José Dirceu: juros altos são também uma disputa sobre poder e distribuição de renda

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, ex-ministro contesta a tese de que o gasto público seja a principal explicação para os juros brasileiros e sustenta que enfrentar o rentismo é indispensável para o país voltar a crescer e investir
Publicado em 23 de agosto de 2026 às 13:22
Editado em 23 de agosto de 2026 às 13:22
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Da REDAÇÃO

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu entra em um dos debates econômicos mais importantes do país: por que o Brasil mantém, há décadas, taxas de juros reais entre as mais altas do mundo?

Intitulado “Reduzir os juros altíssimos do Brasil exige enfrentar o rentismo”, o texto contesta diretamente a interpretação do economista Samuel Pessôa segundo a qual o comportamento do gasto público ocupa papel central na explicação da taxa de juros brasileira. Para Dirceu, a questão é muito mais ampla e envolve a estrutura da dívida pública, a concentração do sistema financeiro, a política monetária, a formação das expectativas e, sobretudo, o peso adquirido pelo rentismo na economia brasileira.

Logo no início, Dirceu desloca a discussão do terreno estritamente técnico para o político. O Brasil, escreve, convive com “juros reais entre os mais elevados do mundo”, ao mesmo tempo que apresenta crescimento insuficiente, baixo investimento e uma transferência permanente de renda em favor dos detentores da riqueza financeira. Por isso, afirma que não se trata simplesmente de “uma controvérsia de economistas”, mas de uma questão relacionada ao próprio futuro do país.

A divergência com Samuel Pessôa

Dirceu apresenta inicialmente a interpretação de Samuel Pessôa (economista liberal pesquisador do FGV IBRE e do BTG Pactual e colunista da FSP). Segundo sua interpretação, diferentes fatores explicaram os juros brasileiros ao longo do tempo. No período do câmbio fixo, pesava o risco de desvalorização; posteriormente, a vulnerabilidade externa, a escassez de reservas internacionais e o risco-país. Depois de meados dos anos 2000, com a acumulação de reservas e a redução dessa vulnerabilidade, a relação entre oferta e demanda no mercado interno teria adquirido papel predominante.

Daí decorreria a conclusão de Pessôa: quando o gasto primário cresce acima do PIB, aumenta a disputa pelos recursos disponíveis e sobe a taxa de juros de equilíbrio. Se as despesas públicas passassem a crescer durante alguns anos no mesmo ritmo da economia, os juros reais poderiam convergir para algo próximo de 3%.

Dirceu considera que a tese merece ser debatida, mas identifica aí sua divergência fundamental. Para ele, atribuir ao gasto primário papel predominante significa deixar em segundo plano fatores essenciais, entre eles “a arquitetura da política monetária, a estrutura da dívida pública, a concentração bancária”, além da formação das expectativas, dos mecanismos de indexação e do comportamento do Banco Central.

Seu argumento histórico é direto: o Brasil passou por períodos prolongados de superávit primário, acumulou centenas de bilhões de dólares em reservas internacionais, reduziu a dívida externa e diminuiu substancialmente sua vulnerabilidade cambial. Ainda assim, os juros reais não convergiram para os níveis observados em economias comparáveis.

Dirceu transforma essa constatação em pergunta: “por que continuamos remunerando o capital financeiro a taxas tão superiores ao crescimento da economia?

Nem todo gasto público produz o mesmo efeito

Outro ponto central do artigo é a crítica ao tratamento indiferenciado do gasto público.

Dirceu reconhece que a expansão das despesas em uma economia próxima do pleno emprego pode produzir pressão sobre os preços. Mas argumenta que os efeitos são diferentes quando existem desemprego, capacidade produtiva ociosa, investimento insuficiente e grandes carências de infraestrutura.

É nesse contexto que ele reivindica uma avaliação distinta dos investimentos e gastos sociais. Recursos destinados a “saúde, educação, ciência, inovação, habitação, saneamento e infraestrutura”, argumenta, não representam simplesmente consumo de recursos disponíveis. Podem aumentar a produtividade, estimular a demanda, induzir investimentos privados e ampliar a própria capacidade futura de arrecadação do Estado.

A divergência, portanto, não está na necessidade de equilíbrio macroeconômico, mas na maneira de compreender os efeitos econômicos do gasto e na recusa de tratá-lo automaticamente como causa de inflação e juros elevados.

A meta de inflação também precisa ser discutida

Dirceu avança então sobre outro terreno sensível da política econômica: a meta de inflação de 3% ao ano.

Para o ex-ministro, esse patamar é “irrealista para a estrutura da economia brasileira” e vem sendo perseguido de maneira excessivamente rígida.

Sua crítica está relacionada à composição da inflação brasileira. Alimentos, energia elétrica, câmbio, preços administrados, choques climáticos, gargalos de produção, dependência de insumos importados e setores oligopolizados exercem influência importante sobre os índices de preços. Muitos desses fatores, destaca, encontram-se fora do alcance da política monetária.

O argumento é resumido em uma passagem particularmente clara do artigo:

“Elevar os juros diante de uma quebra de safra ou de um aumento da energia não produz alimentos, não gera eletricidade, não reduz o preço internacional do petróleo nem resolve problemas de oferta.”

A elevação da Selic, contudo, produz outros efeitos: comprime a atividade econômica, reduz investimentos e empregos e aumenta as despesas do próprio governo com a dívida pública.

O círculo vicioso dos juros e da dívida

É justamente nesse ponto que Dirceu procura inverter uma relação causal frequentemente apresentada no debate econômico.

Desequilíbrios fiscais podem pressionar as taxas de juros, reconhece. Mas juros muito elevados também deterioram as contas públicas. Aumentam o custo da dívida, restringem investimentos do Estado, desestimulam investimentos produtivos privados, diminuem o crescimento e limitam a arrecadação.

Forma-se então aquilo que Dirceu descreve como um “círculo vicioso”: os juros elevados aumentam a dívida e, posteriormente, o crescimento da dívida passa a servir de argumento para manter os próprios juros elevados.

Essa é uma das ideias centrais do artigo. Os juros deixam de aparecer simplesmente como uma resposta técnica aos desequilíbrios da economia. Também passam a ser considerados parte do mecanismo que produz alguns desses desequilíbrios.

Por isso, afirma Dirceu, “a taxa de juros é o resultado de instituições, incentivos, correlações de forças, escolhas de política econômica e interpretações sobre o funcionamento da economia”.

O Banco Central faz escolhas

Essa abordagem conduz inevitavelmente ao papel do Banco Central.

Para Dirceu, a atuação da autoridade monetária não constitui uma reação automática determinada por alguma lei econômica imutável. Quando responde a um choque inflacionário, o Banco Central decide quanto peso atribuir à atividade econômica, ao emprego, ao câmbio, às expectativas do mercado financeiro, aos choques de oferta e ao prazo necessário para fazer a inflação convergir para a meta.

Bancos centrais submetidos a arquiteturas institucionais diferentes podem reagir de forma distinta ao mesmo choque”, observa.

A política monetária, nessa perspectiva, contém escolhas — e escolhas produzem consequências distributivas.

O coração do argumento: o rentismo

É nesse ponto que o artigo chega à questão anunciada no título.

Dirceu não nega a importância da responsabilidade fiscal nem a necessidade de examinar despesas previdenciárias, vinculações constitucionais ou indexação de benefícios. Sua objeção é transformar esses fatores na explicação praticamente exclusiva para a singularidade brasileira.

Para compreender os juros do país, sustenta, é necessário examinar simultaneamente “um sistema financeiro altamente concentrado”, uma dívida pública muito sensível à Selic e uma economia na qual aplicações financeiras líquidas, seguras e de curto prazo oferecem remuneração extremamente elevada.

O resultado é um sistema de incentivos que pode tornar a aplicação financeira mais atraente do que o investimento produtivo.

Dirceu não questiona a necessidade de um sistema financeiro sólido. Ao contrário, afirma que ele é indispensável para captar poupança, administrar riscos, oferecer crédito e financiar investimentos de longo prazo. O problema surge quando a remuneração financeira de curto prazo e praticamente sem risco se torna mais atraente que investir na produção.

O empresário passa então a comparar a incerteza envolvida em ampliar uma fábrica, desenvolver tecnologia, contratar trabalhadores e conquistar mercados com a segurança proporcionada por aplicações financeiras indexadas aos juros.

O efeito, segundo Dirceu, é “a redução do investimento, da inovação e da produtividade”.

Juros definem ganhadores e perdedores

Talvez esteja aí a dimensão mais explicitamente política do artigo.

A Selic não afetaria todos os grupos sociais da mesma maneira. Ao estabelecer o custo do dinheiro e a remuneração de parte relevante da riqueza financeira, a política de juros interfere diretamente na distribuição da renda e nas decisões de investimento.

A taxa de juros, portanto, define ganhadores e perdedores, redistribui renda, reorganiza os investimentos e condiciona o projeto de país”, escreve Dirceu.

De um lado, os juros excessivamente altos favorecem proprietários de ativos financeiros. De outro, penalizam trabalhadores endividados, pequenas e médias empresas, indústria, comércio, agricultura e o próprio Estado.

Por isso, conclui nessa passagem, “a discussão sobre a Selic é também uma discussão sobre poder, desenvolvimento e distribuição da renda nacional”.

Responsabilidade fiscal não pode valer apenas para o gasto social

Dirceu procura também afastar uma crítica recorrente às posições contrárias à manutenção de juros muito elevados.

Não se trata de defender inflação, irresponsabilidade fiscal ou emissão de moeda sem limites”, escreve. O Brasil, acrescenta, necessita de estabilidade de preços, responsabilidade fiscal, sustentabilidade da dívida e instituições confiáveis.

A questão é outra: para ele, responsabilidade fiscal não pode significar uma política permanente de compressão das despesas sociais e do investimento público enquanto os gastos financeiros permanecem tratados “como inevitáveis e imunes ao debate democrático”.

Essa formulação sintetiza uma dimensão essencial da crítica apresentada no artigo. Dirceu reivindica que o custo financeiro da dívida seja submetido ao mesmo escrutínio político reservado às demais despesas públicas.

Que economia o Brasil pretende construir?

A conclusão do artigo recoloca a discussão dos juros no interior de uma escolha mais ampla sobre desenvolvimento.

Dirceu rejeita como inevitável uma economia na qual financiar a dívida pública proporcione ao capital maior segurança e rentabilidade do que “construindo fábricas, desenvolvendo tecnologias, modernizando a infraestrutura ou criando empregos”.

Para ele, reduzir o custo do capital e enfrentar o rentismo são condições necessárias para elevar o investimento necessário à reindustrialização, à transição energética, à transformação digital e à construção de um Estado de bem-estar social.

É também nesse ponto que fica mais nítida sua divergência com Samuel Pessôa. Enquanto a interpretação liberal discutida no artigo localiza nas instituições fiscais o principal caminho para a redução dos juros, Dirceu considera a responsabilidade fiscal necessária, mas insuficiente. “A arquitetura monetária e financeira também precisa ser submetida ao debate e à reforma”, afirma.

Sua conclusão resume a tese desenvolvida ao longo de todo o texto:

“Os juros brasileiros não são apenas consequência dos nossos problemas: são também uma das suas causas.”

Nesse sentido, o artigo de José Dirceu propõe uma mudança importante no enquadramento do debate econômico. A pergunta deixa de ser apenas quanto o Estado gasta ou qual resultado fiscal precisa alcançar. Passa a incluir quem ganha com determinada estrutura de juros, quem paga por ela, quais investimentos deixa de realizar e que modelo de desenvolvimento essa estrutura favorece ou impede.

A controvérsia, portanto, está longe de ser exclusivamente técnica. Como sustenta Dirceu, discutir os juros brasileiros significa discutir simultaneamente política econômica, relações de poder, distribuição da renda e projeto nacional de desenvolvimento.

Autoria do texto comentado: José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil no primeiro governo Lula.

Fonte: José Dirceu, “Reduzir os juros altíssimos do Brasil exige enfrentar o rentismo”, Folha de S.Paulo, seção Ilustríssima, agosto de 2026.


Ilustração da capa: José Dirceu combate o rentismo e defende o desenvolvimento nacional – Crédito: RED IA

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