A escalada da violência política de esquerda nas universidades públicas brasileiras | Por Rodrigo Perez

Como a omissão institucional e o punitivismo sem o devido processo legal estão comprometendo a convivência democrática e a segurança nas universidades brasileiras.
Publicado em 6 de setembro de 2026 às 14:00
Editado em 6 de setembro de 2026 às 14:08

Doutor em História Social pela UFRJ, com pós-doutorado na Universidade Complutense de Madrid. Professor da Universidade Federal da Bahia.

Tudo corria normalmente no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ naquela noite de terça-feira, 25 de agosto. Em uma das dezenas de salas do prédio, acontecia a aula de Educação Brasileira, disciplina ministrada pela professora Sabrina Moehlecke. Por volta das 20 horas, a sala foi invadida por um grupo de estudantes que comunicou à professora que havia um nazista em sua aula e que ele precisava ser retirado. As imagens disponíveis registram que a docente autorizou a entrada do grupo, que se dirigiu até Diego Costa da Silva Araújo, de 27 anos, estudante do curso de História regularmente matriculado na disciplina.

Um dos acusadores disse que Diego estava fazendo apologia ao nazismo por vestir uma camisa da banda Death in June, que trazia uma versão do símbolo Totenkopf, historicamente associado ao nazismo. O acusado tentou argumentar, explicando que se tratava de uma sátira e que outros artistas também utilizavam aquela estética. Para reforçar seu argumento, mostrou um bottom com uma suástica cortada por uma faixa de proibição, ou seja, um símbolo antinazista. O grupo de acusadores, contudo, não se convenceu e o retirou da sala de aula, sob a alegação de que seria conduzido até uma viatura da Polícia Militar que estaria esperando fora do campus, para que prestasse esclarecimentos na delegacia mais próxima. A professora Moehlecke permitiu que seu aluno fosse retirado do recinto por outros estudantes, sem a presença de uma autoridade institucional.

Nos corredores, uma pequena multidão formada por outros estudantes cercou Diego aos gritos de “recua, fascista, recua”. Nas escadas, começaram as agressões físicas. Diego ficou acuado enquanto várias pessoas o chutavam e batiam. O linchamento continuou do lado de fora do prédio. Nenhuma viatura da PM estava no local. A partir de então, começou a guerra de versões. Diego nega veementemente que seja nazista, declara-se de esquerda e afirma ser defensor dos direitos humanos. Por outro lado, estudantes envolvidos no episódio sustentam que ele teria vínculos ou afinidades com o neonazismo. Nos dias seguintes, também surgiram acusações de que Diego teria proferido insultos racistas e misóginos, alegações que ele nega e que não aparecem nos vídeos tornados públicos até o momento.

A comissão de sindicância instaurada pela UFRJ e o inquérito aberto pela Polícia Civil esclarecerão as circunstâncias do episódio, apurando se Diego estava fazendo apologia ao nazismo. Certo mesmo é que aconteceu um linchamento no campus, promovido por estudantes de esquerda. Precisamos ter clareza de que este não foi um evento isolado. Nos últimos anos, o país assiste a uma progressiva escalada da violência política de esquerda nas universidades públicas.

Uma estudante de mestrado foi expulsa porque sua discussão pública incomodava movimentos sociais e partidos políticos progressistas. Uma professora precisou mudar de instituição depois de ser acusada de usar o pronome incorreto ao se dirigir a uma pessoa trans. Outra pesquisadora, doutoranda, teve que recorrer à Justiça para conseguir defender sua tese, após movimentos pressionarem a universidade a impedir a banca, embora a pesquisa estivesse devidamente autorizada pelo Comitê de Ética. Exemplos como esses se multiplicam, alguns já amplamente denunciados pela imprensa. Em nenhum desses episódios a burocracia universitária funcionou adequadamente para proteger as vítimas de patrulhamento e perseguição.

Se algum parlamentar do PL ou militante do MBL entra em um campus para provocar estudantes, rapidamente são publicadas notas de repúdio e instaurados procedimentos de investigação. Parece que o senso de justiça de parte da comunidade universitária está calibrado apenas para combater o autoritarismo e a violência política quando partem da direita. Militantes de esquerda seriam naturalmente virtuosos e estariam acima de qualquer suspeita. Espera-se que o linchamento na UFRJ seja um divisor de águas e que todos os responsáveis pelas agressões físicas recebam a justa punição, que, diante da gravidade das imagens, dificilmente poderia ser outra que não a expulsão.


Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

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Rodrigo Perez
Doutor em história social pela UFRJ, com pós-doutorado na Universidade Complutense de Madrid. Professor do departamento de história da UFBa.

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