Da REDAÇÃO
Nelson Rodrigues Filho, o Barba, morreu na quinta-feira, 25 de fevereiro de 2026, aos 79 anos. Engenheiro e jornalista, ele ficou conhecido pela militância no MR8 durante a ditadura militar, pela prisão e tortura nos anos de chumbo e, décadas depois, por sua atuação na revitalização do carnaval de rua do Rio de Janeiro. A marca mais visível de sua trajetória virou também símbolo político e cultural: a barba que nunca mais cortou desde que saiu da prisão.
Militância no MR8 e prisão na ditadura
Nos anos mais duros da ditadura militar brasileira, Nelson Rodrigues Filho integrou o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), organização que defendia a luta armada contra o regime instaurado após o golpe de 1964. A repressão se intensificou especialmente após o AI-5, em 1968, quando o regime ampliou prisões, censura e perseguições políticas.
Barba foi preso por sua atuação no MR8 e submetido a tortura em órgãos de repressão no Rio de Janeiro. Como centenas de militantes de esquerda, passou pelos porões do regime, em um período posteriormente reconhecido como de graves violações de direitos humanos.
Ao sair da prisão, tomou uma decisão que se tornaria parte de sua identidade pública: nunca mais cortou a barba. O gesto simbolizava memória e resistência. Com o tempo, o apelido “Barba” superou o próprio sobrenome no cotidiano.
Filho de Nelson Rodrigues, trajetória própria
Filho do dramaturgo Nelson Rodrigues, autor de clássicos como “Vestido de Noiva”, Barba construiu um caminho distinto. Formado em engenharia e com atuação no jornalismo, viveu na prática as tensões políticas que atravessaram o Brasil nas décadas de 1960 e 1970.
Enquanto o pai se tornava um dos cronistas mais polêmicos do país, o filho mergulhava na militância contra a ditadura. A divergência ideológica dentro da família refletia o ambiente polarizado da época.
Restaurante e bloco com o nome da barba
Depois de solto, Nelson Rodrigues Filho reinventou sua atuação pública. Tornou-se dono de restaurante no Rio de Janeiro, que levava no nome a referência direta à sua barba. O espaço virou ponto de encontro de jornalistas, artistas e militantes, misturando política, cultura e boemia.
A mesma marca batizou o bloco de carnaval que ajudou a fundar. O grupo participou do movimento que impulsionou a retomada do carnaval de rua, especialmente a partir dos anos 1980 e 1990, quando blocos tradicionais e novos coletivos voltaram a ocupar o centro da cidade.
O crescimento do carnaval de rua do Rio de Janeiro nas décadas seguintes transformou a festa em um dos maiores eventos culturais do país, com impacto econômico e projeção internacional. A atuação de Barba se insere nesse processo de revitalização do carnaval carioca.
Memória política e cultural
A morte de Nelson Rodrigues Filho, aos 79 anos, recoloca em debate a memória da ditadura militar e o papel de militantes que enfrentaram a repressão. Sua trajetória une dois momentos centrais da história recente: a resistência ao regime e a reconstrução democrática com forte presença cultural nas ruas.
A barba, mantida intacta desde a saída da prisão, sintetizou essa travessia. Virou símbolo pessoal, nome de restaurante, estandarte de bloco e marca de uma geração que transformou trauma em ocupação política e cultural do espaço público.
Foto da capa: Nelson Rodrigues Filho, o Barba. Crédito: Instagram.




