Em 26 de setembro de 2022, no Mar Báltico, perto da ilha dinamarquesa de Bornhold, várias explosões submarinas romperam os gasodutos Nord Stream, que transportavam gás natural da Rússia para a Alemanha. Autoridades da Dinamarca, Suécia e Alemanha concluíram que os danos foram causados por sabotagem deliberada, e não por acidente. Vestígios de explosivos foram encontrados.
A partir desse incidente, a Europa passou a comprar gás dos Estados Unidos, mais caro do que o que vinha da Rússia. Passou a ser transportado por navios. Pouca gente duvidou da autoria do atentado.
As explosões provocaram um dos maiores vazamentos de metano já registrados. Centenas de milhões de metros cúbicos de gás escaparam para a atmosfera. Como o metano é um potente gás de efeito estufa, as explosões vieram aumentar as preocupações climáticas globais.
A subordinação
A diplomacia já não disfarça. Um continente inteiro, com quinhentos milhões de habitantes, um mercado maior do que o dos Estados Unidos e uma tradição industrial e científica secular, hoje organiza sua política externa, sua defesa e até sua economia em função dos humores de um único homem em Washington. A palavra parceria perdeu o sentido. O que resta é subordinação. Desde que a guerra na Ucrânia entrou no seu quinto ano, em fevereiro de 2026, a pressão americana sobre os europeus para que se responsabilizassem pela maior parte dos custos militares da OTAN/NATO foi a pedra angular dos primeiros tempos sob Donald Trump.
Em 2025, os membros europeus gastaram 559 bilhões de dólares em defesa e a aliança como um todo, sob pressão de Washington, teve de elevar a meta de gastos para 5% do PIB até 2035. Dinheiro que, retirado do orçamento dos países que formam a União Europeia, vai comprometer e desorganizar os Estados de bem-estar social que orgulhavam e tranquilizavam a Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O Pentágono já reduziu sua participação e a resposta da Europa foi a corrida para pagar mais pela mesma dependência.
O novo comércio
Na economia, é a mesma nova realidade. Depois de meses sob ameaça de tarifas de até 30% sobre suas exportações, a União Europeia fechou em 2025 um acordo que fixou uma taxa de 15% sobre a maior parte dos seus produtos, incluindo o setor automotivo, pilar industrial da Alemanha. Além disso, a Europa comprometeu-se a investir 600 bilhões de dólares em território norte-americano, a maior parte na indústria de defesa. O chanceler alemão Friedrich Merz anunciou o acordo como prova de que “a Europa cumpre seus compromissos”. Foi uma frase considerada mais como um atestado de resignação do que de capacidade de negociar. Muitos lembraram do famigerado Acordo de Munique de 1938 que fortaleceu o nazismo. Mesmo depois de fechado, o pacto continuou sendo usado como instrumento de pressão: em 2026 Washington passou a cobrar publicamente que Bruxelas revisasse normas de segurança automotiva, alimentos e agricultura que incomodavam empresas americanas, e ameaçou voltar a elevar as tarifas sobre veículos europeus caso o bloco não concordasse. Um editorialista português resumiu o desconforto com uma pergunta que vale a pena repetir: por que a União Europeia insiste em confundir diplomacia com submissão, pagando o preço de acordos impostos sob ameaça?
Mesmo no terreno em que a Europa teoricamente tem mais poder, a regulação, a Comissão Europeia viu-se obrigada a defender publicamente seu “direito soberano” de legislar sobre as grandes empresas de tecnologia depois que Trump ameaçou retaliar contra as leis antitruste e de proteção de dados. Os analistas observaram que se um continente precisa reafirmar, como se fosse novidade, o direito de regular empresas que operam em seu próprio território, diz tudo sobre a relação de forças em jogo. A infraestrutura digital europeia como nuvem, semicondutores avançados, inteligência artificial de ponta, continua na maior parte hospedada, financiada ou licenciada por companhias americanas. Isto transforma qualquer tentativa de autonomia regulatória em um exercício de equilíbrio sobre uma corda que Washington pode cortar quando quiser, assinalam observadores.
A dependência
A Europa tem abdicado da sua soberania quando a cada negociação com os EUA entra pedindo equilíbrio e sai depois de aceitar os termos que lhe foram ditados. A justificativa repetida sempre é a de preservar a unidade diante de ameaças comuns que vêm da Rússia e da China. Os Estados Unidos cortam recursos e pedem que a Europa cuide do próprio quintal.
A Rússia continua sendo o eterno fantasma que amedronta a Europa ocidental. A antiga União Soviética, que não sai da memória da Guerra Fria, aplicou em 2025 7,5% do seu PIB nas Forças Armadas. A Europa levaria décadas a materializar sua defesa diante das ameaças de um mundo mais perigoso, dizem os analistas. Daí a necessidade da proteção dos EUA, em troco da própria soberania. É provável, afirmam, que continue assim enquanto a guerra da Ucrânia, a rivalidade EUA-China e a imprevisibilidade do atual governo americano continuarem revisando, a cada mês, os termos das relações com os Estados Unidos.
O medo da Rússia
A invasão em larga escala da Ucrania, em 2022, fez uma preocupação que era abstrata passar a ser vista como ameaça concreta. Desde então, o discurso dos governos europeus mudou de tom. Macron afirmou que a Europa terá de definir os seus próprios parâmetros de segurança de forma independente. A França passou a conduzir conversações estratégicas nucleares com aliados, mostrando que o receio já não é hipotético e passou a influenciar a reformulação de doutrinas de defesa.
Países do antigo bloco soviético ou da órbita russa — Polónia, países bálticos, Roménia, Finlândia trazem consigo a memória de ocupação, deportações e domínio soviético. Essa memória é reativada por episódios como a guerra na Geórgia em 2008 e a anexação da Crimeia em 2014, que mostraram que Moscou estava disposta a usar força militar para redesenhar fronteiras. Uma reportagem da Euronews sobre a Lituânia captou bem esse sentimento antigo: a Europa teme o interesse da Rússia por mais poder e mais território, o que Moscou desmente.
Putin fez uma aberta advertência contra o apoio ocidental à Ucrânia e avisou a Alemanha de que armas ocidentais usadas contra alvos em território russo seriam um “passo perigoso”.
Publicado originalmente em Fórum 21.
Foto de capa: Rory Arnold / Downing Street – Wikipedia)


