Fórum Mundial de Teologia e Libertação termina no Benin com chamado contra opressão, neofascismo e destruição ambiental

Encontro internacional reuniu teólogos, pesquisadores e ativistas em Cotonou e produziu a Carta de Benin, que propõe transformar a Teologia da Libertação em prática concreta de resistência, justiça e defesa da vida.
Publicado em 4 de setembro de 2026 às 7:00
Editado em 4 de setembro de 2026 às 2:03
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Arte do 12º Fórum Mundial de Teologia e Libertação, realizado em Cotonou, no Benin, em 2026

Redação RED

Mais de duas décadas depois de nascer em Porto Alegre, o Fórum Mundial de Teologia e Libertação (FMTL) levou ao continente africano uma discussão que ultrapassa os limites da religião. Num mundo marcado por guerras, desigualdade, racismo, crise climática, avanço da extrema direita e novas formas de colonialismo, o encontro procurou discutir o significado contemporâneo da palavra libertação.

Entre 31 de julho e 8 de agosto, teólogas e teólogos, pesquisadores, ativistas e representantes de comunidades de fé dos cinco continentes reuniram-se em Cotonou, no Benin, para a 12ª edição do Fórum. Realizado no contexto das atividades do Fórum Social Mundial, o encontro colocou no centro dos debates a recusa às dominações econômica, política e religiosa e a necessidade de pensar a soberania dos povos sob uma perspectiva nova e distinta.

Um dos principais resultados foi a Carta de Benin, declaração produzida ao final das atividades e destinada a transformar as reflexões realizadas durante o encontro em compromissos. Diante do que os participantes definem como crescimento do conservadorismo radical e dos extremismos, o documento defende uma “política de esperança” enraizada nas lutas locais e recupera uma formulação que atravessou o Atlântico desde Porto Alegre: outro mundo é possível.

Um Fórum que nasceu em Porto Alegre

A referência à capital gaúcha tem significado histórico. O Fórum Mundial de Teologia e Libertação surgiu em 2005, em Porto Alegre, no ambiente internacional criado pelo Fórum Social Mundial, reunindo diferentes correntes das Teologias da Libertação e estabelecendo pontes entre reflexão acadêmica, comunidades religiosas e movimentos comprometidos com transformações sociais.

Desde sua origem, a proposta é fazer com que a reflexão teológica não permaneça confinada às universidades, igrejas ou discussões doutrinárias. As questões da fé são colocadas em diálogo com as condições concretas em que vivem os povos, especialmente aqueles submetidos à pobreza, à violência, à discriminação e às diferentes formas de exclusão.

Realizar a 12ª edição no Benin acrescentou uma dimensão histórica particular a essa discussão. Localizado na África Ocidental, o país ocupa um território profundamente relacionado à memória do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, e essa herança esteve presente nas reflexões realizadas.

Em Ouidah, um dos principais pontos históricos da antiga rota escravista, os participantes entraram em contato com lugares que preservam a memória daqueles que foram arrancados da África e enviados para outros continentes. A relação entre Benin e Brasil, construída também por essa história trágica, adquiriu assim um significado especial dentro de um encontro que se propunha justamente a discutir libertação, soberania e colonialismo.

A experiência seria posteriormente transformada em poesia pelo teólogo brasileiro Roberto E. Zwetsch. Ao recordar a passagem pelo Portal dos Escravos, em Ouidah, ele evoca aqueles que fizeram uma viagem sem retorno, acorrentados, desterritorializados e convertidos em mercadoria humana, muitos deles sem sequer sobreviver à travessia do Atlântico.

Libertação também significa descolonizar

A escolha do Benin permitiu que conceitos historicamente associados às Teologias da Libertação fossem confrontados com experiências e saberes africanos. A Carta afirma que a memória da escravidão não deve perpetuar a ferida, mas alimentar uma nova soberania dos povos, capaz de construir relações livres de dominação.

Nesse processo, o documento reconhece na sabedoria africana, no Ubuntu, nas tradições ancestrais do vodu e nas espiritualidades dos povos indígenas e nativos fontes vivas de resistência, cura e restauração da dignidade humana. São conhecimentos e práticas que, segundo a Carta, foram durante muito tempo distorcidos pelo processo de colonização.

A análise, no entanto, não se limita às consequências históricas do colonialismo. Para os participantes do Fórum, formas contemporâneas de dominação permanecem presentes nas estruturas econômicas e políticas mundiais e começam a se manifestar também por intermédio das novas tecnologias.

A Carta denuncia aquilo que chama de oligarquia financeira ocidental e de “senhores da guerra” que atuam sobre o Sul Global. Ao mesmo tempo, introduz no debate um tema bastante atual ao denunciar uma nova colonialidade digital vinculada à inteligência artificial, indicando que as relações de dependência entre países e populações podem assumir formas diferentes daquelas conhecidas durante o colonialismo tradicional.

A dimensão ambiental ocupa igualmente espaço importante nas conclusões. O Fórum compromete-se com uma Ecoteologia da Libertação, relacionando a violência exercida contra seres humanos àquela praticada contra o restante da natureza e sustentando que a defesa da vida precisa ultrapassar as fronteiras da própria espécie.

Extrema direita e neofascismo entram na Carta

É na relação de desafios concretos assumidos pelos participantes que a Carta de Benin adquire caráter mais diretamente político. O primeiro deles é reconhecer o crescimento da extrema direita e do neofascismo como um perigo para a vida dos povos e das comunidades de fé, tanto em escala global quanto no âmbito das sociedades locais.

O documento também propõe denunciar as consequências das crises econômica, política e religiosa sobre a dignidade humana. Condena as condições impostas a mulheres, meninas, meninos e pessoas com deficiência em diferentes contextos e manifesta rejeição explícita ao racismo, às diversas formas de discriminação e à violência.

Outro grande desafio identificado está nos movimentos migratórios dentro dos próprios países e através das fronteiras internacionais. A Carta relaciona esses deslocamentos ao empobrecimento das populações vulneráveis e associa o problema à emergência ambiental, afirmando que as mudanças excepcionais do clima colocaram definitivamente a questão socioambiental no centro das lutas contemporâneas.

Essas posições colocam deliberadamente o Fórum dentro dos grandes conflitos políticos e sociais de seu tempo. A Teologia da Libertação defendida em Cotonou não reivindica neutralidade diante deles, mas entende a opção pelos vulneráveis e o enfrentamento às diferentes formas de dominação como parte de sua própria razão de existir.

O “espírito de Porto Alegre” atravessa o Atlântico

A ligação histórica com o Rio Grande do Sul reaparece de maneira explícita no quinto e último desafio estabelecido pela Carta. Os participantes propõem “reimaginar nosso mundo” tendo como referência o “espírito de Porto Alegre”, diante de dramas humanos que atingem milhões de pessoas e de ataques que, segundo o documento, fragilizam povos e democracias.

A expressão recupera a experiência do Fórum Social Mundial, que realizou sua primeira edição na capital gaúcha em 2001 como contraponto aos encontros do Fórum Econômico Mundial de Davos e à ideia de que a globalização econômica então dominante constituiria um caminho sem alternativas. Foi nesse ambiente político e intelectual que, quatro anos depois, surgiu o Fórum Mundial de Teologia e Libertação.

Mais de duas décadas depois, a Carta produzida no Benin retoma aquela herança para defender um processo de descolonização que não se restringe às fronteiras geográficas. As Teologias da Libertação que emergem do Sul Global são convocadas a trabalhar pela descolonização de “territórios, mentes e almas”, em articulação com setores progressistas de outras partes do mundo.

Forma-se, dessa maneira, uma significativa viagem de ida e volta através do Atlântico. Um movimento teológico internacional nascido no ambiente do Fórum Social Mundial de Porto Alegre chega à África, confronta-se com a memória da escravidão e com tradições que sobreviveram à colonização e, de lá, reivindica novamente o espírito político que contribuiu para sua própria origem.

Da declaração para a prática

O alcance concreto da Carta de Benin não pode ser medido poucas semanas depois do encerramento do encontro. Fóruns internacionais dessa natureza não têm poder para obrigar governos, instituições religiosas ou organizações sociais a adotar suas resoluções, e sua influência depende da capacidade de fazer circular ideias, estabelecer redes e transformar compromissos coletivos em ações concretas.

A própria Carta demonstra consciência desse limite e talvez esteja justamente aí uma de suas formulações mais significativas. Em vez de proclamar uma vitória ou oferecer uma certeza, afirma que o Fórum termina com uma tarefa: fazer da Teologia da Libertação uma prática verificável, e não apenas mais um vocabulário.

A consequência imediata do encontro deve ser procurada, portanto, menos em decisões institucionais do que na agenda comum que os participantes levaram de Cotonou. Ela deverá chegar às comunidades religiosas, universidades, movimentos sociais e organizações representadas no Fórum e será nesses espaços que se poderá avaliar, com o tempo, se os compromissos assumidos produzirão resultados concretos.

A declaração final sintetiza essa agenda em cinco afirmações: (1) defesa da vida humana e não humana; (2) justiça social, cultural e ambiental; (3) reconstrução da esperança; (4) construção de outro mundo em que caibam todos os povos; e (5) defesa da alegria de viver e ser livre. São objetivos de enorme amplitude diante de uma realidade marcada simultaneamente por guerras, desigualdades, emergência climática, deslocamentos populacionais e novas manifestações de autoritarismo.

Talvez seja por isso que a palavra que atravessa a Carta não seja vitória, mas esperança. Não uma esperança entendida como espera passiva, mas como disposição para agir mesmo quando os resultados permanecem incertos.

Quando a experiência se transforma em poesia

Essa mesma ideia percorre “Os gritos da Terra e dos Pobres — Um poema que brota da Esperança invisível”, escrito por Roberto E. Zwetsch a partir da experiência vivida no Benin. O texto não procura resumir as resoluções do Fórum, mas traduzir para a linguagem poética aquilo que os debates acadêmicos, políticos e teológicos formularam de outras maneiras.

Estão no poema Cotonou e Ouidah, a memória dos africanos escravizados, as guerras, a violência do poder, o sofrimento da Terra, a injustiça e a resistência. Ao lado deles aparecem o canto, a dança, a água, o pão e as crianças, compondo uma esperança que, segundo Zwetsch, não depende de holofotes porque nasce “do chão, do canto, da dança, no escondido da vida”.

O autor estabelece ainda diálogos com Homi Bhabha, Achille Mbembe, Ailton Krenak e Anna Tsing. Ao final, amor, compaixão, solidariedade, paz e justiça convergem para aquilo que o poema chama de uma “Aliança dos Invisíveis e Vulneráveis”, formada por gente e seres capazes de inspirar e convocar mesmo quando aparentemente destituídos de poder.


Leia o poema na íntegra

Escrito depois do encontro, o poema de Roberto E. Zwetsch registra em linguagem literária impressões, memórias e reflexões despertadas pela passagem do autor pelo Benin e por sua participação no 12º Fórum Mundial de Teologia e Libertação.

A íntegra do poema está disponível no documento incorporado abaixo, que também poderá ser aberto ou baixado pelo leitor.

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