Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*
A média mensal da Selic, segundo a SGS – Sistema Gerenciador de Séries Temporais 4390 do Banco Central do Brasil (taxa de juros Selic acumulada no mês – % a.m.), desde 1995, gira em torno de 1,17% ao mês, equivalente a cerca de 15% ao ano. Não à toa, coincide com a taxa de juro de referência atual!
Houve picos ocasionais, altas e baixas, configurando ciclos financeiros. No primeiro governo FHC (1995-1998) a média de 48 meses ou quatro anos foi 2,41% a.m. No segundo mandato (1999-2002), caiu para 1,52% a.m. Nos doze anos de governos social-desenvolvimentistas sob hegemonia do Partido dos Trabalhadores (Lula e Dilma I), a taxa de juro média nesses 144 meses foi de 1,02% a.m.
Nos 60 meses ou cinco anos de governo neoliberal, seja o golpista, seja o aliado à extrema-direita, até a pandemia (2015-2019), a taxa de juro média foi de 0,79% a.m. Na pandemia, durante doze meses ficou no piso de 0,18% a.m., a partir de março de 2021, até o fim de 2025, a média desses 58 meses ficou em 0,89% a.m.
Não vou usar equações nem jargão técnico pesado, embora a conta seja simples, feita em calculadora financeira, com a taxa de juro média de 15% a.a. ou 1,17% a.m., até o início do ano passado: 360 n 1,17 i 1.800 PMT FV? O resultado é quase R$ 10 milhões acumulados em juros compostos. Confira.
A força de expressão aqui será intuitiva e pedagógica. Pretendo demonstrar como a Selic elevada produziu estagnação do trabalho e explosão da riqueza financeira.
Imagine dois brasileiros com início da fase da vida de preparação da aposentadoria em meados dos anos 1990, logo após a estabilização monetária. Eles vivem no mesmo país, enfrentam os mesmos governos, as mesmas crises e a mesma política monetária. A única diferença é como cada qual se relaciona com a taxa de juros.
Quem vive do trabalho, depende de salário, usa crédito quando precisa consumir, poupa pouco ou nada nos primeiros anos. Seu rendimento cresce lentamente, com interrupções em crises.
Quando os juros sobem, o crédito encarece, o consumo é adiado e o emprego fica mais incerto. Seu fluxo de renda é instável e pouco cresce ao longo do tempo.
Quem consegue poupar e aplicar, por exemplo, investe R$ 1.800 por mês: equivalente a 18 salários mínimos em 1995, mas apenas a 1,2 salários mínimos de R$ 1.518 em 2025. Aplica, religiosamente, em títulos indexados à Selic.
Reinveste todos os rendimentos em juros compostos. Não precisa empreender nem assumir risco produtivo. Quando os juros sobem, sua renda financeira aumenta e seu patrimônio cresce mais rápido.
Seu estoque de riqueza cresce, automaticamente, impulsionado pelo tempo e pela taxa. Resulta em um patrimônio, no início de 2025, da ordem de R$ 10 milhões, ou seja, alcança o limiar do segmento Private Banking. A partir desse valor, com a atual taxa de juro de 15% a.a., equivalente a 1,17% a.m., ele recebe R$ 117 mil em um mês de 22 dias úteis, ou seja, R$ 5.318 por “dia de trabalho” da Selic 252.
Entre 1995 e hoje, a Selic média mensal girou em torno de 1,17% ao mês, algo próximo de 15% ao ano. O que isso produz ao longo de 31 anos?
O brasileiro somente trabalhador vê seu salário real oscilar, passa por períodos de desemprego, termina a trajetória com renda corrente parecida (ou pouco maior) diante o início, em termos reais. O brasileiro também rentista, ao aplicar R$ 1.800 por mês durante 360 meses, acumula R$ 10 milhões, sem nunca ter produzido um bem ou serviço adicional.
Um gráfico ilustrativo mostraria o eixo horizontal demarcando o tempo de 1995 até 2025 e o eixo vertical mostrando os rendimentos nominais em reais. Em uma linha verde, representaria os do brasileiro somente recebedor de salário. Seria uma linha quase reta, com pequenas subidas e quedas. Cresceria pouco, sofreria interrupções, nunca decolaria.
Uma linha amarela corresponderia aos rendimentos do brasileiro recebedor, além do salário, de juros compostos. Começaria baixa, em patamar pouco acima da verde. Depois de 10–15 anos, curva viraria para cima. Nos últimos anos, dispararia.
O gráfico mostraria algo crucial. A desigualdade não nasce grande. Ela expande com o tempo por efeito cumulativo dos juros. O nome disso é: estagdesigualdade.
Esse experimento ilustra um fenômeno estrutural do Brasil, após o Plano Real de 1994. Sofreu estagnação do fluxo de renda do trabalho, porque os salários crescem pouco, o emprego é instável e o investimento produtivo é contido por juros altos.
Houve imensa expansão do estoque de riqueza financeira com juros compostos elevados, baixo risco e remuneração garantida pelo Estado. Não se trata só desigualdade de renda. É desigualdade entre fluxos de renda e estoques de riqueza financeira, chamada corretamente de estagdesigualdade: a economia anda de lado, mas a riqueza financeira corre em disparada.
Isso revela muito sobre a política monetária. A coincidência de uma Selic média de 15% ao ano por três décadas indica o Banco Central não ter operado apenas para controlar inflação, porque sustentou um regime permanente de valorização patrimonial, transformou o tempo em aliado exclusivo de quem já podia poupar e naturalizou a ideia de juros altos serem normais.
Isso não é uma falha pontual. É uma opção institucional persistente.
No Brasil, durante 30 anos, trabalhar foi sobreviver enquanto aplicar foi enriquecer.
Isto não só por mérito individual, mas muito por desenho da política monetária.
Enquanto essa assimetria, devido ao pacto de elites, não entrar no centro do debate público, a desigualdade continuará crescendo mesmo sem crescimento econômico. Entre as décadas de 1930 e 1970, o Brasil viveu um dos maiores e mais contínuos processos de crescimento econômico e industrialização do mundo, citado como um período de “desenvolvimentismo” – e não de “neoliberalismo”.
Durante grande parte desse período, especialmente de 1950 a 1980, a economia brasileira cresceu a uma taxa anual média estimada entre 5,7% e mais de 7%, superando muitas outras economias emergentes e industrializadas da época. Ai, que saudade d’ocê…
*Fernando Nogueira da Costa é Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com.
Foto de capa: Júnior Aragão/Secec-DF




