“Cada geração faz suas próprias perguntas novas sobre o passado” (Eric Hobsbawm)
Sobre o próximo processo eleitoral creio ser útil a reflexão que segue para os eleitores, principalmente os novos eleitores, na certeza de que pode produzir algum debate oportuno e proveitoso.
Há quem sustente com base na opinião que tem sido veiculada, não necessariamente confirmadas ainda pelas pesquisas de intenção de voto, que os jovens e novos eleitores tendem a favorecer os candidatos conservadores, ao contrário de gerações igualmente jovens no passado não tão remoto assim. É prematuro qualquer conclusão a respeito do comportamento eleitoral desse contingente de eleitores, mas na epígrafe dessa reflexão o historiador Hobsbawm foi preciso em sua sentença, pois realmente cabe às novas gerações indagar sobre o que para elas significa o passado.
Na busca de uma explicação para a suposta tendência desse eleitorado juvenil é possível arriscar algumas razões para essa opção pelas candidaturas tradicionalmente conservadoras e tendencialmente de extrema-direita a causar certa estranheza dado que a juventude sempre foi mais atirada, por vezes irreverente, logo mais afeita a propostas de cunho progressista e de esquerda. Uma dessas possíveis explicações a considerar válida essa sondagem talvez esteja na perda, ainda que momentânea, de perspectivas diante de um futuro amargo. Entendamos essa primeira razão, e para isso um rápido retrospecto do mundo de hoje.
Mundo esse que não tem garantido nada de promissor senão as ameaças de guerras, eventos extremos de uma natureza cada vez mais afetada pelo aquecimento global fruto do modo de produção devastador quanto à preservação do meio-ambiente, e cujas instituições políticas têm sido exercidas por lideranças bonapartistas a manipular as decisões nem sempre respaldadas pelos anseios dos povos a elas submetidas. A despeito dessa situação que ganhou espaços em vários estados nacionais, contraditoriamente esse fenômeno político a traduzir a possível emergência de um novo surto fascista parece ganhar por inércia o apoio silencioso de quem procura se proteger dos efeitos perversos desse mundo mais propício para a defesa individual e coletiva de seus cidadãos do que o de enfrentar as causas que o mantém impróprio ao bem-estar da humanidade.
Contradição que parece não preocupar a juventude de hoje imersa em seu cotidiano conturbado e entregue quase exclusivamente às redes sociais para o seu deleite e, sobretudo, para a sua fuga desse mundo hostil. Os que procuram dele se afastar se envolvem em pequenas contravenções coletivas, geralmente agressivas a envolver elementos de uma cultura política preconceituosa e que vão de atos violentos, sejam de gênero, de etnias ou de costumes. São formas de repúdio ao panorama que descortinam e não veem saída. Na escolha eleitoral essa geração mais incrédula e insegura se identifica com as candidaturas que evocam soluções extremas.
Há uma outra leitura que pode e deve ser considerada. Trata-se do desencanto pela política. A não resolução de seus problemas imediatos do tipo segurança pública, empregabilidade e acesso aos bens mais ou menos essenciais, a tem conduzido ao descrédito dos processos de inclusão social e, portanto, da democracia. Essa democracia como instrumento que permite abrir os caminhos para dar provimento as demandas desse eleitorado que vai pela primeira vez comparecer à urna parece ilusório para todos em geral, mas especialmente para a juventude. A avaliação que fazem dos políticos se resume no eventual uso de seus mandatos para a obtenção de favores individuais.
Essa individualização das soluções que devem produzir efeitos favoráveis a todos os jovens têm sido a tônica das candidaturas oportunistas que procuram atrair esse eleitorado. São os que usam o passaporte da iniciativa privada voltada para um empreendedorismo voluntário de modo a transformar o jovem em patrão de si mesmo. Já que não encontram postos de trabalho esperam criar seu próprio trabalho. Alguns desses ideólogos que incentivam os jovens pequeno-burgueses, que aspiram ser donos de seu próprio negócio a concretizarem os seus sonhos vendem uma ilusão que não passa disso e o fazem de modo oportunista.
Essas eleições de 2026 irão certamente demonstrar que não basta a proliferação de slogans irresponsáveis com vistas a atrair o eleitor mais desavisado se as forças políticas responsáveis, e que têm saídas para as sucessivas crises que temos experimentado, usarem não somente do bom-senso, mas de uma argumentação que esteja respaldada no conhecimento dos fatos e denunciem os falsos profetas do apocalipse, responsáveis pelo perigo de entrarmos na escuridão da barbárie. Voto responsável é o voto consciente não importa se o eleitor é jovem ou calejado em matéria de eleições. Portanto, vale a boa e salutar informação fundada em dados da realidade objetiva, base inicial da elaboração das escolhas no atual pleito eleitoral. E que vençam os que se encontram comprometidos com a sorte de todos os brasileiros e brasileiras, jamais os que pleiteiam saídas individuais, pois essas são ilusórias e inconsequentes, além de descompromissadas com a sorte a as esperanças de todos os seus concidadãos.
Por fim, que essa nova geração que ingressa na cidadania plena tenha como norte o que sentenciou o historiador Eric Hobsbawm, que faça suas as perguntas que deseja para si e os seus, sempre com base na razão e no conhecimento de seu passado. Fora esse preceito qualquer narrativa retrospectiva infundada é uma cilada dos que desejam o seu voto e nada mais.
Foto de capa: @jornalismotvcultura


