O Professor Adalmir Marquetti fez uma resposta a controvérsia iniciada pelo Professor Fernando Nogueira da Costa sobre o Pós-Keynesianismo e a escola de Campinas neste espaço da RED. Na sua resposta o Professor Marquetti endossa minha argumentação de que o Pós-Keynesianismo no Brasil não se reduz a “escola de Campinas” – que não deve ser confundida com o IE/Unicamp, como bem me lembrou o professor José Maria da Silveira – e que o texto do Professor Nogueira “não explora as diferenças internas ao próprio pós-keynesianismo, tradição marcada por debates relevantes sobre método, teoria monetária, política econômica e desenvolvimento no exterior e no Brasil”. Para o professor Marquetti meu texto “problematiza justamente a construção dessa dicotomia e demonstra que o pós-keynesianismo brasileiro, praticado na UFRJ, UnB, UFRGS, CEDEPLAR, FGV-São Paulo, entre outras, sempre incorporou temas como restrição externa, hierarquia de moedas e desenvolvimento periférico”.
No entanto, o professor Marquetti aponta o que, a seu ver, seriam dois problemas ou limitações na minha resposta. A primeira consiste em “sugerir que a heterodoxia produtiva e rigorosa no Brasil se concentra na Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento (MED) e no pós-keynesianismo, não há citação da produção marxista brasileira contemporânea, publicada em periódicos indexados, com modelagem formal, séries históricas extensas e diálogo internacional”. A segunda limitação, a qual meu texto compartilharia também com o do professor Nogueira da Costa, é que “ambos, cada um a seu modo, concebem o desenvolvimento capitalista como horizonte intransponível. Discutem se o Estado deve ser estabilizador ou coordenador; se a política industrial deve ser horizontal ou vertical; se o câmbio está sobrevalorizado ou não. O que não discutem é: desenvolvimento para quem? Industrialização sob quais relações de propriedade? Crescimento com qual distribuição de poder entre as classes? Enquanto o pós-keynesianismo pergunta como estabilizar ou desenvolver o capitalismo, buscando, com isso, a conciliação entre as classes sociais, o marxismo pergunta como ele se transforma e como pode ser superado, partindo do pressuposto de que a luta de classes é sua característica estrutural”.
Vou argumentar na sequência que a primeira crítica do Professor Marquetti está mal colocada (e até mesmo um pouco injusta), ao passo que a segunda é correta, mas não deve ser entendida como uma crítica, mas simplesmente a constatação de que o Pós-Keynesianismo (e a Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento) não compartilha com o Marxismo a visão de que a história seja modelada pela “luta de classes” ou de que o capitalismo deva ser substituído por alguma versão do socialismo marxista. Na minha resposta ao professor Nogueira da Costa eu não tinha a intenção de dizer que o pós-keynesianismo, na sua vertente da Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento, tem o monopólio do método científico. Se eu o fizesse estaria incorrendo no mesmo erro que economistas neoclássicos como Samuel Pessoa e Marcos Lisboa incorrem com a heterodoxia, o qual recebeu da minha parte e do meu amigo Paulo Gala um contundente e, a nosso ver, definitiva, resposta em artigo publicado na Ilústrissima da Folha de São Paulo[1]. Meu ponto foi mostrar que o que a “Escola de Campinas”, ao menos na versão do professor Nogueira da Costa, não só não tinha o monopólio da historicidade e da análise da condição de capitalismo periférico da economia Brasileira; como também e mais importante, não consegue conduzir o debate econômico no Brasil nos termos do método científico, ou seja, por intermédio da formulação de modelos econômicos capazes de entender a lógica da nossa condição de economia dependente, periférica e, nos últimos 40 anos, estagnada do ponto de vista do crescimento do PIB per-capita e da produtividade do trabalho, assim como não consegue formular hipóteses empiricamente testáveis capazes de refutar (ou aceitar como meia-verdade temporária, para usar a expressão que era do gosto do meu ex-professor Antônio Maria da Silveira) as diversas explicações para esses fenômenos. A escola de campinas, tal como apresentada pelo Professor Nogueira da Costa, se ajusta a perfeição ao espantalho do “economista heterodoxo” apresentado por Samuel Pessoa e Marcos Lisboa em uma série de artigos publicados na Revista Ilustríssima em 2016.
A Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento toma emprestado do Marxismo vários conceitos que são fundamentais para entender a estagnação da economia Brasileira. No livro “A Macroeconomia da Estagnação Brasileira” que escrevi em coautoria com Luiz Fernando de Paula e publicado em 2021 pela Alta Books, argumentamos que a grande recessão brasileira de 2014-2016 foi causada por um problema de esmagamento de lucros, ou seja, pela redução da taxa de lucro das grandes empresas brasileiras devido ao aumento dos salários reais a um ritmo superior ao da produtividade do trabalho no período 2010-2014. Esse esmagamento de lucros levou ao colapso da formação bruta de capital fixo no Brasil no período compreendido entre o segundo e o quarto trimestre de 2014, período que coincide com o início da grande recessão brasileira segundo datação feita pelo CODACE da FGV. Essa explicação da crise de 2014-2016 tem uma clara influência Marxista, mais precisamente na ideia de que o tamanho do exército industrial de reserva (ou seja, a taxa de desemprego) condiciona o poder de barganha dos trabalhadores, quem, numa conjuntura marcada por um mercado de trabalho muito apertado como o existente no período 2011-2013, demandam aumentos de salário real, os quais os capitalistas não tem condições de impedir pois não dispõe, nessas condições, do medo do desemprego como mecanismo disciplinador da força de trabalho. Além disso, autores Pós-Keynesianos como Peter Skott (1989, 2023) utilizam em seus modelos macro dinâmicos mecanismos do tipo predador-presa como a relação entre desemprego, salários reais, taxa de lucro e taxa de acumulação de capital para demonstrar a existência de ciclos limite no grau de utilização da capacidade produtiva e na taxa de acumulação de capital, formalizando assim o caráter endogenamente instável, embora não explosivo, das economias capitalistas. Quanto a segunda crítica do Professor Marquetti só posso dizer que concordo que nem o Pós-Keynesianismo ou a Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento pensam na superação do capitalismo e sua substituição por alguma variante do socialismo marxista. Aqui nos defrontamos com uma questão relacionada a visão de mundo. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda escrita por John Maynard Keynes há 90 anos atrás é um livro que tem como filosofia política a administração do capitalismo, ou seja, evitar que os mecanismos endógenos das economias de mercado, quando não regulados pelo Estado, destruam o capitalismo devido aos problemas do desemprego em massa e da concentração de renda e de riqueza. Keynes pessoalmente tinha horror ao Marxismo e ao Socialismo de Estado. Meu orientador de Mestrado, Edward Amadeo, num livro publicado em 1989, sobre os cinquenta anos de publicação da Teoria Geral, cita duas passagens dos escritos de Keynes sobre isso:
“Como posso aceitar uma doutrina que tem como Bíblia (…) um livro texto de economia obsoleto que eu sei que não é apenas errado do ponto de vista científico como também sem qualquer interesse ou aplicação para o mundo moderno? (Keynes, 1931, p. 300 apud Amadeo, 1989, p.6).
“Eu o crítico [o socialismo de Estado] porque ele é, de fato, um pouco melhor que um sobrevivente empoeirado de um plano para resolver problemas de cinquenta anos atrás com base no entendimento errôneo de algo dito por alguém a cem anos atrás” (Keynes, 1931, p. 316 apud Amadeo, 1989, p.6).
A filosofia política da Macroeconomia Estruturalista do Desenvolvimento e do Novo-Desenvolvimentismo se acha mais próxima da Doutrina Social da Igreja Católica do que do Marxismo ou do Neoliberalismo, conforme se pode depreender da leitura de Ribeiro, Carvalho e Oreiro, 2019). Se existe alguma utopia na macroeconomia estruturalista do desenvolvimento ela poderá ser encontrada em Tomas More não em Marx ou Lênin.
Um último ponto diz respeito a conciliação de classes. O Marxismo acredita que a história de todas as sociedades é a história da luta de classes, conforme o “Manifesto do Partido Comunista” de Marx e Engels (1948). Para a macroeconomia estruturalista do desenvolvimento, o desenvolvimento econômico – que ocorre historicamente sob o capitalismo – é a história da coalizão de classes (Oreiro, 2024). Com efeito, o professor Luiz Carlos Bresser-Pereira em seu livro magistral “A Construção Política do Brasil” (2014) mostra como a emergência de uma coalizão de classes desenvolvimentista com a Revolução de 1930 liderada por Getúlio Vargas e composta pelos empresários industriais, operários e pela burocracia estatal conseguiu assentar as bases econômicas e políticas para o processo de industrialização por substituição de importações liderado pelo Estado e assim assegurar quase cinquenta anos de desenvolvimento econômico do Brasil, intercalando diferentes regimes políticos. Foi uma coalização de classes fomentada pela Democracia Cristã na Alemanha e na França que permitiu a esses dois países não só se recuperarem das colossais perdas materiais ocorridas na segunda guerra mundial, como também apresentar taxas de crescimento econômico muito superiores a dos Estados Unidos e do Reino Unido no período 1950-1975.
Neste ponto o leitor deve estar curioso sobre o porquê do termo “Almirante Vernon de Campinas”. Esse termo me veio a cabeça ao passar os olhos – não tive estômago para fazer uma leitura aprofundada de um documento que deveria constar dos diários do Marques de Sade não num espaço pra o diálogo acadêmico – da suposta resposta que o professor Nogueira da Costa faz ao meu artigo, intitulada “O intelectual cheio de si” (Intelectual cheio de si – RED) datado de 19 de fevereiro de 2026 e publicado neste espaço RED. Digo suposta porque meu nome não é citado em nenhum trecho do artigo, mas claramente o Professor Nogueira da Costa se refere a mim. Posso ser cheio de mim, mas não sou ingênuo.
Para que possamos entender por que me veio à cabeça a o termo “Almirante Vernon de Campinas” é necessário que eu explique quem foi o Almirante Edward Vernon da Armada Real Britânica. Para tanto precisamos compreender o contexto da inusitada Guerra da Orelha de Jenkins (Ver Guerra da Orelha de Jenkins – Wikipédia, a enciclopédia livre). Robert Jenkins era um súdito de sua Majestade George II, Rei da Inglaterra. Jenkins se dedicava ao muy honesto e aparentemente lucrativo negócio de roubar os navios de sua Católica Majestade, El Rey de Espanha, que carregavam ouro e prata das possessões espanholas na América para a Europa, até que num belo dia sua embarcação foi interceptada por um navio da Armada Espanhola capitaneada por Júlio Leon Fandiño. O capitão espanhol poupou a vida de Jenkins, mas decidiu cortar a orelha esquerda do súdito inglês, dizendo o seguinte “Vá e diga ao seu rei que eu farei o mesmo com ele, se ele ousar fazer o mesmo que você”. Jenkins voltou a Inglaterra indignado e foi prestar queixa de maus tratos junto ao Parlamento em Londres. O caso criou uma comoção nacional, pois os parlamentares não só achavam inaceitável que a Espanha tivesse o direito de defender seus navios da pilhagem inglesa, como também acharam um insulto o recado do Capitão Fandiño (sobrenome claramente de origem Galego, como o meu) ao Rei George II. A indignação do Parlamento levou a declaração de Guerra contra a Espanha em 23 de outubro de 1739.
Os ingleses viram no incidente a oportunidade da dar um golpe mortal no Império Espanhol no Caribe e reuniram a maior frota de guerra já vista desde os tempos da Grande e Felicíssima Armada Espanhola de 1588 (a qual os ingleses, posteriormente, chamaram de “invencível armada” em tom jocoso). A “invencível” armada inglesa era composta por 186 navios, 2620 peças de artilharia e 27 mil homens. O objetivo da frota era tomar o porto espanhol de Cartagena de Indias, situado na atual Colômbia. A frente da frota inglesa estava o almirante Edward Vernon, quem estava tão confiante na vitória que mandou cunhar medalhas comemorativas da sua Vitória durante a batalha de Cartagena de Indias.
Cartagena de Índias estava um Almirante de origem Basca, Blás de Lezo y Olavarrieta, conhecido como “médio hombre” porque havia perdido uma perna, um braço e um olho durantes as diversas campanhas militares que havia participado ao longo de toda a sua vida. Para defender a cidade, Blas de Lezo contava com 2300 soldados regulares do exército espanhol, 600 arqueiros índios e apenas seis barcos da armada espanhola. A seu favor estava, contudo, a geografia da cidade de Cartagena de Indias e as sete fortalezas defendiam a cidade num sistema de fogo cruzado.
O cerco a Cartagena teve início em 13 de março de 1741. As fortificações foram caindo uma a uma a começar pelo Castelo de San Luis de Bocachica, mas as custas de grandes perdas de homens e material a cada conquista. Sobrava apenas a fortaleza de San Felipe, cujo assalto se iniciou em 19 de abril de 1741. O ataque foi feito a noite, mas quando as forças inglesas chegaram as muralhas da fortaleza verificaram, para seu horror, que suas escadas eram curtas demais para alcançar o topo das muralhas pois Blas de Lezo havia ordenado que se escavassem fossos ao redor das muralhas para dificultar a tomada delas. Os granadeiros espanhóis abriram fogo contra os indefesos soldados ingleses, matando centenas. Pela manhã Blas de Lezo ordenou que a infantaria fizesse uma carga a baioneta partindo de uma posição mais alta que a dos pobres soldados ingleses. Foi uma carnificina. Os que se salvaram correram para os barcos ingleses, que agora estavam com tripulação incompleta para a navegação. Ao final seis mil britânicos morreram frente a menos de mil espanhóis, deixando alguns barcos tão vazios que foi preciso afundá-los por falta de tripulação. A maior operação da Marinha Real até o momento tinha como saldo final a maior derrota de sua história.
O orgulhoso Armirante Verdon teve que se retirar para a Jamaica. Inconformado com sua derrota frente a um “meio homem” escreveu uma carta para Blás de Lezo na qual informava ao Almirante Basco que tinha feito apenas um recuo tático para reagrupar e reabastecer sua frota, mas que voltaria a Cartagena para conquistar a cidade. Blas de Lezo respondeu com ironia “Para conquistar Cartagena de Indias, o Rei da Inglaterra vai precisar de uma esquadra maior, porque esta só serviu para transportar carvão da Irlanda para Londres.
Deixo ao leitor fazer a analogia entre Almirante Inglês e o Almirante de Campinas.
Da minha parte tenho a dizer que como economista acadêmico – não academista – que já publicou mais de 160 artigos científicos em Revistas Acadêmicas – não academistas – no Brasil e no exterior entre as quais destacam-se Journal of Post Keynesian Economics, Cambridge Journal of Economics, Structural Change and Economic Dynamics, Metroeconomica, Cepal Review, Investigacion Económica, PSL Quarterly Review, Revista de Economia Política, Estudos Econômicos e Revista Brasileira de Economia posso dizer que já recebi muitos pareceres negativos, alguns justos, que me fizeram aprimorar o artigo e manda-lo para uma revista melhor, e outros injustos, que me fizeram tecer considerações mentais não muito elogiosas a mãe do parecerista, sem que ficasse me lamentando por isso em público ou pior achando que isso seria alguma espécie de mérito a ser usado num debate acadêmico. Escrever para revistas científicas também nunca me impediu de participar do debate público no Brasil, escrevendo para um público mais amplo por intermédio de artigos de opinião no Valor Econômico, Correio Braziliense, Folha de São Paulo entre outros. A pesquisa científica feita com rigor também nunca me impediu de participar de audiências públicas na câmara dos deputados e no senado federal, ou de criticar dia sim outro também o governo Bolsonaro e seu Czar da economia, Paulo Guedes. Vejo que a produção científica feita com rigor é parte importante da minha atuação incansável como intelectual público que atua em defesa do bem comum e do desenvolvimento do Brasil. Parafraseando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso “me chamam de vaidoso, sou mais inteligente que vaidoso”. Eu acrescentaria a frase de nosso douto ex-Presidente que ao menos tenho matéria bruta sobre a qual basear a minha vaidade, já o almirante Vernon de Campinas precisa estudar mais e limpar sua boca com sabão de coco, como diria minha finada mãe, antes de pensar em voltar a Cartagena de Indias.
Referências
Amadeo, E. J. (1989). John M. Keynes: Cinquenta Anos da Teoria Geral. PNPE/IPEA: Rio de Janeiro.
Bresser-Pereira, L.C (2014). A Construção Política do Brasil. Editora 34: São Paulo.
Oreiro, J.L. (2024). “Class Coalition and the Political Economy of New Developmentalism: an essay in honour of Bresser-Pereira”. Post Keynesian Economics Society Working Paper 2411.
Ribeiro, A. R; Carvalho, R.S; Oreiro, J.L. (2019). A Doutrina Social da Igreja Católica, o novo desenvolvimentismo e a economia social de mercado: diálogos possíveis? “. Brazilian Journal of Political Economy, Vol. 39, N.4.
Skott, P. (2023). Structuralist and Development Macroeconomics. Cambridge University Press: Cambridge.
Skott, P. (1989). Conflict and Effective Demand in Economic Growth. Cambridge University Press: Cambridge.
[1] Ver O núcleo duro da divergência entre ortodoxos e heterodoxos na economia.
Foto de capa: Commemorative medal depicting Vernon’s attack on Cartagena, 1741 | Royal Museums Greenwich.





