Mendonça, o ministro que erra sempre para o mesmo lado | Por Castigat Ridens

Decisões de André Mendonça expuseram Moraes, abriram uma guerra no STF e ajudaram a soterrar fatos incômodos ao bolsonarismo. Erros, coincidências ou estratégia?
Publicado em 4 de setembro de 2026 às 19:00
Editado em 4 de setembro de 2026 às 17:57
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André Mendonça pode não estar executando nenhuma operação política. Pode ser apenas uma sucessão espetacular de erros. O curioso é que todos eles ajudam Flávio Bolsonaro, prejudicam Lula ou atingem quem investiga o bolsonarismo. Haja coincidência.

Comecemos fazendo justiça ao ministro André Mendonça.

Não existe, até agora, prova de que ele tenha montado uma operação para ajudar Flávio Bolsonaro na eleição presidencial.

É perfeitamente possível que seja tudo incompetência.

Mas seria uma incompetência rara, quase barroca: a de um ministro do Supremo, ex-ministro da Justiça, ex-advogado-geral da União e procurador de carreira que tropeça em questões jurídicas elementares e, por extraordinário capricho do acaso, produz sempre consequências políticas na mesma direção.

Pode acontecer.

Um raio também pode cair várias vezes no mesmo poste.

O juiz que resolveu brincar de delegado

No material apreendido pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro apareceram referências a Alexandre de Moraes.

Mendonça poderia ter feito aquilo que a PGR diz que deveria ter feito: encaminhar a questão à Presidência do STF para que o plenário decidisse sobre eventual investigação.

Seria burocrático.

Seria juridicamente seguro.

Seria terrivelmente sem graça.

Preferiu determinar que a PF aprofundasse a investigação, identificasse pessoas e examinasse suas interações.

O problema é que, segundo o procurador-geral Paulo Gonet, juiz não faz isso.

Juiz julga. Polícia investiga. Ministério Público acusa.

É uma dessas sutilezas jurídicas que talvez tenham escapado a um ministro do Supremo.

A PF obedeceu e entregou aproximadamente 218 páginas. Cerca de 190 tratavam de Moraes.

Agora a PGR pede a nulidade da investigação determinada por Mendonça por entender que ele ultrapassou os limites de sua função e assumiu papel de investigador.

E aqui está a beleza da obra.

Se Gonet estiver certo, Mendonça conseguiu transformar material obtido numa investigação regular em uma investigação vulnerável à nulidade justamente quando resolveu aprofundá-la por iniciativa própria.

Não é pouca coisa.

A investigação morre. A manchete fica

O problema é que nulidade judicial não tem efeito retroativo sobre a memória coletiva.

Uma investigação anulada pode desaparecer do processo.

Mas não desaparece do Google, das redes sociais, da campanha eleitoral nem da cabeça do eleitor.

Antes que a PGR viesse dizer que a investigação pode ser nula, Mendonça retirou o sigilo.

O material sobre Moraes chegou à imprensa, virou manchete, explodiu no STF e ofereceu ao bolsonarismo aquilo que ele mais aprecia depois de uma motociata: Alexandre de Moraes no papel de vilão.

Se a investigação for anulada amanhã, paciência.

Juridicamente, pode não valer nada.

Politicamente, já valeu.

Essa é talvez a parte mais extraordinária de toda a história: uma investigação pode morrer na Justiça depois de cumprir perfeitamente sua função na eleição.

Se essa função nunca existiu, temos diante de nós uma coincidência de excepcional eficiência.

E que semana para fazer isso

A crise explode a pouco mais de um mês da eleição, justamente quando Lula começava a colher resultados em duas pautas populares.

Em 2 de setembro, o fim da escala 6×1 passou pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Cerca de 70% dos brasileiros apoiam a proposta.

No mesmo período avançou no Congresso a medida do governo para zerar o imposto federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, a famigerada taxa das blusinhas.

Lula tinha duas boas notícias para vender na campanha.

Só havia um problema.

Ninguém estava olhando.

O país discutia Mendonça, Moraes, Vorcaro e a guerra instalada no Supremo.

Que azar.

Enquanto isso, Flávio trabalhava

Mas nem todos perderam tempo acompanhando a novela.

Segundo o jornalista Leonardo Sakamoto, depois que a CCJ aprovou o fim da 6×1, Flávio Bolsonaro procurou pessoalmente Davi Alcolumbre e pediu que ele não colocasse a proposta em votação antes das eleições.

O motivo teria sido exposto com admirável sinceridade: a aprovação poderia “desequilibrar as eleições”.

Traduzindo do parlamentar para o português: poderia ajudar Lula.

Alcolumbre compreendeu perfeitamente a gravidade do problema.

No dia 3 anunciou que o Senado votaria a proposta depois das eleições.

Enquanto Brasília discutia a guerra no Supremo, Flávio conseguiu retirar da campanha uma pauta apoiada por sete em cada dez brasileiros.

Não há prova de combinação entre ele e Mendonça.

Apenas aconteceu de a tempestade provocada pelas decisões do ministro fornecer uma bela cobertura para a operação política de Flávio.

Coincidências são assim mesmo. Não pedem autorização.

E a propina? Depois a gente vê

No meio da tempestade surgiu ainda uma acusação que, em semana normal, dificilmente passaria despercebida.

Vorcaro afirmou, em propostas de delação rejeitadas pela PF e pela PGR, que R$ 5 milhões registrados como doações às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022 seriam, na realidade, contrapartida de um suposto esquema de propina.

Não está comprovado. Os acusados negam irregularidades.

Mas a acusação praticamente não respirou no noticiário antes de ser soterrada pela guerra do STF.

Curiosa hierarquia: Vorcaro é explosivo quando aparece associado a Moraes. Quando acusa Bolsonaro e Tarcísio de receber propina, torna-se imediatamente um personagem que recomenda cautela.

E cautela, como sabemos, nunca fez mal a ninguém.

O estranho caso do sigilo seletivamente tímido

Há ainda outra coincidência — e talvez a mais difícil de explicar.

O relatório capaz de atingir Moraes ficou público.

Já o braço da investigação do Banco Master potencialmente perigoso para Flávio Bolsonaro continua sob sigilo.

É o Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro para o qual foram destinados mais de R$ 60 milhões e cuja captação teve participação de Flávio.

E há uma diferença particularmente interessante.

Nesse caso, Mendonça fez tudo como manda o figurino.

A PF pediu a investigação.

A PGR concordou.

O ministro autorizou.

Que coisa antiquada.

Há ainda a colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, que afirma ter movimentado grandes quantias a mando de Vorcaro. Empresas relacionadas a ele aparecem no circuito financeiro envolvendo o fundo associado ao filme.

E quem está analisando essa colaboração?

André Mendonça.

Nosso protagonista.

Temos, portanto, dois tratamentos.

No caso que alcança Moraes, Mendonça toma a iniciativa que a PGR considera ilegal, manda aprofundar a investigação, recebe um relatório explosivo e retira o sigilo.

No caso que pode alcançar Flávio, o procedimento é formalmente correto — e o sigilo permanece.

Talvez haja razões jurídicas impecáveis para essa diferença.

Mas, em plena eleição presidencial, seria conveniente que fossem impecavelmente explicadas.

Todo mundo virou suspeito

A crise conseguiu outra façanha.

O caso começou com o Banco Master.

Agora discutimos PF, PGR, Alexandre de Moraes, André Mendonça, cadeia de custódia e Inquérito das Fake News.

Quase tudo, enfim, menos aquilo que havia no começo da história.

Segundo relatórios da PF e acusações de Moraes, Mendonça teria manifestado desconfiança em relação ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral Paulo Gonet.

Moraes acusa Mendonça ainda de interferir em investigações, tratativas de delações, definição de alvos e procedimentos relacionados à cadeia de custódia.

Nada disso está comprovado.

Mas observemos o efeito.

A PF passa a ser suspeita.

A PGR passa a ser suspeita.

Moraes, inimigo número 1 do bolsonarismo, passa a ser suspeito.

E o material que pode atingir Flávio continua em silêncio.

Se foi acidente, foi um acidente extremamente organizado.

Moraes também ajuda

Alexandre de Moraes reagiu pedindo investigação sobre Mendonça e tentou inicialmente fazer isso dentro do Inquérito das Fake News, relatado por ele próprio.

Excelente ideia para quem estava sendo acusado justamente de concentrar poderes excessivos.

Edson Fachin interveio e retirou o caso dali.

Moraes deixou de ser apenas alvo e entrou pessoalmente no ringue.

Para o bolsonarismo, difícil imaginar presente melhor.

A crise agora se retroalimenta. Mendonça fornece munição contra Moraes. Moraes reage de forma a fornecer munição contra si próprio.

E Flávio assiste.

O prodígio estatístico

Nada disso prova que André Mendonça esteja executando uma operação política para favorecer Flávio Bolsonaro.

Coincidência não é prova. Benefício político não demonstra combinação. Resultado não demonstra intenção.

Mas vejamos a sequência.

Mendonça escolhe um procedimento que pode tornar nula a investigação sobre Moraes. Antes que isso aconteça, o conteúdo chega ao público. Moraes sofre o desgaste. O STF entra em guerra. PF e PGR são colocadas sob suspeita. Pautas favoráveis a Lula perdem espaço. Flávio aproveita a confusão para adiar a 6×1. Uma acusação de suposta propina contra Bolsonaro e Tarcísio é soterrada. E o Dark Horse permanece sob sigilo.

Tudo isso pode ser explicado por erros, coincidências e decisões processuais independentes.

Pode.

A dificuldade começa quando se percebe que erros, coincidências e decisões independentes produzem resultados extraordinariamente coerentes entre si.

Incompetência ou estratégia?

É aí que a brincadeira deixa de ser apenas engraçada.

Se Mendonça queria investigar Moraes, por que escolheu um procedimento que pode anular a investigação?

Se queria preservar a prova, por que não seguiu o caminho juridicamente seguro apontado pela PGR?

Por que retirou o sigilo naquele momento?

Havia alguma urgência?

E por que o material contra Moraes ganhou publicidade enquanto o Dark Horse permanece protegido?

Essas perguntas não provam uma conspiração.

Mas deixam Mendonça diante de duas alternativas pouco confortáveis.

Ou um ministro do Supremo, ex-ministro da Justiça, ex-advogado-geral da União e procurador de carreira não conseguiu antecipar consequências jurídicas e políticas bastante previsíveis.

Ou conseguiu.

Na primeira hipótese, temos um problema de competência.

Na segunda, temos um problema muito mais grave — e precisamos descobrir qual era o objetivo.

Porque acreditar em coincidências é saudável.

Acreditar que todas elas pegam o mesmo ônibus, sentam lado a lado e descem juntas na porta do comitê eleitoral de Flávio Bolsonaro já exige alguma devoção.


Ilustração da capa: André Mendonça tropeça no tabuleiro, as peças caem e, por uma extraordinária coincidência, Flávio Bolsonaro permanece favorecido; enquanto o material sobre Moraes se espalha, o Dark Horse continua trancado. Crédito: Ilustração produzida por inteligência artificial para a Rede Estação Democracia

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