Investigação revela uso de verba pública para manutenção de milícia digital ligada a vice-líder do Centrão

Última edição em abril 9, 2026, 07:16

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Alex Manente

Por Solon Saldanha *

Documentos apontam que o deputado federal Alex Manente (Cidadania-SP) utilizou recursos do fundo partidário para financiar uma rede de perfis falsos. O aparato de desinformação foi mobilizado para atacar o Governo Federal, inflar o engajamento do parlamentar e desestabilizar adversários internos em meio a uma disputa pelo controle da legenda.


Uma investigação jornalística trouxe à tona um esquema de manipulação da opinião pública operado diretamente do gabinete do deputado federal Alex Manente (Cidadania-SP). O parlamentar, que ocupa a vice-liderança do bloco do Centrão na Câmara, é acusado de gerenciar uma rede de pelo menos 20 contas inautênticas nas redes sociais. O diferencial do caso reside na origem do financiamento: notas fiscais comprovam que a estrutura foi mantida com dinheiro do fundo partidário, verba pública destinada ao funcionamento das agremiações políticas.

O QG em Balneário Camboriú e o grupo “Guerrilha”

Segundo levantou a Pública, a engenharia da desinformação não funcionava em Brasília, mas no litoral de Santa Catarina. Uma operadora de 27 anos, residente em Balneário Camboriú, foi contratada para dar vida aos perfis fakes. Sob um salário mensal de R$ 2,5 mil — pago pelo diretório municipal do Cidadania em São Bernardo do Campo, base eleitoral de Manente — ela recebia instruções detalhadas sobre o que postar.

As diretrizes eram transmitidas através de um grupo de mensagens sugestivamente intitulado “Guerrilha”. Registros obtidos pela reportagem mostram que a equipe do deputado enviava textos prontos ou “briefings” com o tom que deveria ser adotado. O objetivo era simular uma indignação popular espontânea contra o governo e em apoio às pautas do parlamentar. Em momentos de falha técnica, o grupo debatia como contornar os bloqueios de segurança das plataformas, que detectavam “atividades suspeitas” devido ao uso de múltiplos aparelhos para gerenciar as mesmas contas.

Fogo amigo: a disputa interna no Cidadania

A “milícia digital” foi uma arma estratégica no racha que divide o Cidadania. Atualmente, o partido vive uma crise institucional com duas presidências autoproclamadas: a de Manente e a de Comte Bittencourt. A disputa, que está sob análise da Justiça, foi alimentada por ataques orquestrados pelos perfis falsos.

Um dos perfis, sob o nome de “Lene Aparecida”, foi utilizado para atacar diretamente a legitimidade de Bittencourt. Através de trocadilhos e críticas coordenadas, a rede buscava desgastar a imagem da ala adversária dentro da própria sigla. Ironicamente, os ataques de “Lene” eram financiados pelo caixa do partido que ela mesma criticava em seus comentários “fakes”.

Ataques ao Governo e atuação política

Além das frentes internas, a rede de perfis falsos atuava como braço de oposição digital ao Governo Lula. Quando Manente publicava críticas à criação de cargos comissionados ou à gestão da saúde pública, os perfis inautênticos entravam em cena imediatamente para endossar o discurso. Contas como “@monteirooefigenia” e “@wanderlei2589” simulavam o descontentamento de cidadãos comuns, utilizando jargões como “desgoverno” e acusando a gestão federal de “esbanjar” recursos.

O escândalo ganha contornos ainda mais fortes quando se relembra o histórico legislativo de Alex Manente. Em 2023, o deputado foi uma das vozes contrárias à urgência do PL das Fake News (PL 2630/2020). Na época, Manente justificou seu voto alegando que a proposta poderia limitar a liberdade de expressão. E argumentava que o controle das big techs proposto pelo projeto extrapolava o combate à desinformação — prática que, segundo as provas atuais, ele mesmo fomentava nos bastidores.

Implicações jurídicas e silêncio do parlamentar

Especialistas em Direito Público e Eleitoral alertam que o uso de verba pública para financiar o anonimato e o ataque a adversários pode configurar crimes graves. O jurista Walber Agra destaca que a prática se enquadra como propaganda ilícita e pode acarretar sanções penais previstas no Código Eleitoral, além da obrigatoriedade de ressarcimento aos cofres públicos.

“Incentivar e patrocinar fakes e deepfakes com recursos partidários é uma ilegalidade que fere a moralidade administrativa e o equilíbrio democrático”, afirma Agra. O caso segue agora sob o radar de órgãos de fiscalização, podendo impactar diretamente as pretensões eleitorais do parlamentar e o futuro jurídico do Cidadania.


* Solon Saldanha, jornalista e escritor

Foto: Deputado federal Alex Manente. Crédito: Câmara dos Deputados

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