Da Redação*
O afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada, já foi revertido nesta quarta-feira (9) por decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). Como a RED noticiou anteriormente, Dino determinou a imediata reintegração dos dois dirigentes, derrubando os efeitos da medida adotada pelo ministro André Mendonça e referendada pela maioria da Segunda Turma. A decisão será submetida ao plenário do STF.
A sequência cronológica dos acontecimentos, portanto, colocaria o episódio do afastamento antes da reintegração. A gravidade das informações que cercam o caso, porém, justifica recuperar um aspecto daquela decisão que merece conhecimento público: dois dos três ministros que formaram maioria para afastar Andrei e Almada das investigações têm filhos citados em reportagens sobre relações com Daniel Vorcaro ou com empresas que receberam recursos do Banco Master.
Luiz Fux e Kassio Nunes Marques acompanharam André Mendonça – o “terrivelmente evangélico” – no julgamento realizado na terça-feira (8). Não há evidências conhecidas de que as relações envolvendo seus filhos tenham influenciado os votos dos dois ministros, nem indicação de participação deles nos negócios descritos nas reportagens. Porém, mesmo que possa isso ser enquadrado como uma infeliz coincidência, não pode deixar de ser considerado.
Filho de Nunes Marques recebeu de consultoria ligada ao Master
O escritório de Kevin de Carvalho Marques, filho de Nunes Marques, recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária em 11 transferências realizadas entre 2024 e 2025. No mesmo período, a consultoria recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master e R$ 11,3 milhões da JBS. Os valores pagos pelas duas empresas representaram a totalidade da receita da Consult no intervalo analisado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Os documentos conhecidos não demonstram que o dinheiro pago a Kevin tenha saído dos recursos transferidos pelo Master. O que está documentado é que a mesma consultoria recebeu os milhões do banco e, naquele período, realizou pagamentos ao escritório do filho do ministro.
A ligação empresarial vai além. Kevin tornou-se sócio de Gabriel Campelo de Carvalho no Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária (IPGT). Gabriel é filho de Francisco Craveiro, responsável pela Consult. A revista Piauí informou ainda que as famílias de Craveiro e Marques mantêm relação pessoal próxima, fato confirmado pelo gabinete do ministro. O IPGT e a Consult chegaram também a compartilhar endereço em Alphaville.
Kevin afirmou que recebeu R$ 234,8 mil líquidos pela prestação de serviços de assessoria jurídica e negou qualquer relação do IPGT com o Banco Master ou com a JBS. Não há, nas informações tornadas públicas, indicação de que Nunes Marques tenha participado dessas operações.
Filho de Fux esteve com Vorcaro
Rodrigo Fux, advogado e filho do ministro Luiz Fux, esteve em eventos frequentados por Daniel Vorcaro antes da prisão do banqueiro. Em março de 2025 ele participou da área VIP do camarote Alma Rio durante o Desfile das Campeãs na Marquês de Sapucaí. Mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram o então controlador do Master tratando da distribuição de convidados e determinando que “Fux” fosse colocado no espaço VIP. Vorcaro participava do financiamento do camarote.
Rodrigo confirmou a presença, mas negou amizade ou relação profissional com Vorcaro. Segundo ele, houve uma tentativa de aproximação comercial do banqueiro que não prosperou. O advogado afirmou que nunca prestou serviços a Vorcaro.
Rodrigo também esteve em uma degustação exclusiva de uísque em Nova York custeada pelo banqueiro e que reuniu cerca de 40 convidados. Luiz Fux teria sido convidado, mas não compareceu. Pessoas próximas à família afirmaram que Rodrigo permaneceu pouco tempo no encontro e reiteraram que seu escritório jamais prestou serviços ao Master.
Afastamento durou menos de um dia
Fux, Marques e Mendonça formaram maioria de três votos na Segunda Turma para manter o afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada. A medida atingia diretamente a cúpula da Polícia Federal responsável por investigações sensíveis relacionadas ao Banco Master.
Na manhã de hoje, porém, Flávio Dino determinou a reintegração imediata dos dois policiais. O ministro considerou que a retirada da cúpula da PF poderia comprometer investigações em andamento e estabeleceu que sua decisão seja submetida exclusivamente ao plenário do Supremo.
A reversão da medida encerrou, por enquanto, seus efeitos práticos. Não elimina, entretanto, a relevância pública das circunstâncias que cercaram a votação realizada poucas horas antes — especialmente em um momento em que as relações entre integrantes do Judiciário, seus familiares e personagens ligados ao Banco Master estão sob crescente escrutínio.
* Redator: Solon Saldanha
Ilustração criada com uso de IA. Crédito: Redação da RED

