manter a ocupação do sul do Líbano, região de onde o governo israelense já afirmou não pretender retirar suas tropas, consolidando uma presença militar permanente em território soberano estrangeiro.
Nesta quarta-feira, a aviação israelense voltou a atacar centros urbanos. Em Tiro, edifícios foram reduzidos a escombros sob ordens de evacuação imediata, enquanto a mídia estatal libanesa reportou explosões em áreas densamente povoadas nos subúrbios de Beirute. O Hezbollah, embora tenha sinalizado estar “próximo de uma vitória histórica”, orientou a população deslocada a não retornar às suas casas no sul, no Vale do Bekaa e na capital, temendo novos massacres em meio à incerteza do cenário bélico.
Crimes de Guerra: A Destruição Deliberada de Áreas Civis
A insistência de Israel em prosseguir com a ofensiva no Líbano, isolando-o do acordo de trégua regional, aprofunda as evidências de crimes de guerra cometidos por Israel com o suporte estratégico dos EUA. Ao bombardear infraestruturas civis, como prédios residenciais, ferrovias e centros urbanos em Beirute e Tiro, as forças israelenses violam o princípio da distinção estabelecido pelo Direito Internacional Humanitário.
O bombardeio sistemático de áreas civis sob o pretexto de neutralizar o Hezbollah tem resultado em uma destruição desproporcional da infraestrutura básica libanesa. A comunidade internacional observa com gravidade o fato de que a tecnologia bélica de ponta, fornecida pelos Estados Unidos, está sendo empregada para obliterar bairros residenciais e paralisar a logística civil de um país que já enfrenta uma crise humanitária severa. Tais ações configuram crimes contra a humanidade, uma vez que visam o colapso da vida civil para atingir objetivos políticos e territoriais.
Divergências Diplomáticas e Pressão Internacional
A exclusão do Líbano gera uma fissura no acordo costurado pelo primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, que havia anunciado um cessar-fogo “em todos os lugares”. Teerã, por sua vez, reforçou que a manutenção da trégua depende do fim das agressões contra seus aliados regionais, colocando o acordo Trump-Irã em risco iminente caso as bombas continuem caindo sobre Beirute.
A postura de Tel Aviv e o apoio tácito de Washington provocaram reações contundentes na Europa:
- França: O presidente Emmanuel Macron exigiu formalmente a inclusão imediata do Líbano no cessar-fogo, citando a necessidade de estabilidade regional total.
- Espanha: O chanceler José Manuel Albares classificou a continuidade dos ataques como “inaceitável”. Já o primeiro-ministro Pedro Sánchez dirigiu críticas severas a Donald Trump, afirmando que a Espanha não aplaudirá “aqueles que incendiam o mundo e depois aparecem com um balde de água”.
Enquanto as potências discutem os termos nos gabinetes, o Líbano permanece sob fogo cruzado, transformado em um enclave de guerra em meio a uma trégua seletiva que ignora a soberania nacional e a vida de milhares de civis.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Bairro de Tiro sendo bombardeado. Crédito: reprodução Al Jazeera




