Por CÁTIA CASTILHO SIMON*
Li recentemente o romance Nada será como antes, da escritora Andréia Schefer, de Novo Hamburgo. O livro estava comigo desde a Feira do Livro de Porto Alegre de 2023. Sim, eu sou dessas que compram livros, muitos livros na Feira e nas livrarias da nossa cidade, e depois se viram nos trinta para lê-los. Recebi uma bonita dedicatória e partilho com a autora a busca por mais espaços para a escrita das mulheres. Tenho adquirido mais livros de escritoras mulheres não só pela injusta defasagem no cânone literário, mas principalmente porque elas estão escrevendo com excelência há bastante tempo. Cabe a nós, leitoras e leitores, buscarmos essa produção. Em tempos de extremada misoginia com o triste destaque para o nosso estado, vide o aumento de feminicídio, a valorização da mulher passa pelo âmbito da palavra dita e da palavra escrita.
Andréia é escritora independente e criadora do perfil @literaescrita. Lançou seu primeiro romance, Para onde vão as borboletas à noite, em 2020. Ela participa de diversas antologias e, mais recentemente, foi coorganizadora, junto com Adeli Sell, Athos Miralha, Cássio Machado, Lígia Savio e Vera Ione Molina, do livro Tempos Sombrios. Tem um canal no WhatsApp, é colunista da revista Voo Livre, da @sler_oficial e do @jornalbrasilpopular. Publica também em suas redes sociais textos de profundas e necessárias reflexões. Uma escritora em sintonia com o nosso tempo.
Nada será como antes é um convite para revisitarmos o contexto social e político da ditadura militar brasileira, pós-golpe de 1964. A história se desenvolve, revelando as reverberações das arbitrariedades e violência operadas e legitimadas pelo governo golpista em uma família, cujas feridas são insanáveis. Um minicosmos é retratado, nem mesmo os apoiadores do tal regime estão a salvo. Vitória tem de explicar à filha Maria Clara quais as razões para o afastamento de seus avós maternos. E, por esse fio, se desenrola a descoberta do quanto a ditadura pode destruir estruturas familiares, atingir individualidades e grupos sociais. Instala-se a predisposição para a delação, para a traição. O clima geral é de desconfiança e de perseguição. Quem está no poder faz o que bem entende para acabar com seus inimigos. Não há ética; há um trabalho a fazer – acabar com os contrários. Vitória recupera os fios perdidos da sua história e com a paciência de uma Penélope tece a verdadeira história. Na contramão daquela tecelã, protege-se, guarda aquela tessitura, segue em frente. Vitória reconfigura, na circularidade do tempo, a Maria Clara-mãe, morta junto com o pai em um misterioso acidente de carro.
O mal que os aparelhos de repressão fizeram, reverbera na família de origem de Vitória e na de sua descendência. A escritora traz esse período sombrio e o areja à luz da verdade histórica para a construção da consciência da realidade escamoteada.
Andréia traz a necessária e ainda inesgotável temática dos abusos protagonizados pelo governo da ditadura militar. Nessa seara já tivemos o Erico Verissimo, do Incidente em Antares, o Josué Guimarães, do É tarde para saber, o Tabajara Ruas de O amor de Pedro por João, só para citar alguns grandes que a escritora acompanha. Setenta, recente livro do escritor Henrique Schneider, também transita nesse contexto. Nada será como antes é construído pela perspectiva do olhar de uma mulher, Vitória, como ponta de lança da história. Nisso reside muitos dos méritos do livro. Ela tem a palavra, ela recupera a verdade histórica, ainda que a um custo altíssimo também por ser mulher.
O romance vem se somar à atual safra do consagrado livro de Marcelo Rubens Paiva – Ainda estou aqui, transformado em filme e premiado com a brilhante atuação de Fernanda Torres, no Oscar de 2025. E também a do filme, o Agente Secreto que conquistou prêmios no Globo de Ouro nos quesitos melhor ator e melhor filme estrangeiro. Todos evocam esse terrível período da nossa história para lembrarmos. A banalização do mal está ali nos livros, nos filmes, chocam para que acordemos definitivamente desse pesadelo. Estamos carentes de sabermos de nós – já declarou certa vez Clarice Lispector. A literatura e o cinema podem ser um dos meios para isso. O livro da Andréia, assim como os dos escritores referidos, nos faz saber sobre o pior e o melhor de nós pelas tramas da ficção.
Temos de ler, assistir aos filmes sobre o tema, mas não só isso, precisamos recomendar, indicar, comprar esses livros, presenteá-los para que mais pessoas saibam do que os fascistas foram e são capazes de fazer. Eles se reinventam. É nossa responsabilidade interromper a reverberação das sombras do mal e trazer a boa literatura e o bom cinema para confrontá-los.
*Cátia Castilho Simon é professora aposentada RME/Porto Alegre, escritora e poeta.
Foto de capa: Divulgação




