Há muito o que comemorar neste novo ano brasileiro que se inicia no pós-carnaval. Como sempre, a folia levou para as ruas irreverência popular diante de fatos que incomodam quando noticiados pelos meios de comunicação de massa e pelas redes sociais. Cada vez mais ela é usada como instrumento de resgate de histórias – tanto aquelas que deixaram de ser contadas; quanto as mal contadas.
Brasil afora, nas ruas foram também celebradas vitórias das artes, com destaque para os sucessos internacionais do cinema nacional. Sucessos – como o de ‘Ainda Estou Aqui’ e ‘O Agente Secreto’ – construídos com base no resgate de aspectos da história brasileira. Sejam esses o arbítrio da ditadura de 1964/85; sejam eles o conluio entre as forças de repressão/extermínio e grupos econômicos.
Esse espírito crítico demonstrado nas ruas durante as celebrações de carnaval e nas telas de cinema, dentre outros, felizmente está longe de ser uma especificidade brasileira. Mundo afora em eventos que celebram de formas diversas a humanidade que nos une a todos, têm sido crescentes as vozes que protestam contra atrocidades que acompanham lutas de poder étnico, econômico e militar.
Destaque para o espetáculo durante o intervalo do SuperBowl, evento que celebra o final do campeonato de futebol estadunidense e que mobiliza parte considerável da população dos EEUU e telespectadores mundo afora. O espetáculo deste ano, conduzido pelo cantor porto-riquenho Bad Bunny, foi além da crítica apresentada por ele quando recebeu o Prêmio Grammy 2026 por seu álbum ‘Debe tirar más fotos’.
Se naquela ocasião o cantor foi enfático em seu protesto contra a política imigratória de Trump (‘imigrantes não são animais mas humanos e americanos’ e ‘fora ICE’), no Superbowl ele resgatou para todos os que vivem no Continente a identidade de americanos. Resgate necessário diante da contínua apropriação indébita por parte dos estadudinenses das expressões América – como se fossem eles o Continente, e americano – como só quem nascesse naquela parte do território ao norte das américas fosse americano.
Mais importante, o espetáculo apresentado por Bad Bunny serve para despertar todos os que habitam o continente americano para suas singularidades culturais e para a continuada exploração pelo imperialismo dos EEUU. Exploração acentuada e explicitada, para quem quiser ver, pelo governo Trump.
Exploração explicitada pela maneira como comparsas seus se apropriam da produção e exportação de petróleo venezuelano pós sequestro do Presidente Maduro. Exploração acentuada por seus novos movimentos que buscam subordinar a seus interesses países das Américas que detêm reservas de terras raras.
Tanto no caso do petróleo quanto no que diz respeito a terras raras essa exploração deve ser vista como mais uma ameaça à soberania do Brasil. Por deter reservas consideráveis desses recursos não renováveis, o País precisa se preparar para um enfrentamento que vai além do que pode ser considerado normal em negociações internacionais.
A exploração desses recursos precisa considerar fatores outros além dos que respondem à lógica financista de curto prazo. Há que levar em conta fatores socioambientais pois a maior parte deles se encontra em territórios ocupados por povos originários e quilombolas. O relaxamento de regras já estabelecidas quanto ao licenciamento de exploração de recursos não renováveis é umas das premissas do que desejam o governo Trump e seu círculo íntimo sempre à busca de ‘fazer um bom negócio’.
‘Bom negócio’ onde existir a oportunidade para ganhos rápidos e fáceis para poucos estadunidenses em detrimento da maioria mundo afora. Resistir a essa lógica exige mobilização para muito além das frágeis instituições que dão corpo à democracia brasileira.
Exige espírito crítico na academia, nos meios de comunicação de massa, na sociedade civil e no meio empresarial para entender que a ruptura pela qual passa a geopolítica mundial é uma ameaça e uma oportunidade. Países como o Brasil precisam se posicionar de forma distinta daquela registrada em boa parte de sua história. Ao longo dela o que prevaleceu foi a subordinação acrítica a interesses externos contrários à sua soberania política, cultural e econômica.
Posicionamento crítico que pode se inspirar na resistência e resiliência de tantos excluídos homenageados durante o carnaval e no superbowl. Posicionamento crítico e contestatório como fazem as artes de maneira geral com relação à cultura dominante.
Cultura dominante que busca sufocar a diversidade e pluralidade que caracterizam nossas riquezas socioambientais. Cultura dominante dirigida por poucos que optam por entregar essas riquezas para o imperialismo estadunidense e continuar se beneficiando com esse entreguismo.
Para além da racionalidade objetivada que geralmente permeia os mundos acadêmico, empresarial e das comunicações, o momento exige desses segmentos da sociedade brasileira resistência à versão ampliada do neocolonialismo preconizado pelo governo Trump. Resistência e resiliência demonstradas por muitos desde a invasão europeia às terras brasileira e que muito contribuíram e continuam contribuindo para o Brasil ainda estar aqui e merecer presente e futuro melhores.
Foto de capa: IA





