Marcha ou marketing político?

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Marcha Paracatu Brasília - imagem gerada por IA ChatGPT

Por CASTIGAT RIDENS*

Paracatu–Brasília. Aproximadamente 240 quilômetros. Seis dias de deslocamento. Média próxima de 40 km por dia. Os números, por si só, já seriam suficientes para despertar curiosidade. Mas o que realmente chama a atenção na chamada “Caminhada pela Justiça e Liberdade”, liderada por Nikolas Ferreira, não é o feito físico — é o seu enquadramento político, simbólico e midiático.

Não se trata apenas de uma marcha. Trata-se de um produto político cuidadosamente embalado.

Da marcha à narrativa

Formalmente, o discurso público apontou para a anulação das condenações dos golpistas do 8 de janeiro. Mas, diante dos fatos, da composição política do ato e da retórica mobilizada, o objetivo real se revela outro: a construção de um movimento simbólico pela libertação de Jair Bolsonaro e da cúpula política e militar do projeto golpista.

Não se trata da libertação dos chamados “buchas de canhão” — os executores de base, já em sua maioria em liberdade, em regimes abertos, semiabertos ou sob medidas cautelares. Trata-se da tentativa de deslocar o centro da narrativa: dos responsáveis diretos pelos atos materiais para os responsáveis políticos, ideológicos e organizadores do processo golpista.

A marcha não se organiza em torno de vítimas concretas do sistema penal, mas em torno de uma engenharia simbólica de vitimização das elites do golpismo, que busca transformar responsabilização jurídica de lideranças políticas em perseguição ideológica.

Em termos técnicos, 240 km em seis dias configuram uma marcha de resistência, não uma “caminhada” no sentido comum da palavra. Esse ritmo é superior ao de peregrinações tradicionais, acima da média de trilhas de longa distância e comparável a padrões de marchas organizadas com logística, apoio e preparação prévia.

Mas o discurso público constrói outra imagem: a do “cidadão comum”, do gesto simples, da espontaneidade popular, do corpo que caminha em nome de valores abstratos — justiça, liberdade, pátria, fé, povo.

A estética é conhecida. Não é nova. É clássica.

O corpo em deslocamento vira símbolo. A estrada vira palco. O esforço vira narrativa moral. A exaustão vira virtude política.

O corpo como propaganda

A caminhada não é apenas um ato físico: é uma performance política.

Ela transforma o deslocamento em espetáculo e o espetáculo em capital simbólico. Cada passo vira conteúdo. Cada bolha vira storytelling. Cada parada vira frame. Cada foto vira prova de autenticidade.

Não se constrói ali apenas uma marcha — constrói-se um personagem.

O político deixa de ser apenas parlamentar e passa a encarnar um arquétipo: o do missionário, do enviado, do ungido, do portador de uma causa que transcende a política institucional.

Não é coincidência. É método.

A ironia dos números

Há ainda um elemento que atravessa toda a narrativa e que, no mínimo, suscita perguntas legítimas: a verificabilidade concreta do próprio percurso. Em eventos dessa natureza — com apoio logístico, veículos de suporte, equipes de comunicação, pontos de descanso organizados e gestão permanente de imagem — a fronteira entre caminhada integral e encenação de deslocamento tende a se tornar estruturalmente opaca.

Não se trata de formular uma acusação direta, mas de apontar um problema político e comunicacional objetivo: sem rastreamento público contínuo, sem registros auditáveis de todo o trajeto e sem transparência operacional, o feito passa a existir mais como narrativa construída do que como percurso plenamente verificável.

Em termos simbólicos, isso desloca a caminhada do campo do fato para o campo da performance — onde o que importa não é tanto o caminho percorrido, mas a imagem produzida.

Há um detalhe incômodo para a narrativa da “caminhada popular”: 40 km por dia não são compatíveis com uma marcha espontânea de pessoas comuns. Isso exige preparo, suporte, logística, ritmo controlado, estrutura de apoio, descanso planejado.

Ou seja: não é o improviso do povo — é a organização de um evento.

O paradoxo é claro: vende-se simplicidade, mas opera-se complexidade. Vende-se espontaneidade, mas executa-se planejamento. Vende-se humildade, mas constrói-se espetáculo.

Marchas históricas e políticas

A história também oferece um paralelo particularmente revelador: a Marcha sobre Roma (1922), liderada por Benito Mussolini. Mais do que um deslocamento físico, tratou-se de uma encenação de força, um ato simbólico de pressão política que transformou mobilização de rua em capital de poder, sem programa democrático, sem debate público e sem mediação institucional — abrindo caminho para a captura do Estado.

A lógica era semelhante: o deslocamento como espetáculo, o corpo coletivo como símbolo de autoridade, a rua como instrumento de intimidação simbólica e a marcha como mecanismo de legitimação política.

Caminhadas políticas e simbólicas fazem parte da história moderna:

  • Marcha do Sal (1930), liderada por Gandhi: 390 km em 24 dias, com objetivo político claro, estratégia de desobediência civil explícita e mobilização popular massiva.
  • Marcha sobre Washington (1963), nos EUA: deslocamento coletivo articulado, com agenda concreta de direitos civis e reivindicações institucionais objetivas.
  • Long March (1934–35), na China: deslocamento de sobrevivência política, não espetáculo midiático.
  • Marcha Nacional pela Reforma Agrária (1997), do MST, também conhecida como Marcha pela Terra: milhares de trabalhadores rurais caminharam por semanas até Brasília, com pauta concreta (reforma agrária, políticas públicas, direitos sociais), organização coletiva e reivindicação institucional explícita.

Em todas elas, o deslocamento era meio — não fim. Instrumento — não produto.

Na caminhada Paracatu–Brasília, o deslocamento funciona como mecanismo central de construção política: a marcha não apresenta um programa — ela substitui o programa pela performance.

Existe uma pauta real e clara (a proteção e a reabilitação política das lideranças golpistas) que é veiculada simbolicamente, por meio de imagens, narrativa emocional, identidade de grupo e mobilização afetiva.

Em termos políticos, o percurso produz legitimidade simbólica, capital político e base de mobilização. O caminho não organiza um projeto no sentido programático — ele organiza um campo de poder.

Caminhadas populares e não políticas

Mesmo quando comparada a caminhadas populares não políticas, o contraste permanece evidente:

  • Peregrinações religiosas como o Caminho de Santiago, Fátima ou Aparecida: médias usuais entre 15 e 25 km/dia, com progressão gradual, adaptação física e lógica comunitária.
  • Trilhas de longa distância (Appalachian Trail, PCT, trilhas andinas): iniciantes mantêm 15–20 km/dia; caminhantes experientes, 25–35 km/dia.
  • Caminhadas recreativas de massa (circuitos urbanos, ecoturismo, turismo de estrada): ritmos moderados, com descanso, paradas culturais e progressão lenta.

Nesses contextos, o deslocamento é vivido como experiência — não como espetáculo. O percurso é processo — não produto midiático. O corpo é vivência — não propaganda.

A marcha Paracatu–Brasília, ao contrário, submete o corpo à lógica da comunicação: o caminhar não é fim em si, é instrumento narrativo.

O que realmente está em movimento

Mais do que corpos, o que se move é uma estratégia para a construção de capital simbólico, fortalecimento de identidade de grupo, mobilização emocional, produção de conteúdo permanente e conversão de performance em engajamento digital.

A estrada é só o cenário.

O custo real da encenação

A marcha também deixou consequências que escapam à estética da propaganda. Durante o ato em Brasília, manifestantes foram atingidos por um raio, resultando em feridos — um episódio trágico que expõe, de forma brutal, o custo humano de eventos desse tipo quando convertidos em mobilizações simbólicas de massa sem euipes de socorro de emergência, proteção e responsabilidade coletiva.

Enquanto a narrativa celebra o heroísmo, o espetáculo e a performance, corpos reais sofrem consequências reais. A política, quando transformada em encenação permanente, tende a naturalizar riscos e a tratar danos como efeitos colaterais aceitáveis da mobilização.

Território da encenação

A caminhada chegou a Brasília. Mas não chegou ao campo da política pública, nem ao debate institucional, nem ao terreno da democracia substantiva.

Chegou ao território da encenação.

240 km depois, o que se construiu não foi uma pauta — foi uma imagem. Não foi um programa — foi um personagem. Não foi uma proposta — foi um símbolo.

E símbolos, como se sabe, caminham mais rápido do que ideias.

Mas também se esgotam mais rápido do que projetos.

*’Castigat Ridens’ é um pseudônimo criado a partir da expressão latina ‘Castigat ridendo mores’, que significa ‘corrige os costumes rindo’ ou ‘critica a sociedade pelo riso’, muito usada no contexto da comédia como instrumento de crítica social.”

Imagem da capa: Marcha Paracatu Brasília – imagem gerada por IA ChatGPT


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