Intelectual cheio de si

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O especialista autoproclamado e o rejeitado

Um “intelectual cheio de si” é alguém com alto nível de conhecimento acadêmico ou cultural, mas só capaz de utilizar sua erudição de forma arrogante, prepotente e superior, para interagir com os outros. Essa postura é caracterizada pela necessidade de impor suas ideias a qualquer custo, desvalorizar opiniões alheias e acreditar já saber tudo, interrompendo o aprendizado contínuo.

Ele se considera “dono da verdade” e discrimina os colegas de profissão caso rejeitem o sistema de pontuação da produção de literatura academista. Nela, os autores partem em busca de masturbação mental, onde citam, citam, citam… até se excitarem e gozarem o prazer de troca-troca de citações mútuas!

O sistema Qualis de pontos curriculares só foca publicações acadêmicas pouco lidas, mas consideradas em função do processo de autorreferências. Obriga a submissão a conceitos adotados pelos pares dos pareceristas, pressupostos “cegos”, mas censores de todas as ideias das quais não compartilham.

Como efeito colateral, em personalidades narcisistas, criou um intelectual vaidoso “cheio de si”. Narciso acha feio o que não é espelho.

A crítica ao sistema Qualis da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) já aparece em diferentes campos da academia brasileira. De forma analítica, separa estrutura institucional, incentivos e efeitos subjetivos.

O sistema não “cria” personalidades, mas estrutura incentivos para um “intelectual vaidoso”. Incentivos moldam comportamentos.

O modelo de avaliação está baseado em estratificação de periódicos (A1, A2 etc.), métricas de citação, produtividade quantitativa e pressão por internacionalização. Na prática, gera uma lógica de sobrevivência profissional favorável à publicação seriada e fragmentada, dentro de determinada linha de pensamento, alinhamento temático com agendas dominantes, inserção em redes consolidadas dos parceiros, autorreferência estratégica e formação de círculos de citação cruzada.

Nesse ambiente, o capital simbólico passa a ser medido por indexadores, fator de impacto e pontuação. A consequência previsível é a internalização da lógica competitiva: reputação se converte em moeda de troca, ou mais precisamente em troca-troca de (ex)citação… quase sexual! Isso pode produzir traços como pronunciado narcisismo acadêmico, defesa corporativa do próprio campo, isto é, revistas onde publica, intolerância a críticas externas ao paradigma dominante em sua mente. Isso é um efeito sistêmico, não necessariamente uma característica moral individual.

 Uma pergunta-chave é: o parecer “cego” é realmente cego? O modelo de peer review anônimo pretende reduzir favoritismos. Porém, na prática, os pareceristas não estão imunes ao “fenômeno do mundo pequeno”, porque reconhecem estilo, bibliografia e temas. Redes de sociabilidade acadêmica são pequenas. As disputas paradigmáticas caracterizam os pareceres.

A avaliação, embora formalmente técnica, é atravessada por pressupostos teóricos. Não existe neutralidade epistemológica plena.

Em campos com hegemonia metodológica — como acontece na Economia — há maior risco de exclusão de abordagens heterodoxas, filtragem por aderência metodológica, normalização do pensamento dominante. Pior é quando os próprios microcosmos heterodoxos se colocam em disputa personalista em lugar de enfrentar um debate plural de ideias novas e divergentes.

Isso não significa todo parecerista se comportar como um censor. Mas a estrutura institucional  incentiva essa convergência ciumenta.

Coleguismo é termo utilizado para descrever práticas baseadas em relações pessoais e de proximidade como amizade ou vizinhança institucional. Têm conotação negativa, no contexto profissional ou político, pois podem sobrepor interesses particulares ao mérito ou à ética.

É a tendência a favorecer, proteger ou privilegiar colegas, amigos ou pessoas próximas do mesmo grupo de trabalho ou círculo social, independentemente da competência técnica ou merecimento profissional. Tende a ser negativa quando ultrapassa o limite da camaradagem e se transforma em protecionismo como “passar pano para erros”, favorecer indevidamente e menosprezar os divergentes.

A lógica da citação mútua se estabelece como circuito fechado. A citação como troca simbólica é sociologicamente relevante. A literatura de Sociologia da Ciência já discutiu isso, por exemplo, Pierre Bourdieu analisa o campo científico como espaço de disputa por capital simbólico. Robert K. Merton discutiu o “efeito Mateus”: quem já é citado tende a ser mais citado.

Em um sistema fortemente baseado em métricas, citar é estratégia de pertencimento. Formar redes é racional. Publicar vira parte de um jogo de acumulação reputacional.

O risco é o fechamento endógeno quando autores só citam autores capazes de os citarem, dentro de um mesmo círculo, reforçando consensos em sua bolha ou câmara de eco. Isso empobrece o debate e reduz a criatividade teórica.

Há evidente discriminação contra quem rejeita o sistema. Há custos institucionais reais para quem não joga “o jogo de cartas-marcadas”: menor pontuação em avaliações, dificuldade de progressão funcional , menos acesso a financiamento de pesquisa, marginalização editorial.

Mas também há movimentos de reação: críticas à “produtivite academista”, defesa de impacto social através de publicações em rede digital mais ampla, questionamentos ao produtivismo meramente quantitativo sem nenhuma ideia nova. O leitor dessa literatura academista se pergunta: o que eu não sei disso?!

O próprio sistema Qualis passou por revisões e críticas internas nos últimos anos, mas não enfrentou o problema do “intelectual cheio de si”: é moral ou estrutural? Se analisarmos sistemicamente, o fenômeno não é uma degeneração moral individual, mas uma consequência da transformação da Universidade em ambiente competitivo regulado por métricas.

Quando “carreira universitária depende de pontuação – pontuação depende de periódicos – periódicos dependem de citações”, forma-se um circuito autorreferencial. A simples exposição de ideias distintas é condenada!

Em termos de Economia Política da Ciência, trata-se de uma forma de “financeirização simbólica da produção intelectual”: o paper vira ativo; a citação vira rendimento; o currículo vira portfólio.

A pergunta mais profunda é: o sistema Qualis mede qualidade ou mede conformidade com esse jogo de debate em bolhas ou câmaras de eco? Se mede conformidade metodológica, ele estabiliza paradigmas. Se mede impacto real no pensamento e na sociedade, precisaria de métricas muito mais complexas.

O dilema é clássico: como avaliar qualidade sem cair em burocratização ou corporativismo? Vale só a opinião de “especialistas” – e não conta a de formadores de opinião pública em redes digitais?! Qual é a audiência em cada veículo?

O sistema contemporâneo de avaliação intensifica esses mecanismos. Ao atrelar progressão funcional, financiamento e prestígio à publicação em determinados estratos, ele formaliza a competição simbólica.

O paper deixa de ser apenas contribuição intelectual e passa a ser unidade contábil. A citação deixa de ser apenas diálogo crítico e passa a ser índice de valorização. O currículo torna-se portfólio, uma carteira de títulos… não financeiros, mas de publicações!

Sistema Qualis molda subjetividades. Quando a sobrevivência profissional depende de métricas, forma-se o intelectual performativo, orientado a resultados mensuráveis, atento só à visibilidade, estrategicamente alinhado às correntes dominantes, senão à sua corrente de pensamento particular, avesso a riscos epistemológicos elevados.

O debate público necessita ser plural, respeitoso e tolerante com ideias alheias. A vaidade não é causa, mas efeito. O narcisismo acadêmico não é desvio individual. Ele é incentivo institucional internalizado em intelectuais egocêntricos.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

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Fernando Nogueira da Costa
Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.

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