Por Solon Saldanha *
Levantamento realizado na primeira quinzena de março, sobre o qual se debruçam agora os especialistas examinando com lupa eleitores de centro, aponta que o atual presidente detém 31% das intenções de voto no segmento que se autodeclara neutro, contra 17% do senador do PL. Grupo de eleitores sem adesão prévia aos polos magnéticos da política nacional é considerado o fiel da balança para a sucessão de 2026.
Uma nova rodada de pesquisas do Instituto Datafolha, concluída neste mês de março, revela que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) consolidou uma vantagem significativa sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) entre os eleitores que se identificam como de “centro”. No principal cenário de primeiro turno testado, o petista aparece com 31% das intenções de voto no grupo, enquanto o parlamentar fluminense soma 17% — uma distância de 14 pontos percentuais que acende o alerta no campo da oposição.
O segmento de centro, definido pelo instituto como os eleitores que se posicionam no número 4 em uma escala de 1 (extrema-esquerda) a 7 (extrema-direita), é visto por especialistas como o território decisivo para o pleito de outubro. Sem vínculos ideológicos rígidos com o petismo ou o bolsonarismo, esses cidadãos tendem a decidir o voto com base em critérios pragmáticos e de rejeição.
Cenários de Primeiro Turno
A desistência do governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), anunciada na última segunda-feira (23), alterou a configuração das forças. Na ausência do paranaense, Lula mantém a liderança isolada no centro. Atrás de Flávio Bolsonaro, figuram o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), com 9%, e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), com 6%.
A força de Lula neste nicho também é percebida na modalidade espontânea, quando os nomes não são apresentados: 15% dos centristas mencionam o presidente, enquanto apenas 2% citam Flávio e outros 2% lembram do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo Turno e Rejeição
Apesar da folga inicial, o cenário para um eventual segundo turno projeta um equilíbrio maior. Entre os eleitores de centro, Lula alcança 41% contra 32% de Flávio Bolsonaro. Embora a diferença numérica seja de nove pontos, o instituto considera que há um empate técnico devido à margem de erro específica deste recorte, que é de cinco pontos percentuais.
No quesito rejeição, os índices são elevados para ambos os lados, o que reforça a tese de que o eleitor independente buscará o “menos pior”. Entre os autodeclarados de centro, 51% afirmam que não votariam em Flávio de jeito nenhum, enquanto 45% dizem o mesmo sobre Lula.
Nuances do Eleitorado e Polarização
Para o professor de ciência política da USP, Sérgio Simoni, os dados mostram uma vantagem real para o governo, mas exigem cautela analítica. Ele destaca que o conceito de “centro” para o eleitor médio pode diferir da definição acadêmica. O Datafolha utilizou uma segunda escala (de 1 a 5) para medir o grau de alinhamento com os polos: 28% dos entrevistados são “petistas raiz” e outros 28% são “bolsonaristas raiz”. O grupo que não se identifica com nenhum dos dois soma 19%.
Curiosamente, mesmo liderando as intenções de voto, Lula enfrenta um desejo de mudança nas ações governamentais: 79% dos eleitores de centro e 81% dos independentes afirmam preferir que as práticas do próximo presidente sejam diferentes das atuais.
Perfis Distintos
A pesquisa também traçou a demografia dos polos e do centro:
- Bolsonarista: Homem, branco, evangélico, morador do Sul, Centro-Oeste ou Norte.
- Petista: Mulher, acima de 60 anos, católica, moradora do Nordeste e com renda de até dois salários mínimos.
- Centro: Homem, jovem (16 a 24 anos), estudante de nível superior, sem religião e residente na região Sudeste.
O levantamento do Datafolha ouviu 2.004 pessoas em 137 municípios brasileiros. A margem de erro geral é de dois pontos percentuais. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o código BR-03715/2026.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Lula e Flávio. Créditos: Pedro Ladeira e Danilo Verpa – Folhapress




