A política brasileira contemporânea atravessa uma fase em que a governabilidade e a manutenção do poder Executivo assentam-se, em grande medida, na arquitetura do “mal menor”.
Esse mecanismo, amplamente observado em democracias polarizadas, funciona como uma salvaguarda e como estratégia eleitoral para manter o poder, atuando de forma eficiente para evitar a ascensão do projeto adversário.
No entanto, quando transformado no pilar central de uma estratégia de poder, o princípio da rejeição cruzada revela limitações estruturais profundas: ele impõe um limite rígido à aprovação popular e é incapaz de criar uma adesão programática duradoura.
Para consolidar uma maioria social sólida e ultrapassar a dinâmica defensiva, o governo enfrenta o desafio imperativo de reconfigurar suas alianças sociais e dialogar com parcelas do eleitorado que orbitam totalmente fora de sua base histórica.
A sociedade brasileira assistiu, durante um mandato inteiro, à sequência de embates entre o oficialismo e a parte derrotada no último pleito.
O nome do derrotado, se contabilizado, foi repetido na mídia nacional muito mais vezes do que o do próprio mandatário.
Esse fenômeno evidencia a armadilha da fixação na figura do opositor: ao transformar a oposição no eixo gravitacional do debate público, o próprio governo contribui para manter a figura do derrotado viva, atuante e central no imaginário eleitoral.
Em vez de eclipsar o adversário pela demonstração diária de capacidade de gestão e proposição, a hipertrofia do discurso de confronto realimenta a polarização, consolida o papel do antagonista como líder inconteste do campo oposto e desvia o foco das entregas concretas que a sociedade exige.
Essa polarização contínua e hipertrofiada atua como um potente agente causador de fadiga no eleitor mediano, aquele grupo desprovido de paixões partidárias e orientado pelo pragmatismo do cotidiano.
À medida que o embate retórico se prolonga sem que haja alívio nas pressões econômicas e sociais de quem vive nas periferias, a beligerância constante passa a ser percebida como um ruído estéril, uma disputa autofágica entre elites políticas desconectadas do mundo real.
Esse esgotamento anestesia a sensibilidade do eleitor não alinhado em relação aos alertas ideológicos e reduz drasticamente a eficácia do discurso defensivo.
Quando o apelo ao “mal menor” é repetido em looping em um ambiente de exaustão cognitiva, ele deixa de soar como uma advertência racional e passa a ser recebido com cinismo, desengajamento ou com a busca voluntária por alternatives funcionais que prometam pacificação e entregas materiais urgentes.
O principal calcanhar de Aquiles da tese do “mal menor” é a sua dependência de uma memória política e de um cálculo de danos que perdem eficiência com o passar do tempo.
A sociologia política e a teoria da escolha racional demonstraram que a memória do eleitor, em sua maioria, é prospectiva e utilitarista, e não retrospectiva e moral.
As oscilações nas pesquisas de opinião refletem exatamente o dia a dia e as urgências do momento, provando essa imediaticidade no comportamento do cidadão.
Sob a ótica do eleitor mediano, a decisão do voto opera por meio de uma constante avaliação de custo de oportunidade no presente.
Quando os horizontes de expectativa se afunilam, o medo da regressão cede lugar à cobrança por resultados materiais concretos.
A rejeição ao polo oposto garante a coesão do eleitorado ideologizado e a tolerância de um segmento pragmático em momentos de crise aguda.
Todavia, à medida que as urgências cotidianas se impõem, como o custo da cesta básica, o valor do transporte público, o acesso a serviços de saúde e a sensação de segurança, a comparação com o governo anterior deixa de ser o critério primário de avaliação.
O eleitor não alinhado não julga a gestão apenas em relação ao fantasma da alternativa, mas em função da sua perda ou ganho de qualidade de vida no presente.
Quando os resultados materiais demoram a se consolidar, a retórica do “menos pior” perde tração e abre espaço para a apatia, a desilusão ou o surgimento de novas vias de protesto.
O esvaziamento da cobrança moralista abre margem para o avanço da volatilidade eleitoral, na qual o eleitorado desvinculado de paixões partidárias passa a flutuar em busca de alternativas operacionais que entreguem respostas rápidas.
Além disso, a estrutura socioeconômica do Brasil sofreu transformações profundas nas últimas duas décadas que alteraram a própria composição do eleitorado e suas aspirações.
O Estado, em sua estrutura organizativa e administrativa, simplesmente não acompanhou essas movimentações ocorridas na conformação social, produzindo um descompasso estrutural em que a máquina pública parece ignorar que sua própria existência se justifica em razão da sociedade, e não o contrário.
A base tradicional da esquerda brasileira, ancorada no operariado sindicalizado, nos servidores públicos e nos movimentos sociais organizados, já não representa a totalidade nem a maioria da classe trabalhadora urbana.
O crescimento exponencial do setor de serviços, a expansão do trabalho autônomo, da economia de plataformas e do empreendedorismo periférico moldaram uma nova classe trabalhadora cujas relações de produção estão desvinculadas da intermediação corporativa do século XX.
Esta nova configuração social manifesta uma subjetividade marcada pelo pragmatismo produtivo, em que o ethos do esforço individual se sobrepõe à dependência das estruturas tutelares clássicas.
Trata-se de um estrato populacional que constrói sua trajetória econômica nas brechas do mercado informal e na gestão do próprio tempo, desenvolvendo uma cultura de sobrevivência que privilegia a flexibilidade e a agilidade em detrimento da estabilidade formal tradicional.
O destinatário final da ação estatal mudou: suas expectativas e modos de vida exigem que a atuação do Estado seja ajustada a essa nova realidade social, desprendendo-se de concepções estatistas rígidas.
Para esse novo segmento, o aparato estatal é frequentemente percebido como uma estrutura burocrática e tributária que dificulta a autonomia financeira, e não como um garantidor de direitos.
Ao vivenciar o Estado primariamente como um agente arrecadador ou regulador punitivo, o trabalhador informal e o pequeno empreendedor periférico constroem uma resistência intuitiva às narrativas de ampliação do setor público que não se traduzam em facilitação direta da sua atividade econômica.
A defasagem do Estado fica ainda mais evidente na arquitetura das políticas públicas vigentes.
Os programas sociais tradicionais possuem público certo e consolidado, mas falham em atingir uma parcela expressiva do eleitorado, mais jovem, dinâmica e economicamente ativa.
Para capturar esse grupo, a comunicação e as ações do governo precisam abandonar posturas paternalistas, que tentam impor o que o Estado julga necessário em vez de escutar o que o cidadão deseja, e incorporar os valores da produtividade, da autonomia individual e do acesso ao crédito, superando a dicotomia entre Estado e mercado.
A ação pública exige um planejamento a médio e longo prazo para garantir reformas estruturais indispensáveis, mas a entrega imediata e tangível deve estar igualmente presente no desenho das políticas públicas.
A sustentabilidade de uma gestão depende do equilíbrio entre a construção do futuro e a resposta rápida às demandas do presente.
Nesse horizonte, a formulação de políticas públicas demanda a transição de um modelo meramente assistencialista para um modelo de emancipação socioeconômica.
É preciso integrar os mecanismos de crédito bancário acessível, desburocratização regulatória e capacitação tecnológica direta às redes de incentivo ao microempreendedorismo, oferecendo ferramentas para que essa parcela do eleitorado expanda sua capacidade geradora de renda de forma autônoma.
Essa lógica pragmática e de impacto imediato aplica-se diretamente ao comportamento desse eleitorado flutuante e jovem, que prefere a nova forma de viver ancorada na hiperconexão e na autonomia digital.
Se for apresentado um questionamento a essa parcela da população colocando na balança, por exemplo, o ritmo lento das obras de infraestrutura tradicional em comparação com ações imediatas de inclusão digital, como a concessão de dispositivos com internet gratuita, a preferência tenderá fortemente para a resposta pragmática no presente.
Trata-se de uma medida complementar, de menor impacto fiscal imediato e com alto valor percebido de utilidade.
Além disso, essa concessão pode ser desenhada como uma política pública condicional (exigindo, por exemplo, a manutenção da frequência escolar ou a realização de cursos técnicos), unindo a eficiência do gasto público à formação de capital humano no longo prazo.
A infraestrutura digital, na contemporaneidade, assume o papel funcional que as rodovias e redes elétricas desempenharam no século passado.
Para a juventude periférica, o acesso contínuo a dados em alta velocidade e a dispositivos móveis não representa mero consumo passivo de entretenimento, mas a condição material básica para a inserção na economia do conhecimento, trabalho remoto, educação a distância e serviços financeiros.
Adicionalmente, o crescimento demográfico e cultural da população religiosa nas periferias consolida um ator social com pautas de valores bem definidas e uma forte ética de amparo comunitário e autossuficiência.
Esse segmento reconfigurou a sociabilidade urbana brasileira ao construir redes internas de solidariedade, empreendedorismo e acolhimento social que muitas vezes suprem a ausência das agências estatais.
Tratar esse grupo apenas por meio de pontes institucionais temporárias em períodos eleitorais, sem construir uma agenda contínua de diálogo sobre segurança, família e desenvolvimento local, perpetua o distanciamento de uma parcela decisiva da sociedade.
Essa sociabilidade periférica opera sob uma lógica de cooperação comunitária orgânica que reorganiza o tecido social nos territórios mais vulneráveis.
As instituições comunitárias e confessionais funcionam frequentemente como centros de apoio psicossocial, agências de recolocação profissional e redes de crédito informal.
Desconsiderar a densidade institucional dessas redes implica alienar-se da linguagem e dos códigos morais que organizam a vida cotidiana de milhões de famílias urbanas.
A consolidação de uma aprovação duradoura exige, portanto, a transição de um modelo de governabilidade reativo para um modelo propositivo de entregas tangíveis e ajustadas às novas exigências do cidadão.
A gestão econômica não pode se restringir ao equilíbrio macroeconômico abstrato ou aos indicadores de mercado; é indispensável que a estabilização fiscal se traduza no aumento do poder de compra e na geração de empregos formais e oportunidades para os autônomos.
Da mesma forma, a segurança pública, historicamente um terreno negligenciado pelo campo progressista, precisa ser assumida como prioridade absoluta de direitos humanos e proteção social, uma vez que a violência urbana incide desproporcionalmente sobre a população de baixa renda.
A segurança pública deve ser compreendida como a primeira e mais elementar condição de bem-estar social, sem a qual o exercício da cidadania e a liberdade de circulação ficam profundamente atrofiados.
O enfrentamento do crime organizado e da desordem urbana exige a superação de dogmas teóricos e a implementação de estratégias baseadas em inteligência, integração policial e presença ostensiva do Estado nos territórios dominados pelo crime, garantindo às populações periféricas a tranquilidade necessária para o desenvolvimento de suas rotinas sociais e econômicas.
Sustentar-se na fraqueza ou na rejeição do oponente garante a sobrevivência no curto prazo e a competitividade em disputas eleitorais.
Contudo, a verdadeira estabilidade política e a hegemonia de um projeto de país não se constroem na sombra do adversário.
Sem uma adaptação estrutural da máquina pública ao novo perfil do destinatário do Estado, reconhecendo que a estrutura organizativa precisa servir à sociedade e ajustando suas entregas imediatas para alcançar os jovens e os trabalhadores autônomos, a estratégia do “mal menor” continuará sendo um escudo frágil contra o desgaste inevitável do exercício do poder.
Foto de capa: IA


