Modelo Fiscal Simplificado da Ocupação da Venezuela

translate

image_processing20200201-29235-igz6jd

Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

Diante a declaração do Imperador Donald – “a invasão à Venezuela nada custará aos contribuintes norte-americanos” – cabe simular um modelo fiscal simplificado capaz de comparar gastos militares, receitas corporativas e tributárias sob diferentes cenários, por exemplo, com e sem operações petrolíferas no exterior. Esboçarei projeções numéricas para o orçamento federal dos EUA em caso de manutenção de tropas e armas na Venezuela por longo período até o fim do mandato de Donald Trump no início de 2029.

A simulação ajuda a retirar o debate do plano retórico e colocá-lo no plano orçamentário concreto. Abaixo faço a leitura econômica do modelo, explicito as hipóteses, interpreto os resultados numéricos e extraio implicações estruturais para a Economia Política do imperialismo contemporâneo.

O exercício compara três cenários anuais, projetados por quatro anos (horizonte típico de um mandato presidencial), com valores conservadores e deliberadamente favoráveis à tese “petrolífera”.

Os custos são os do orçamento total da Defesa dá em torno de ~ US$ 900 bilhões/ano como referência, não totalmente imputado. O custo de bases e tropas no exterior (global) é estimado em US$ 75 bilhões/ano.

O custo adicional específico de presença militar prolongada na Venezuela envolveria pagamentos das tropas, logística, armamentos, inteligência (espionagem), grosso modo, cerca de US$ 20 bi/ano em uma estimativa moderada.

Quanto às receitas, os lucros globais das petroleiras americanas atingem cerca de US$ 300 bilhões/ano. A alíquota efetiva média de imposto corporativo é apenas 14%. O lucro adicional otimista com exploração de petróleo na Venezuela seria US$ 25 bilhões/ano, assumindo privatizações, viabilidade operacional, ausência de sabotagens, estabilidade mínima.

Resultados Calculados da Simulação

CenárioCusto militar externo anual (US$ bi)Receita tributária petrolífera
(US$ bi)
Saldo fiscal anual
(US$ bi)
Saldo em 4 anos
(US$ bi)
Status quo
(sem Venezuela)
7542,0–33,0–132
Petróleo na Venezuela,
sem tropas
7545,5–29,5–118
Petróleo + tropas na Venezuela9545,5–49,5–198

Em uma leitura econômica direta (sem ideologia), a tese da “compensação fiscal” não se sustenta. Mesmo no cenário mais favorável às empresas, o ganho tributário adicional é de apenas US$ 3,5 bilhões/ano, enquanto o custo militar adicional é de US$ 20 bilhões/ano. Cada dólar extra arrecadado com petróleo amplia, e não reduz, o déficit fiscal associado à presença militar.

Na verdade, a militarização piora o resultado fiscal. Uma comparação decisiva é entre petróleo sem tropas com déficit anual de -US$ 29,5 bilhões e petróleo com tropas com déficit anual de -US$ 49,5 bilhões. A militarização deteriora o resultado fiscal em ~US$ 20 bilhões/ano, exatamente o custo militar incremental.

Em uma interpretação estrutural de Economia Política, isso acontece sistemicamente porque o sistema funciona assim: gastos militares são públicos, imediatos, rígidos, financiados por déficit e dívida. Lucros petrolíferos são privados, parcialmente tributados, internacionalmente elásticos, protegidos por engenharia fiscal.

Não existe canal institucional capaz de converter “petróleo extraído por empresa privada no exterior” em “financiamento direto da presença militar do Estado”.

O verdadeiro “retorno” do imperialismo não é fiscal, porque o retorno buscado não é arrecadação, equilíbrio orçamentário, nem redução da dívida pública. É poder geopolítico, controle de rotas e recursos, dissuasão de rivais (como China e Rússia), sustentação do dólar como moeda internacional, defesa de posições estratégicas de longo prazo.

O imperialismo custa caro justamente porque não é um negócio fiscal. Trata-se apenas uma aposta sistêmica de poder por parte da extrema-direita neofascista, sediada nos Estados Unidos – e com seguidores inclusive no Brasil.

Manter tropas e armas na Venezuela ampliaria o déficit fiscal dos EUA, mesmo com exploração petrolífera bem-sucedida. A arrecadação tributária corporativa é incapaz de compensar custos militares, por desenho institucional.

O financiamento real ocorre via dívida pública, emissão monetária indireta, absorção de poupança global em dólar. O imperialismo contemporâneo é fiscalmente deficitário, politicamente estratégico, financeiramente viável apenas porque o dólar ainda é moeda hegemônica. Até quando?!


*Fernando Nogueira da Costa é Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com

Foto de capa:  PDVSA/Divulgação

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático