A macroeconomia não mudou: a Ilusão HANK e o falso monopólio da “ciência a sério” | Por José Luis Oreiro

A disputa metodológica revela diferentes formas de compreender a economia real.
Publicado em 30 de agosto de 2026 às 14:00
Editado em 29 de agosto de 2026 às 17:13

O artigo de Marcello Estevão (2026), publicado no Valor Econômico em 28 de agosto de 2026, tenta justificar o estado atual da macroeconomia mainstream afirmando que a heterogeneidade de agentes nunca esteve ausente da teoria. Em sua resposta às críticas que fiz recentemente (OREIRO, 2026) ao texto de Carlos Eduardo Gonçalves (GONÇALVES, 2026), Estevão (2026) argumenta que o salto recente da profissão foi incorporar essas diferenças empírica e computacionalmente ao núcleo dos modelos macroeconômicos, celebrando a ascensão dos modelos HANK (Heterogeneous Agent New Keynesian). Para Estevão (2026), fazer “ciência com rigor” significa transformar intuições em hipóteses explícitas dentro de um modelo coerente e confrontá-lo com os dados, algo que, segundo ele, os modelos HANK finalmente conseguem fazer para a análise de flutuações.

O problema central dessa defesa é a confusão entre complexidade computacional e rigor científico. A leitura do livro Structuralist and Behavioral Macroeconomics (SKOTT, 2023) desmonta a premissa de que a sofisticação técnica dos modelos HANK representa um avanço científico para a compreensão da economia real.

A Ilusão da Heterogeneidade nos Modelos HANK

Estevão (2026) saúda os modelos HANK como uma mudança genuína que combina os elementos novo-keynesianos com distribuições de famílias sujeitas a riscos diferentes. Contudo, Skott (2023) demonstra que esses modelos apenas adicionam sinos e assobios matemáticos sobre uma fundação comportamental falha.

  • Hiper-racionalidade Implausível: Nos modelos HANK, exige-se que as famílias possuam uma quantidade formidável de informações para resolver seus problemas de otimização dinâmica. Para que o modelo funcione, cada família precisa não apenas conhecer seu próprio lugar na distribuição transversal de renda e riqueza, mas também compreender a lei de movimento de equilíbrio para toda a distribuição de riqueza na economia.
  • Falha Empírica e Teórica: A macroeconomia mainstream exige que o consumo agregado seja derivado de otimização intertemporal e de equações de Euler, ignorando que o comportamento microeconômico real envolve restrições de crédito estruturais, heurísticas de decisão limitadas e viés de presente (SKOTT, 2023).

HANK como Sintoma de um Programa de Pesquisa Degenerativo

Skott (2023) classifica essa abordagem da macroeconomia ortodoxa como um “programa de pesquisa degenerativo”, e aqui cabe um parêntese epistemológico fundamental baseado na filosofia da ciência de Imre Lakatos (1979).

Segundo Lakatos (1979), a ciência avança por meio de “programas de pesquisa”, que são compostos por um núcleo duro (premissas fundamentais e inegociáveis da teoria) e um cinturão protetor (hipóteses auxiliares que podem ser ajustadas para lidar com anomalias). Um programa é considerado progressivo quando seu desenvolvimento teórico antecipa fatos novos (LAKATOS, 1979). Em contraste, ele se torna um programa de pesquisa degenerativo quando a teoria fica para trás da realidade e dos fatos empíricos (LAKATOS, 1979). Nesse estágio, os teóricos passam a fabricar modificações ad hoc e inserir “remendos” no cinturão protetor apenas para salvar o núcleo duro da refutação empírica, sem prever absolutamente nada de novo (LAKATOS, 1979).

É exatamente esse o papel dos modelos HANK e dos DSGEs modificados. Após a crise de 2008 implodir a utilidade dos modelos baseados no “agente representativo” perfeito, o mainstream recusou-se a alterar o seu núcleo duro, que abrange a otimização intertemporal infinita e as expectativas racionais (SKOTT, 2023). Em vez disso, adicionou uma enorme engrenagem matemática para simular agentes heterogêneos no cinturão protetor. A sofisticação celebrada por Estevão (2026) não é um marco científico, mas a reação defensiva clássica de um programa degenerativo: adicionam-se frações de famílias que vivem de contracheque em contracheque (hand-to-mouth), fricções arbitrárias e choques imaginários apenas para fazer as equações se ajustarem aos dados passados, mantendo o núcleo dogmático intocável (SKOTT, 2023).

A Verdadeira Fronteira: Modelos ABM-SFC e o Caminho Progressivo

Se a ortodoxia e seus modelos HANK representam um beco sem saída, o que a teoria heterodoxa tem a oferecer? A fronteira do conhecimento macroeconômico encontra-se hoje na poderosa síntese entre os Modelos Baseados em Agentes (ABM – Agent-Based Models) e os Modelos de Consistência Estoque-Fluxo (SFC – Stock-Flow Consistent).

Como lembra Skott (2023), os modelos SFC, que dão atenção explícita às relações contábeis entre estoques e fluxos, têm ganhado crescente atenção, sendo a obra de Godley e Lavoie (2007) altamente influente na macroeconomia pós-keynesiana. Em paralelo, os modelos baseados em agentes (ABM) contribuem de forma ímpar para o entendimento dos processos confusos e interações descentralizadas da realidade econômica (SKOTT, 2023).

A combinação de ambos (ABM-SFC) supera as limitações do HANK de maneira brutal. Enquanto o HANK assume que a economia está sempre gravitando em torno de um equilíbrio geral estocástico e que agentes possuem uma hiper-racionalidade computacional (SKOTT, 2023), os modelos ABM-SFC operam com racionalidade limitada. Os agentes interagem de forma descentralizada, usam heurísticas simples e aprendem com o passado, gerando uma dinâmica de desequilíbrio contínuo. A estrutura SFC funciona como o “esqueleto” do sistema, garantindo rigor contábil rigoroso: o ativo de um agente é invariavelmente o passivo de outro, impossibilitando a criação de “buracos negros” financeiros.

E por que a adoção da abordagem ABM-SFC não torna a heterodoxia, também ela, vítima de um programa de pesquisa degenerativo? Novamente, a resposta está em Lakatos (1979). A heterodoxia, ao adotar a matriz ABM-SFC, está estabelecendo um novo núcleo duro verdadeiramente aderente à realidade: a incerteza fundamental, a racionalidade limitada e as restrições contábeis sistêmicas. Em vez de adicionar remendos matemáticos para “salvar” a hipótese de mercados eficientes (como a introdução forçada de choques imaginários no patrimônio líquido para simular crises, prática comum no mainstream criticada por SKOTT, 2023), a matriz ABM-SFC deduz crises endógenas e o surgimento da desigualdade como fatos novos, consequências naturais da interação complexa entre os agentes. Trata-se, portanto, de um programa de pesquisa progressivo: a teoria não corre atrás dos dados para se justificar a posteriori; ela tem o arcabouço lógico para prever fenômenos sistêmicos emergentes.

O Monopólio da “Ciência a Sério”

A arrogância metodológica transparece quando Estevão (2026) sugere que economistas que fazem análise “séria” de política econômica inevitavelmente operam dentro de seu paradigma supostamente rigoroso. Essa retórica tenta ditar que qualquer abordagem fora do espartilho da otimização hiper-racional não é ciência.

Skott (2023) destrói essa noção de monopólio. Ele aponta que a exigência da ortodoxia de que a teoria macroeconômica seja obrigatoriamente fundada em versões extremas de racionalidade individual representa uma admoestação escolástica peculiar, sem paralelo em qualquer outra disciplina. A verdadeira ciência avalia o progresso por sua consistência lógica e aderência à observação empírica, e não pela pureza das teorias matemáticas que é estabelecida pelas “autoridades” da área (SKOTT, 2023).

A macroeconomia não precisa de modelos exaustivos que assumem famílias oniscientes resolvendo equações dinâmicas sobre a riqueza agregada. O que o debate revela é a urgência de uma macroeconomia estruturalista e comportamental que parta de instituições reais, interações de classe e de agentes que tomam decisões sob incerteza fundamental, sem a pretensão de que o irrealismo neoclássico seja o único selo de qualidade acadêmica (SKOTT, 2023). Resta-nos perguntar: quais caminhos institucionais a heterodoxia deve pavimentar para romper o bloqueio imposto por esse falso monopólio da “ciência econômica séria” no debate público brasileiro?

Referências

ESTEVÃO, M. A macroeconomia mudou. Valor Econômico, São Paulo, 28 ago. 2026.

GODLEY, W.; LAVOIE, M. Monetary Economics: An Integrated Approach to Credit, Money, Income, Production and Wealth. Nova York: Palgrave Macmillan, 2007.

GONÇALVES, C. E. O estado da macroeconomia. Valor Econômico, São Paulo, 2026.

LAKATOS, I. O falseamento e a metodologia dos programas de pesquisa científica. In: LAKATOS, I.; MUSGRAVE, A. (org.). A crítica e o desenvolvimento do conhecimento. São Paulo: Cultrix, 1979. p. 109-243.

OREIRO, J. L. A descoberta da pólvora macroeconômica. Substack, [S. l.], 2026. Disponível em: https://joseluisoreiro.substack.com/p/a-descoberta-da-polvora-macroeconomica. Acesso em: 29 ago. 2026.

SKOTT, P. Structuralist and Behavioural Macroeconomics. Cambridge: Cambridge University Press, 2023.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

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José Luis Oreiro
Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador nível I do CNPq.

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