Os fatos não penetram no mundo onde vivem nossas crenças (Proust)
No dia 20 de setembro próximo, será realizada no Rio de Janeiro e outras capitais do país a Marcha pelo Clima, organizada pela Coalizão pelo Clima, com a participação da Associação Terrazul e diversas outras organizações da sociedade civil. O recado é claro: El Niño com Capitalismo é Pior! Trata-se de um protesto contra o negacionismo climático alimentado por interesses econômicos, pela ortodoxia ideológica e pela ignorância que predominaram na política brasileira nas últimas décadas.
Segundo a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos EUA (NOAA), o El Niño se fortaleceu em julho e a possibilidade de ocorrer um fenômeno sem precedentes neste ano chega a 69%, Além de anomalias de ventos e chuvas na América do Sul e na Ásia, a agência registrou aumentos de temperatura da água do Oceano Pacífico superiores a 2,0ºC — o El Niño se caracteriza por um aumento maior que 0,5ºC. Um “super El Niño” pode causar extremos climáticos no Brasil até o início de 2027. Enchentes, ondas de calor, secas, falta d’água, aumento do preço dos alimentos e mais riscos para quem vive nas periferias já fazem parte da nossa realidade. O El Niño agrava esses impactos, podendo chegar a um colapso ambiental, com eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos.
Conforme dados consolidados do sistema Prodes, entre 2019 e 2022, durante o governo Jair Bolsonaro, foram desmatados 45.703 km² na Amazônia, uma média de 11.426 km² por ano. Já entre 2023 e 2025, no governo Lula, foram desmatados 18.988 km², uma média de 6.329 km² por ano. A média anual do período mais recente foi, portanto, cerca de 45% menor que a média observada entre 2019 e 2022 (ECOA, Carlos Nobre).
Já no que se refere aos indígenas, o quadro é mais dramático. O número de homicídios de indígenas aumentou 22% e o de morte de crianças de 0 a 4 anos nas aldeias cresceu 11%, de acordo com o relatório “Violência contra os povos indígenas no Brasil 2025”, divulgado em 13/8 último pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI). O relatório registra 258 assassinatos no ano passado, contra 211 em 2024, e 1.024 mortes de crianças, contra 922 no ano anterior (CIMI e O Globo, 14/8/2026).
A violência na fronteira agrícola contra camponeses, quilombolas, indígenas e lideranças sindicais na área rural está ligada ao interesse econômico de setores que se beneficiam principalmente do desmatamento, mineração, garimpagem e exploração agropecuária. Esse interesse econômico e a violência decorrente é um dos motores do negacionismo climático que se combina com outro fator importante: a ignorância ou, em alguns casos, a recusa deliberada de compreender a complexidade científica e econômica da crise climática por parte de políticos e formadores de opinião.
O negacionismo não precisa necessariamente afirmar que “a mudança climática não existe”. Ele pode assumir formas mais sofisticadas: minimizar a velocidade do aquecimento, negar a responsabilidade humana, exagerar os custos da transição energética, afirmar que o Brasil “não precisa fazer nada” ou apresentar medidas de proteção ambiental como obstáculos ao desenvolvimento.
Há, portanto, uma espécie de aliança entre interesse econômico e ignorância política. Empresas e grupos econômicos ameaçados pela transição energética têm incentivos para retardar regulamentações, preservar subsídios e proteger modelos produtivos baseados em petróleo, gás, carvão, desmatamento ou agropecuária predatória. E muitos políticos combatem a legislação de proteção ambiental para evitar medidas impopulares junto a determinados setores econômicos e eleitorais, mesmo conhecendo os riscos climáticos.
É verdade também que parte dos dirigentes desconhece — ou não quer levar em consideração — que o aquecimento global produz efeitos econômicos concretos: secas, enchentes, incêndios, perda de produtividade agrícola, danos à infraestrutura, aumento dos gastos públicos e riscos financeiros. Daí nascem opiniões, baseadas na ignorância ou má fé, de que “a ciência ainda não sabe” o suficiente para justificar políticas climáticas.
A ideologia também pesa: em certos setores da direita, a política ambiental é apresentada como uma ameaça à propriedade privada, ao agronegócio, à soberania nacional ou à liberdade econômica. Essa é a razão pela qual o agronegócio brasileiro está derrubando a legislação de proteção ambiental no Congresso Nacional.
Mas o negacionismo também viceja em certos setores da esquerda, herdeira de doutrinas políticas e econômicas elaboradas numa época que desconhecia a questão ambiental, então inexistente ou ainda incipiente. Um bom exemplo foi a declaração do presidente Lula no evento que comemorou a descoberta de petróleo na Foz do Amazonas, a cerca de 175 quilômetros do litoral do Amapá. Lula declarou que a descoberta do petróleo é um ‘passaporte para o futuro’, na contramão da ciência que defende o abandono progressivo dos combustíveis fósseis num programa de transição energética que garanta a sobrevivência da humanidade ameaçada pelo aquecimento global.
O paradoxo é que o negacionismo pode produzir exatamente aquilo que pretende evitar. Ao adiar a transição energética e a adaptação climática, aumenta-se o custo futuro da mudança. É mais barato prevenir o desmatamento de uma floresta do que reconstruir posteriormente o equilíbrio hídrico e climático perdido; é mais barato reduzir emissões hoje do que enfrentar danos crescentes provocados por eventos extremos.
Assim, o negacionismo climático não nasce apenas da ignorância. Ele prospera quando a ignorância política encontra interesses econômicos que lucram com a manutenção do modelo existente. Quanto maior o custo da mudança para determinados grupos, maior tende a ser a pressão para negar, minimizar ou adiar a realidade climática.
Cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) avaliam que o planeta deverá transpor formalmente a média de 1,5 °C de forma definitiva na próxima década, mas o ano de 2024 já registrou a temperatura média global de 1,55 °C a 1,6 °C acima dos níveis pré-industriais, o primeiro ano completo a superar essa marca histórica. Cada décimo importa: Superar esse patamar, mesmo que por alguns anos, produz fortes ondas de calor, secas severas, chuvas torrenciais, degradação dos oceanos, subida dos mares, enfim eventos climáticos extremos e o risco de ativação de pontos de inflexão irreversíveis no sistema terrestre.
Os países precisam reduzir as emissões globais de gases estufa em 43% até o fim da década. O objetivo principal é zerar as emissões líquidas de carbono em escala global até 2050. O foco central é abandonar combustíveis fósseis e acelerar o uso de energia solar e eólica. As nações ricas sofrem pressão para pagar a adaptação de países vulneráveis às perdas causadas pelo clima. Afinal, os países pobres que menos contribuíram para o aquecimento global são os mais prejudicados pelos eventos climáticos extremos.
No caso brasileiro, a questão é particularmente grave porque desmatamento, agronegócio, recursos hídricos e clima estão profundamente interligados. A destruição da Amazônia e do Cerrado, por exemplo, não é apenas um problema ambiental: afeta os regimes de chuva, a agricultura, a geração de energia, o abastecimento urbano e toda a economia. No Brasil, os impactos climáticos se manifestam de forma desigual e extrema entre as regiões. O avanço das temperaturas e a mudança nos padrões de chuva transformaram o que eram previsões em desastres frequentes.
O Norte sofre com secas históricas severas que reduzem o nível dos rios, isolam comunidades ribeirinhas e impulsionam queimadas recordes. No caso da Amazônia, “as secas causadas pelo El Niño afetam os meios de subsistência dos cerca de 48 milhões de pessoas que vivem na região amazônica. Seus impactos incluem o isolamento de comunidades, dificuldades no transporte fluvial, aumento do custo de vida, interrupções no fornecimento de energia, redução da produção de alimentos e da pesca, agravamento de problemas de saúde e mudanças nos modos de vida das populações amazônicas. Além disso, as secas e ondas de calor tornam a vegetação muito mais inflamável e favorecem incêndios florestais que comprometem a resiliência da floresta. É importante registrar que mais de 95% dos incêndios florestais na Amazônia em 2023 e 2024 foram iniciados a partir de atividades humanas insustentáveis e ilegais, sendo uma grande parte associada ao crime organizado” (ECOA, Carlos Nobre, 18/8/2026).
O Sul enfrenta o aumento dramático de chuvas torrenciais, tempestades e enchentes devastadoras que destroem infraestruturas urbanas e rurais. O Nordeste vivencia a intensificação da seca no Semiárido, acelerando processos de desertificação e ameaçando a segurança hídrica e alimentar. O Centro-Oeste registra ondas de calor extremo frequentes e um tempo severamente seco que eleva os riscos de incêndios no Pantanal e no Cerrado. E o Sudeste passa pela alternância de tempestades urbanas catastróficas (causando deslizamentos em encostas) com períodos prolongados de calor e seca.
Esses eventos climáticos extremos causam importantes prejuízos econômicos, como a quebra da safra agrícola, acarretando aumento no preço dos alimentos, o aumento na conta de luz, pois a seca prolongada afeta os reservatórios das hidrelétricas, obrigando o uso de usinas térmicas caras e subindo o valor da energia. Além disso, provocam riscos para a saúde por doenças respiratórias em função de fumaças de incêndios, dengue, malária etc. E, a continuar os atuais níveis de aquecimento global, teremos a elevação do nível do mar e ressacas fortes, ameaçando construções e a população de cidades litorâneas.
Em vez de lutar para garantir a sobrevivência da humanidade ameaçada pela destruição dos recursos naturais, degradação da biodiversidade e aquecimento global, as classes dominantes e seus políticos, de diversas tendências, se aferram aos mecanismos e instituições capitalistas que asseguram a produção do lucro, negam a transição energética e ignoram os sistemas produtivos baseados na sustentabilidade econômica, social e ambiental.
Se não houver mudanças drásticas para reduzir o aquecimento global, as previsões de colapso da civilização humana em nosso planeta poderão ser confirmadas. Ainda há tempo.
Foto de capa: William Daniels


