Escapadas

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Ao cabo de tudo, porém, houve uma escapada feliz.” Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Um site de viagens propõe, quando você contrata uma viagem para um lugar, que você programe “escapadas”. Está no Rio de Janeiro? Bora dar um pulo em Búzios. Chegou a Porto Alegre? Estique até Gramado. Está em Salvador? Dê uma passada em Ilhéus. A promessa é tentadora, é tipo “leve dois e pague um”.

No contexto do site, “Escapadas” é o nome dado às viagens curtas, em geral de fim de semana ou poucos dias, pensadas para quem quer sair rapidamente da rotina sem fazer uma viagem longa. Confesso que não entendo a filosofia por detrás dessa proposta: se você foi ao Rio de Janeiro para “sair da rotina”, por que razão você teria de sair de novo? A cidade, com tanta coisa para ver e visitar, já deveria ser suficiente para romper o cotidiano de sua vida em sua cidade de origem. Mas é a teimosa aspiração neoliberal da “produtividade”: se já estou viajando, bora aproveitar… mais! E dá-lhe viagem atrás de viagem que reduzem seu tempo para a única experiência válida que esses lugares possibilitam, a de “curtir” o espaço e o lugar.

Escapadas como negócio

As escapadas são um grande negócio da indústria das viagens, e, portanto, reveladores de como o capitalismo as ressignifica e o próprio termo escapada. Aqui, as escapadas propõem um desejo de viagem como falta, algo que o consumidor não quer e não imaginou, para fazer ofertas de passagens, hospedagens e pacotes especificamente para viagens ditas breves, com datas que “encaixam” em estadias pré-concebidas. São destinos a curta ou média distância a partir da cidade de origem com pouco tempo de deslocamento. São apresentadas como oportunidades “prontas” de viagem, mas como vendem-se como “oportunidades”, o marketing confunde a ideia de “escapar” com relaxar, quando produz exatamente o seu contrário, o cansaço de que fala Byung-Chul Han.

Na etimologia latina de “escapar” encontramos excappāre , composta por ex- (“fora de”) e cappa (“capa” ou manto), com o sentido original de “sair deixando a capa para trás”- imagem de quem fugia de perseguidores abandonando uma peça de roupa nas mãos deles. Eu escapo por algumas horas para deixar Cidreira para trás, minha escapada é uma fuga rápida e leio que na internet que assim mantenho a ideia medieval de livramento astuto; que escapada entrou no português via o provençal escapar ou o italiano scappare, evoluindo para usos figurados como intervalo temporário ou escapatória emocional. Eu escapo de Cidreira, mas o que deixo para trás?

Escapadas como revolução

Em Machado de Assis escapada é essa liberação do destino, como se eu recusasse meu destino na praia de Cidreira. Deixar a capa pelo quê? Penso que o sentido do temo no site é uma forma de ideologizada do [e o] termo escapar. Para mim, o termo sempre esteve associado ao contexto da resistência ao capitalismo, “escapar” como romper com as lógicas econômicas, sociais e subjetivas impostas pelo capital, criando saídas práticas e existenciais que subvertam sua dominação totalizante.

Essa forma ideologizada do termo escapa de si próprio, de suas origens, ressignificada para uma evasão individual, espécie de deserção organizada por uma empresa que aprofunda as estruturas econômicas do capitalismo turístico. Mas ele já tem suas próprias contradições e já vemos cidades que recusam turistas, não é mesmo? Esse uso é como uma “anestesia da sensibilidade turística” promovida pelo capital, transforma a experiência de visitar um lugar como estopim para provocar o desejo de visitar outros em uma espécie de escalada aos extremos, de que nos falava Jean Baudrillard em seu A Sedução (Papirus, 2004). Nesse mundo, tudo é mercadoria. E o capital, atua por sedução, por desvio de seu destino. Ou, como no kinder ovo de Zizek – eu não quero o chocolate, mas o que está dentro dele. Eis que vejo Cidreira como canteiro de obras dessa noção quando digo que vou dar uma “escapada” para Tramandaí. Mesmo quando escolho conscientemente Cidreira para veranear, começo a passar meus dias na rotina de dar-ração-recolher-cocô-do-cão-no-pátio-tomar-café-limpar-piscina-veranear-almoçar- ficar-na-piscina- café-da-tarde-janta-ver-seriado coreano – para retomar tudo no dia seguinte, eu estou feliz mais na praia do que na cidade.  

Escapar ao cotidiano

Quando descrevo o que vivo como o meu cotidiano de aposentado na praia, penso como Agnes Heller o interpretaria. Em seu A Estrutura da Vida Cotidiana, capítulo de seulivro O Cotidiano e a História (Paz e Terra, 1972), ela vê a vida cotidiana como o núcleo central da existência humana, distinta de esferas não cotidianas como ciência, política ou arte. Ela enfatiza que a cotidianidade envolve o “homem por inteiro”, mobilizando todas as capacidades humanas em atividades heterogêneas e hierárquicas, como trabalho, lazer, vida privada e trocas sociais. Na sua definição, meu cotidiano é acordar, cuidar das coisas da casa, do cachorro e da família, comer e descansar, exatamente como vivo em Cidreira. Vivo a praia por inteiro entre a casa, faço coisas de diferentes modos no dia a dia, como são diversas as coisas a cuidar numa casa.   

Eu sou o seu indivíduo particular e genérico ao mesmo tempo, pois sou o morador de uma rua no bairro centro, de Cidreira, com necessidades particulares de cuidar da casa e ao mesmo tempo que sou o indivíduo genérico cidreirense, que necessita de serviços que só o município fornece. Agora mesmo, quando meus familiares vão a praia, estou arrumando a casa para depois preparar o almoço, o que faço não tem o mesmo valor ou importância do que diversos outros moradores que são servidores públicos fazem em suas atividades cruciais, como trocar a lâmpada de minha rua. Eu não posso faze-lo, eles podem. Cuidar da casa é algo secundário em relação a cuidar da cidade. A casa é o meu pequeno mundo de que fala Heller, mas é ligado ao grande mundo que é Cidreira. Minhas ações de alguma forma relacionam-se com este mundo. Como diz Heller, a elevação do cotidiano deve acontecer em algum momento, não podemos simplesmente viver o dia a dia isolados do mundo, devemos participar da cultura, da política e da arte, o que a autora chama de o não-cotidiano. No meu cotidiano praiano, como diz Heller, vivo de escrever, tomar um bom café, ajudar os vizinhos, viver em família. Essa vida cotidiana da praia se distingue da não cotidiana quando eu preciso ir a Prefeitura pegar o carnê do IPTU, o que me faz participar dos esforços de manutenção da estrutura de serviços e saneamento básico da cidade. Disso eu não posso escapar.   

Escapar para Tramandaí

Quando escapo de Cidreira para Tramandaí, escapo da minha vida cotidiana na praia. Antes, Tramandaí sempre foi meu destino natural quando estava em temporada em Cidreira. Havia contrastes que faziam Tramandaí se tornar desejável para uma escapada: maior comércio para minha família, mais lojas e lugares onde tomar um café, sorvete ou almoçar. Para mim sempre foi o fato de haver mais bancas de revistas do que Cidreira. Escapo de Cidreira para voltar a procurar o que eu tenho em… Cidreira, livros para ler e colocar em minha biblioteca. Tenho uma na cidade e na praia. O problema é que a fonte de Cidreira, a Casa do Leitor, fechou e hoje, além da Banca da Rosa, não há nenhum lugar para encontrar livros, o que é uma pena, mas Tramandaí tem até Feira do Livro. 

Escapo para encontrar mais livros, como se não tivesse centenas. Comprar livros, exceto os de Stephen King, não é o objetivo de minha esposa, que gosta dos shoppings que Tramandaí tem em grande número. Eu também gosto, é verdade, mas, entretanto, esses novos shoppings só surgiram à custa de algo que eu considerava a verdadeira tradição de Tramandaí: os seus bares-restaurantes ao longo da avenida principal, onde era possível à noite jantar e ver os moradores mais antigos dançar. Eu me lembro de um desses bares, na Avenida Emancipação, onde você ficava na mesa tomando cerveja com seus familiares, comendo um bom peixe à milanesa e podia ver os casais, muitas vezes mais velhos, dançando na pista central. Isso me fazia imaginar como era a Tramandaí tradicional, a da praia dos anos 50 e 70. Hoje você escapa para Tramandaí, mas a verdadeira Tramandaí não está mais lá: como diz Nelson Brissac Peixoto em Cenários em Ruinas (Brasiliense, 1987), ela só existe como imagerie. Escapa-se não para viver uma experiência e construir uma nova memória, mas para envolver-se em novas relações de consumo; é o  que defino como capitalismo praiano.

Penso que estou em Cidreira para suprimir o desejo de estar em uma praia, mas como diz Žižek, em nosso capitalismo praiano não suprimimos desejo algum, mas o estimulamos perpetuamente por meio da “falta constitutiva”, cujo motor é o consumo infinito. Em Cidreira temos pequenos magazines como o Mega, mas ainda queremos mais, queremos ir a Tramandaí porque agora tem uma loja…Renner! Essa falta primordial, esse resto a mais inalcançável que achamos que as lojas de Tramandaí representam, serve para preencher algum vazio que Cidreira ainda deixa em nós. Bobagem! É, como diz Zizek, mais do mesmo excesso de gozo prometido pelas mercadorias, nos cansamos de caminhar pelas lojas de “Tudo à dez reais” de Cidreira, para nos cansarmos caminhando nas lojas de “Tudo à doze reais” de Tramandaí. Foi exatamente isso que aconteceu quando eu, minha família e minha cunhada demos nossa última escapada: como somos idosos, ficamos circulando apenas em uma única quadra visitando seus shoppings e lojas e já cansamos ali de caminhar. O objeto perdido que nos impulsiona a “caminhar mais e mais para encontrar uma barbada” é o mesmo do imperativo “goze-mais” de que fala Zizek, mas ele não se realizou e por isso nos sentimos culpados por não visitar as demais lojas que ainda vendem produtos em Tramandaí. Terminamos naquele dia no que é sempre o templo de consumo: o supermercado. Agora Tramandaí tem…Bistek! Uau! É que o cansaço físico supera o ímpeto consumista quando se tem dores nos joelhos.   

Não escapar, mas a viajar

Não é a praia de Tramandaí que vale a escapada, é a viagem até ela. Toda vez que fazemos uma escapada atravessamos a paisagem da beira de estrada.  Eu sou como o viajante de Peixoto, um nômade das praias quando faço escapadas, insisto em ir de Cidreira para Pinhal, e destas, para Tramandaí, passando por Torres ou Arroio Teixeira. Enquanto Peixoto via cenários de cidades em ruínas transformados em imagens vazias sem profundidade histórica, eu vejo praias em ruínas transformadas por processos acelerados de urbanização. Tramandaí que conheci nos anos 80 já era uma cidade grande, ainda que não contasse com os grandes prédios de apartamentos que conta hoje, que a fazem se parecer com Camboriú; eu entendo que a cidade, nessa transformação, perdeu parte de sua história, e nesse sentido, a escapada à Tramandaí também é uma forma de errância para ver a catástrofe que atingiu a praia, que dissolveu sua história. Agora, vejo a luta dos moradores para que o esgoto das grandes praias como Xangrilá não desemboque lá. Por favor! Reconheçam ao menos que foram os próprios tramandaíenses que deixaram o lixo capitalista tomar conta da cidade, com suas grandes construções!    

É curioso usar uma figura como a do viajante de Peixoto, pois ela foi pensada para mapear a realidade imaginária a partir de arquétipos de filmes Noir. Esses filmes são caracterizados por uma estética escura, enquanto na praia apreciamos a claridade e a luz do sol; as cenas dos filmes Noir são noturnas quando as cenas que apreciamos são o sol do dia praiano, que é expansivo e nos faz amar o espaço aberto, ao contrário daquele cinema, que se baseia em uma atmosfera claustrofóbica. Peixoto define o viajante como personagem Noir na figura dos detetives particulares que vagueiam por estradas escuras fugindo de seu passado ou perseguindo mistérios; eu sou apenas o servidor público aposentado que primeiro fugiu da cidade para a praia e que agora fuje de minha praia por alguns instantes, achando que, em outra, encontrarei algo que não encontro em Cidreira. Se Jeff Bailey, no filme noir  Fuga do Passado, de 1947, é um ex-contrabandista que tenta recomeçar em uma cidade pequena, mas é arrastado de volta por traições, viajando entre localidades e memórias em flashbacks, eu sou o servidor público que tenta escapar de sua vida na metrópole indo para a praia, mas quando os parentes chegam, vê-se arrastado para conhecer outras praias e vive um clima de memórias familiares. A vida na praia imita o Noir ou é o contrário? 

O viajante no cinema Noir

A diferença entre o viajante de Peixoto e eu é que o primeiro é um homem sem raízes, solitário; eu, ao contrário, tenho minhas raízes que sequer são a da casa da praia ou da cidade, mas de minha própria família. O meu casamento precede minha existência na praia; é ela que me impede de ser um solitário; ambos, entretanto, buscamos na viagem –  seja pelas estradas dos filmes Noir, seja em direção à praia de Cidreira – fugir de um ambiente urbano considerado claustrofóbico. Não é preciso ser um detetive – outro personagem de Peixoto – que viaja para o interior para fugir de um ambiente claustrofóbico; basta ser um aposentado que também veja a vida na cidade assim. Mas não é da mesma forma, não é mesmo? A claustrofobia do primeiro tem mais a ver com o cenário de crimes ou roubos; a minha, com a opressão neoliberal que destrói a cidade em que vivi, Porto Alegre. Filmes Noir têm roteiros intrincados, narração em off e flashbacks; já a vida de um aposentado na praia consiste em acordar, explorar o dia com sua família e com seu cão ao redor de uma piscina. A única obsessão romântica que possuo é talvez acreditar que consigo na praia ler e escrever um pouco mais, ou sair para romper o cotidiano de lá, viajando para outra praia.

Não sou um anti-herói típico desses filmes de Peixoto, só posso ser no máximo um anti-aposentado praiano porque quero escrever quando todos querem ir a uma outra praia para se distrair. Enquanto os familiares visitam as novas lojas de Tramandaí, eu, no celular, teclo meu texto para aproveitar os instantes de descanso. Nessas lojas de tudo a doze reais, onde se vendem produtos chineses a exaustão destinada a mulheres, os homens possuem um pequeno cercadinho que funciona como garantia de que não fugirão do olhar de suas esposas. Nessa espécie de mini creche, os maridos observam suas esposas consumindo produtos da China, Índia ou Japão. Até aqui estou no meio da globalização onde o único vilão é o capital e as vítimas, nós, viajantes de uma praia a outra. Essa realidade imaginária das praias mostra que, mesmo ali, ainda somos os mesmos sujeitos de Peixoto, que se perdem e naufragam em suas próprias praias.

Se o viajante de Peixoto, como o dos filmes Noir, partiu por falta de opção, eu saí de Cidreira para Tramandaí por escolha. Havia até outras praias, talvez um pouco mais distantes, é verdade. Peixoto chama essa condição de viajante de “naufrágio do lar, daquele que busca uma identidade em paisagens devastadas; eu não busco nada quando viajo, exceto livrarias; a minha família busca em outras praias aquilo que não encontra em Cidreira. O problema é que um drama de identidade acaba se transformando em um drama de consumo. É aqui que entra a filosofia.

Filosofia das viagens

O que nos ensinam as viagens? Penso em termos de uma filosofia das viagens, a fazemos como uma metáfora da existência. Queremos que a praia nos transforme de alguma forma, ou ao menos, tenha sucesso em conectar nosso corpo, espaço e tempo. Vivemos nossa vida sedentária por causa do trabalho; o sonho do aposentado é justamente o contrário, esse nomadismo interior/exterior. Estamos com o tempo passando, indo para o último quartel da vida, como se diz. Se viajar é viver em movimento, ir a Cidreira deveria ser uma viagem para sair do óbvio urbano, mas eis que somos atropelados pelo óbvio praiense, que nos motiva às escapadas, experimentar uma nova praia como se isso, de certa forma, renovasse nosso eu. Faço uma escapada para Tramandaí: essa é uma breve viagem, que, como qualquer outra, nos termos de Michel Onfray de seu Teoria da viagem (LPM, 2009) é organizada em fases. Eu preciso querer ir a Tramandaí, pois de alguma forma, Cidreira já não atende meu desejo; mas eu preciso habitá-la por algum tempo, estar suspenso do tempo de Cidreira para o tempo de Tramandaí; mas é impossível finalizar essa proposta de Onfray, simplesmente porque é impossível completar o ciclo da viagem, pois ele também exige a construção de amizades efêmeras para cristalizar memórias. Num bate-volta, você não conhece ninguém em Tramandaí; é o contrário de viajar e ficar em Cidreira, onde você conhece.   

Faço uma escapada para Tramandaí. Não, não é uma viagem, é mais um deslocar-se. Vivo a viagem no trajeto entre as praias, vendo paisagens das praias ao longo do caminho, outras pequenas cidades. Mas quando chego em Tramandaí, eu já passei pelo trajeto: diz Guimarães Rosa: “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe no meio da travessia”. Assim, atravesso a RS 786, entre Cidreira e Tramandaí, também conhecida como Rodovia Interpraias, como os personagens dos filmes Noir atravessam a Rota 66, conhecida como “Mother Road”. Ambas são travessias icônicas, seja para ligar os moradores de Cidreira a Tramandaí, como os de Chicago a Santa Mônica. Nessas estradas, não é a extensão que conta, já que a primeira não passa de 24 km, no trecho Cidreira-Tramandaí, e a segunda chega a 3.900 km, e nem o fato de que, se a primeira sequer sai do Rio Grande do Sul no seu trajeto total de 57 km entre Osório e Palmares do Sul, a segunda atravessa 8 estados americanos. Aqui, o que vale é a experiência que a viagem possibilita.

Entretanto, enquanto a Rota 66 foi desativada em 1985 substituída pelas estaduais e foi preservada apenas como rota histórica com seus museus e sinalizações, a RS 786 já é em si um museu a céu aberto, o museu da história do veraneio gaúcho, já que muitas das praias que atravesso parecem paradas no tempo. Quando estou a caminho de Tramandaí pela RS-786, estou vendo a paisagem costeira típica gaúcha, com sua praia reta, com suas extensas dunas de areia próximas ao mar. Vejo as lagoas que surgem nas dunas e que se modificam a cada chuva. O campo aberto só é interrompido pelo parque eólico. O trajeto é marcado pelas praias que vejo como se fossem os anéis de crescimento que nos dizem a idade de uma árvore.

Praias ao longo de uma estrada

Faço a dendrocronologia praiana como se estivesse fazendo a análise de anéis de uma árvore. A primeira praia que vejo é de Nazaré, um bairro de Cidreira que é praia, marcado por tranquilidade e proximidade com o Farol de Cidreira. Quando eu e minha esposa queremos sair do “agito” de Cidreira, durante a temporada, vamos ali. É como se fosse um recanto de praia mais tranquila, e diz que ali está a elite de Cidreira. Possui poucas barracas de comércio na praia e tem areia larga. Como em toda Cidreira, o vento nordeste e a areia larga dominam. Seu farol é um cartão postal, foi construído em 1892.   Olho os nomes das ruas da praia: a Avenida T corta a Assis Brasil, a 5A corta a Lupicínio Rodrigues: até a nomeação de ruas e avenidas parou no tempo. A planta dos nomes de números cede lentamente aos nomes de personalidades, bem diferente de Porto Alegre, onde nossos vereadores caçam novas ruas sem nome para nomear, já que homenagear algum falecido sempre colhe votos entre os familiares. Observo nesta praia que há uma homenagem sequencial a músicos: há ruas também para Lamartine Babo, Noel Rosa, Zequinha de Abreu, Clara Nunes e Benedito Lacerda. Não é notável que, numa praia tranquila e deserta, seus moradores tenham a ideia de homenagear tantos clássicos da música popular brasileira? Será que queriam que alguém registrasse …” o som do mar”? Benedito Lacerda, um notável compositor, flautista e maestro brasileiro, que começou a tocar flauta de ouvido aos 8 anos e que com seu “Falta um Zero no Meu Ordenado”, é lembrado como marco da MPB. Hoje, se deixarmos a juventude dar nomes às ruas que faltam, quem serão os homenageados? Não conheço seus ídolos, mas vejo em um site os melhores e piores funks de 2012 alguns nomes: MC Neguinho do Caxeta, do clássico “As novinhas tão a mil”, que segundo o autor da lista, a lidera porque causa “repulsa”. Espero que ninguém tenha a ideia de dar esse nome ao cruzamento da 5A, que faria Lupicínio Rodrigues se revirar no túmulo.     

Na sequência, há praias que desconheço, como a Praia Kazu. Neste primeiro trecho de praias tudo termina em Salinas e Salinas Norte, na altura do km 34 da RS 786, com suas dunas altas de até 20 metros e o Parque das Dunas, finalizando a praia abruptamente na Rua Parque 4, onde segue-se uma faixa de estrada até a trilha que leva à Praia das Cabras, famosa por dunas móveis preservadas e ditas como as últimas no litoral gaúcho. Eu nunca fui lá, mas meu vizinho trabalhador já foi e me indicou, falando de sua natureza intocada. Tanto a Praia das Cabras quanto o Parque Eólico têm trilhas para acesso. Eu temo ir a lugares que não conheço, e seguir trilhas por onde nunca andei, sou o típico homem certinho que jamais iria seguir uma indicação, seja de mapa ou Google Maps, sem um guia humano. Talvez peça um dia para meu vizinho me levar à Praia das Cabras, mas não sei se o fará, já que ele está envolvido também em sua piscina.

Na sequência, vejo a praia de Jardim do Éden. Ela se prolonga até a guarita 172, quando então começa a Praia de Jardim Atlântico.   Se há uma praia que teria me orgulhado de construir, seria esta, pois ela foi fundada na década de 1980 como refúgio sem comércio ou agito algum para moradores que queriam fugir do veraneio massivo num condomínio fechado que acabou se abrindo. Mas sempre sem comércio algum. Uau!  Uma praia anticapitalista! Já Jardim Atlântico surgiu no mesmo período como loteamento horizontal em área com histórico de avanço imobiliário sobre áreas de preservação desde os anos 1970. São ambos vilarejos sem planejamento, paraísos intocados comparados com o urbanismo de praias como Cidreira.

A Praia de Oásis é o trecho inicial a partir do qual estamos quase em Tramandaí. Com acesso direto da estrada, é conhecida por buracos na pista e atmosfera de verão agitada, sem grandes atrações históricas específicas. Loteado nas décadas de 1950-60 pela Imobiliária Oásis Sul, sob comando de Ivo Schneider, que dá nome a avenida principal, o lugar transformou terrenos de restinga no residencial de verão, a 11 km do centro de Tramandaí. Suas casas são baixas e seu foco são aluguéis sazonais; cresceu com a pavimentação da Interpraias nos anos 1970, atraindo porto-alegrenses em busca de paz. Segue-se a praia de Tramandaí Sul, que surgiu também nas décadas de 1970-80 como loteamento planejado em área de restinga, impulsionado pela pavimentação da Interpraias. Encontro a informação de que a região fazia parte de terras de pescadores e tropeiros desde o século XVIII, que se transformaram em bairros com ruas arborizadas somente no final do século XX, sem comércio intenso como o de Tramandaí.

As diferenças entre Tramandaí Sul e Tramandaí são importantes. A primeira é uma zona residencial há cerca de 3,5 km de Tramandaí. Seu pouco comercio contrasta com o de Tramandaí, com seu comércio intenso, hotéis e veraneio maciço. A primeira é tranquila, a segunda é agitada.  O que as diferencia é a história, já que Tramandaí é citada como núcleo de sesmaria desde 1732 e acesso por diligências desde 1898, enquanto Tramandaí Sul é recente, como loteamento dos anos 70 e 80. Dou uma escapada para Tramandaí, mas o que me impressiona não é o balneário de destino, mas descobrir no caminho a própria história do veraneio gaúcho.

A experiência da viagem

Não são apenas praias que estão alinhadas em nosso litoral: são histórias que eu mesmo desconheço e que aprendo cada vez que escrevo mais um ensaio para RED. São praias que se dividem entre históricas e praias recentes, que possuem em seu interior associações de moradores, comércio local e centros comunitários importantes e que foram essenciais para a consolidação de nossa Rota 786, para dizer algo nosso. Passo há anos em direção a Tramandaí e olho as construções ao redor da avenida que liga a Cidreira e vejo poucas transformações. Chego a Tramandaí e vejo uma cidade transformada cada vez que chego nela. A orla gaúcha, nosso lugar de veraneio, tem moradias e hotéis e foi objeto de esforços de urbanização e desenvolvimento. Há balneários com pouca ou grande estrutura, mas em todos constitui-se uma cultura de veraneio. Olho Cidreira e lamento que o CPC esteja abandonado, ao contrário do equivalente de Tramandaí, a SAT, é o peso dos dias. Eu sei que estão desaparecendo remanescentes desta história em função do processo de expansão urbana mais em umas praias do que outras.  Marione Denise Otto em sua dissertação de mestrado As sociedades praianas na arquitetura do litoral norte do Rio Grande do Sul  (disponível em https://lume.ufrgs.br/handle/10183/151339 )menciona os “projetos urbanos de Ubatuba de Faria e outros que mostram que havia a ideia de criar um ambiente carregado de idealismo, onde o veranista disporia de tranquilidade e suporte para seu lazer. Avenidas arborizadas demarcadas por prédios importantes e cruzadas por alamedas residenciais ajardinadas definiam um ambiente perfeito para quem ali pudesse estar. Dessas propostas, muitas sequer saíram do papel, enquanto outras foram parcialmente concretizadas.”

Minha conclusão é pessimista. Essa é a lei do capital: nem sempre o bem comum consegue afirmar-se, inclusive entre aqueles responsáveis pela expansão de nossas praias. A sociabilidade praiana sobrevive em todas, ainda que o processo de expansão capitalista também transforme as praias em mercadorias. Eu faço uma escapada de Cidreira em direção a Tramandaí: nunca foi o destino o objetivo, mas a travessia e a constatação de que os mundos das praias estão aí, virgens, à espera de quem as proteja da expansão imobiliária fatal. Qual será o futuro dos vazios praísticos que ainda temos no litoral, essas terras sem construção alguma e que, no futuro, talvez novos grandes empreendimentos queiram se instalar prometendo mais maravilhas do mar? Não posso, no entanto, concordar com um sistema que teima em transformar paraísos em infernos, terra natural em investimento imobiliário.   

A escapada é exatamente a estratégia de sobrevivência para estas praias. Ela diz que é preciso mais uma vez, voltar a origem do termo, escapar ao destino das praias é escapar a logica de predação do capital. Sigo os quatro aspectos da viagem segundo Jacques Lacarrière em sua obra Grécia, um olhar amoroso (Ediouro, 2003): descubro um trajeto, conheço sua história, compreendo seu contexto de transformação e o relato, como faço em meus ensaios. Isso faz a escapada ultrapassar o turismo superficial e ir em direção a experiencia transformadora. Na escapada não somos capazes de reconstruir a si mesmo e o mundo, na viagem, sim; na escapada, não temos insights sobre nós mesmos e o outro, na viagem sim.  Como diz também Alain de Botton, a experiência é mais importante do que chegar ao destino, que estimulam reflexões pelo próprio fluxo da paisagem. Aqui, a reflexão é se nossas praias conseguirão escapar a sua predação ou não, o que só o futuro dirá.


Foto de capa: Autor desconhecido. Ônibus que serviam a linha Porto Alegre-Praias.  Reproduzido de Cidreira Antiga Memorial. Disponível em  https://www.facebook.com/photo.php?fbid=953712276757652&set=pb.100063566650819.-2207520000&type=3

Sobre o autor

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Jorge Barcellos
Graduado em História (IFCH/UFRGS) com Mestrado e Doutorado em Educação (PPGEDU/UFRGS). Entre 1997 e 2022 desenvolveu o projeto Educação para Cidadania da Câmara Municipal. É autor de 21 livros disponibilizados gratuitamente em seu site jorgebarcellos.pro.br. Servidor público aposentado, presta serviços de consultoria editorial e ação educativa para escolas e instituições. É casado com a socióloga Denise Barcellos e tem um filho, o advogado Eduardo Machado. http://lattes.cnpq.br/5729306431041524

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