Da Redação*
A implantação do modelo cívico-militar na Escola de Educação Básica Nossa Senhora da Conceição, em São José, na Grande Florianópolis, transformou-se em foco de conflito entre estudantes, professores e o governo catarinense. O processo, questionado pela comunidade escolar e investigado pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), culminou nesta segunda-feira (24) em protestos e confronto envolvendo o deputado estadual bolsonarista Alex Brasil (PL).
Durante manifestação em frente à escola, o parlamentar da extrema-direita arrancou e rasgou uma faixa utilizada pelos estudantes contrários à militarização. O episódio, registrado em vídeo divulgado pelo próprio deputado, terminou em bate-boca e empurra-empurra, exigindo intervenção da Polícia Militar.
Consulta ouviu 158 pessoas em escola com 921 alunos
Um dos principais questionamentos envolve a consulta utilizada pelo governo estadual para justificar a mudança. Apenas 158 pessoas responderam ao formulário eletrônico: 139 apoiaram a implantação e 19 foram contrárias. A Secretaria de Estado da Educação (SED/SC) apresenta o resultado como aprovação de aproximadamente 88%.
O percentual, entretanto, considera somente quem respondeu ao formulário. Segundo o Sinte/SC, a escola possui 921 estudantes matriculados, e a própria Secretaria informou que a consulta foi destinada a pais, responsáveis e professores. Os alunos não aparecem entre os segmentos consultados.
O sindicato afirma ainda que não houve assembleia nem debate amplo antes da decisão e sustenta que o formulário teria circulado em um grupo de WhatsApp que sequer reunia todos os responsáveis pelos estudantes. A Secretaria contesta as críticas e afirma que houve participação da comunidade escolar.
Em junho, o Sinte levou o caso ao Ministério Público, que instaurou procedimento para investigar possíveis irregularidades e pediu esclarecimentos sobre a participação dos estudantes, a realização de reuniões e assembleias e a metodologia utilizada na consulta.
Alunos denunciam repressão
A tensão aumentou depois que militares começaram a atuar na escola, no início de agosto. Na última semana, estudantes do terceiro ano organizaram um abaixo-assinado contra o modelo.
Segundo relatos encaminhados pelo sindicato, durante a mobilização um professor teria tomado o documento das mãos de um aluno, enquanto o celular de uma estudante também teria sido retirado. Alunos afirmam ainda que ficaram temporariamente impedidos de deixar determinado setor da escola. Professores favoráveis ao modelo negam que tenha ocorrido confinamento e dizem que o fechamento de um portão fazia parte dos procedimentos de segurança.
Os acontecimentos motivaram o protesto desta segunda-feira, que reuniu estudantes, professores, sindicalistas e movimentos sociais. Defensores da militarização também compareceram.
O bolsonarista Alex Brasil afirmou posteriormente que a maioria da comunidade deseja “segurança e respeito” nas salas de aula e garantiu que não haverá recuo. Já o Sinte sustenta que o modelo privilegia disciplina e controle em detrimento de uma educação democrática e informa que acompanha tanto a investigação do Ministério Público quanto uma ação no STF contra o decreto catarinense que regulamenta as escolas cívico-militares.
* Redator: Solon Saldanha
Foto: Protesto de estudantes. Crédito: ICL Notícias

