Por Solon Saldanha *
Conflito imprudente no Oriente Médio consome capital político do presidente, ameaça a economia mundial e pode desencadear reações agressivas na política interna e externa.
WASHINGTON – Donald Trump enfrenta aquela que pode ser a crise mais aguda de sua presidência. A condução da guerra contra o Irã, marcada por falta de planejamento estratégico, começa a corroer os três pilares que sustentam seu poder: a capacidade de moldar a realidade, sua influência internacional e o domínio absoluto sobre o Partido Republicano. Embora o regime iraniano tenha sofrido perdas de infraestrutura e lideranças, como o chefe de segurança Ali Larijani, a sobrevivência do governo de Teerã e a incerteza sobre seu arsenal nuclear revelam as limitações da ofensiva americana.
A “Armadilha” de Ormuz e o Impacto Econômico
O Irã tem utilizado o Estreito de Ormuz como sua principal arma de contra-ataque, estrangulando o transporte marítimo e desestabilizando o mercado de energia. Os resultados são visíveis e alarmantes:
- Petróleo em alta: O Brent ultrapassou a marca de US$ 110 por barril em 18 de março, com projeções de atingir US$ 150 caso o bloqueio persista até abril.
- Combustíveis nos EUA: O preço da gasolina saltou de US$ 3,11 na posse para US$ 3,88, enquanto o diesel chegou a US$ 5,09.
- Escassez de recursos: Analistas alertam que EUA e Israel podem esgotar alvos estratégicos e baterias de interceptação, enquanto o Irã mantém um fluxo constante de drones e ataques a centros de distribuição, como visto recentemente no Catar.
Isolamento Diplomático e Crise Partidária
A segunda “superpotência” de Trump — sua influência — sofre reveses claros. Ao ameaçar aliados da Otan com um futuro “muito ruim” caso não apoiassem a abertura do Estreito, o presidente foi rejeitado, sendo forçado a recuar publicamente. Internamente, o Partido Republicano começa a rachar. Vozes influentes do movimento MAGA, como Tucker Carlson, já classificam a situação como “traição”, criticando o abandono da promessa de poupar os eleitores da inflação e de guerras distantes.
O reflexo político deve vir nas urnas: projeções indicam que os republicanos podem perder o controle da Câmara em novembro, e as chances de manter o Senado caíram para cerca de 50%.
O Perigo de um Presidente “Péssimo Perdedor”
Especialistas temem que, ao se sentir acuado e com a imagem de “vencedor” arranhada, Trump adote medidas ainda mais extremas para retomar o controle da narrativa:
- Retaliação Interna: Ameaças de cassar licenças de veículos de mídia críticos e confrontos diretos com o Federal Reserve para forçar a queda dos juros.
- Abandono de Alianças: Possível saída da Otan ou interrupção do apoio à Ucrânia como forma de “punir” a Europa.
- Novas Frentes de Conflito: Tentativas de desviar o foco para a América Latina ou Cuba, em busca de uma vitória política rápida.
Mesmo que o cessar-fogo ocorra de imediato, a normalização dos mercados e do transporte marítimo levaria meses. Até lá, um Trump enfraquecido politicamente e irritado com o cenário econômico representa um risco imprevisível tanto para as instituições americanas quanto para a estabilidade global.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Ilustração: Caricatura de Trump – por Benett – Folha de S.Paulo




