Da Redação*
A disputa pelo voto feminino passou a ocupar espaço crescente na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Com desempenho inferior ao do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre as mulheres, o senador intensificou nas últimas semanas discursos contra a violência de gênero e passou a apresentar propostas destinadas especificamente a esse público.
A mudança ocorre em um cenário eleitoral desfavorável ao candidato nesse segmento. Pesquisa Nexus/BTG Pactual divulgada em 17 de agosto apontou Lula com 46% das intenções de voto entre as mulheres, enquanto Flávio registrava 32%. Desde julho, eventos importantes da campanha do senador passaram a incorporar com frequência referências à segurança feminina e ao programa Brasil por Elas.
Poucos projetos em mais de duas décadas
O espaço adquirido pelo tema na campanha contrasta, entretanto, com a produção legislativa do candidato. Levantamento da Agência Pública identificou somente três propostas relacionadas à segurança das mulheres apresentadas por Flávio em quase 24 anos de atuação parlamentar, entre 2003 e 2026. No período, ele protocolou 306 proposições sobre diferentes assuntos, fazendo com que aquelas voltadas à proteção feminina representem menos de 1% do total.
Duas dessas iniciativas são recentes. A PEC 41/2025, apresentada em novembro passado, pretende incluir expressamente na Constituição o direito das mulheres a uma vida livre de violência. Já o PL 1400/2026, protocolado em março, busca ampliar a possibilidade de concessão imediata de medidas protetivas pela autoridade policial. A terceira proposta remonta a 2017, quando Flávio ainda era deputado estadual no Rio de Janeiro.
A assessoria do candidato sustenta que proteção às vítimas de violência, combate aos crimes sexuais, saúde feminina e planejamento familiar sempre fizeram parte das bandeiras defendidas pelo parlamentar. Especialistas ouvidas pela Pública, contudo, avaliam que o tema teve pouco protagonismo em sua trajetória e ganhou maior visibilidade depois do avanço da pré-candidatura presidencial.
Votações revelam posições distintas
No Senado, Flávio apoiou medidas consensuais de proteção, como delegacias especializadas para mulheres, ações destinadas a idosas vítimas de violência e o Programa Sinal Vermelho. Também votou favoravelmente ao piso da enfermagem, ao Emprega + Mulheres e à proporcionalidade dos recursos partidários destinados às candidaturas femininas. Mas fez isso quando a votação estava resolvida, apenas seguindo a decisão da maioria. Ao mesmo tempo, apoiou anistia a partidos que descumpriram cotas para mulheres e não registrou voto em três proposições relacionadas à proteção feminina.
Para as juristas consultadas, existem avanços pontuais, mas também contradições. Entre as principais críticas está a defesa do porte de armas para mulheres submetidas a medidas protetivas. As especialistas argumentam que a proposta pode transferir para a vítima uma responsabilidade que deveria ser do Estado e introduzir uma arma justamente em ambientes marcados por conflitos e violência.
Com a eleição se aproximando e uma diferença de 14 pontos separando Flávio de Lula entre as eleitoras, a presença crescente da pauta feminina na campanha transforma o histórico parlamentar do candidato em elemento adicional da disputa pelo voto das mulheres.
* Redator: Solon Saldanha
Ilustração produzida por IA. Crédito: RED

