Por Solon Saldanha *
Em pré-campanha à Presidência, o senador busca suavizar a imagem para reduzir rejeição e atrair o eleitorado de centro, mas especialistas apontam contradições entre o novo discurso e a trajetória política do “clã” Bolsonaro.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deu início a uma complexa manobra política para viabilizar sua pré-candidatura à Presidência da República. A estratégia central consiste na construção de um perfil moderado, buscando distanciar sua imagem da retórica mais agressiva de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Enquanto aliados apostam que o estilo diplomático do “filho 01” pode romper a bolha do conservadorismo radical, cientistas políticos e adversários questionam a viabilidade de dissociar o candidato de um projeto inerentemente autoritário e de seu próprio histórico parlamentar.
Nos bastidores, o otimismo da base aliada sustenta-se na tese, sabe-se lá tirada de onde, de que Flávio é uma figura “dócil e equilibrada”. O foco é o combate à rejeição: dados recentes do Datafolha apontam um empate técnico entre o senador e o presidente Lula, ambos com algo pouco acima de 40%. Para os estrategistas do PL, a rejeição de Lula é estrutural, enquanto a de Flávio seria um “empréstimo” do pai, passível de reversão através de uma exposição mais polida e autônoma. “O objetivo é mostrar que Flávio é Flávio e Jair é Jair”, afirmam interlocutores sob anonimato.
A guinada ao centro incluiu, nos últimos meses, uma agenda voltada ao “PIB paulista”, com almoços em instituições financeiras e residências de grandes empresários. Paralelamente, a moderação transbordou para as redes sociais. Em movimentos inéditos, o senador publicou vídeos em defesa de creches no Dia da Mulher, condenou episódios de racismo no futebol europeu e chegou a compartilhar ilustrações geradas por inteligência artificial que sugerem respeito à diversidade sexual — uma tentativa clara de acenar a grupos que historicamente rejeitam o bolsonarismo.
Entretanto, analistas alertam para o que chamam de “contradição em termos”. Odilon Caldeira Neto, coordenador do Observatório da Extrema Direita, pontua que a própria existência do bolsonarismo está ancorada na radicalização. Para Mayra Goulart, professora da UFRJ, a identidade política de Flávio é indissociável do extremismo que define sua base. Ela argumenta que o movimento se distingue da direita tradicional justamente pelo ataque às instituições e por uma visão de democracia que exclui preceitos liberais básicos.
O desafio de equilibrar pratos torna-se evidente quando o senador retoma pautas de segurança pública. Recentemente, ele defendeu a redução da maioridade penal para 14 anos e a castração química para estupradores. Aliados não veem conflito, argumentando que a pauta “linha-dura” possui apelo popular massivo e não impede o diálogo social. Contudo, para Thaís Pavez, da Pesquisa Latina Consultoria, conciliar as demandas da base radical com a fachada de moderado será uma tarefa árdua sob o escrutínio de uma campanha presidencial.
O histórico político de Flávio também serve de munição para a oposição. Adversários relembram seus quatro mandatos como deputado estadual no Rio de Janeiro, marcados pela proximidade com figuras polêmicas, como a homenagem prestada ao ex-PM Adriano da Nóbrega, e sua defesa contumaz das falas do pai contra o “politicamente correto”. Além disso, suas declarações recentes sobre o 8 de janeiro e a sugestão de uso da força contra decisões do STF em um eventual indulto a Jair Bolsonaro são citadas por juristas, como Gabriela Zancaner (PUC-SP), como evidências de um pensamento que desafia a separação de poderes.
Enquanto o governo federal já orienta sua cúpula a trabalhar na desconstrução dessa “nova face” do senador, Flávio Bolsonaro segue no fio da navalha: precisa manter o espólio político do pai sem herdar seu teto eleitoral. A eficácia dessa metamorfose política será testada diariamente até o pleito, em um cenário onde o passado e o presente parecem colidir constantemente. O que provavelmente em muitas oportunidades o desequilibrará.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor.
Foto: Flávio tentando agradar nordestinos. Crédito: reprodução Estado de Minas




