Guerras começam com mísseis. Mas também começam com palavras.
Em 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram uma ofensiva militar contra o Irã. A decisão partiu do presidente dos EUA, Donald Trump, sob o argumento de neutralizar ameaças iminentes e impedir que Teerã obtenha uma bomba nuclear. Israel, liderado por Benjamin Netanyahu, invocou o direito de defesa diante de uma ameaça existencial.
No mesmo dia, o O Estado de S. Paulo publicou editorial com um título que dispensa sutileza: “Ninguém vai chorar pelo Irã”.
É aqui que a discussão deixa de ser apenas geopolítica e passa a ser ética.
A clareza moral e o atalho perigoso
O editorial sustenta que o Irã é um ator problemático na ordem internacional e que sua eventual transformação política poderia ser positiva para a região. Pode-se debater essa avaliação. O que não se pode fazer é transformar essa leitura em licença automática para normalizar a guerra.
A questão central não é se o governo iraniano é simpático ou antipático ao Ocidente. A questão é outra: quem decide quando a força substitui a diplomacia? E com base em quais regras?
A Carta das Nações Unidas estabelece parâmetros claros para o uso da força: legítima defesa diante de ataque armado ou autorização do Conselho de Segurança da ONU. Não houve autorização formal do Conselho. Invocou-se a ideia de ameaça preventiva — um conceito juridicamente controverso.
Se essa interpretação se torna regra, qualquer potência poderá agir unilateralmente com base em sua própria avaliação de risco.
A história que insiste em lembrar
Intervenções militarmente “compreensíveis” já produziram consequências estratégicas devastadoras. A invasão do Iraque prometia neutralizar uma ameaça e entregar democracia. Entregou fragmentação e guerra civil. A Líbia pós-2011 virou laboratório de milícias. O Afeganistão encerrou vinte anos de ocupação com o retorno do regime anterior.
O editorial do Estadão, com mérito, reconhece que não há garantia de sucesso e que guerras raramente seguem o roteiro inicial. Mas parte de uma premissa que merece escrutínio: se o regime cair, o mundo agradecerá.
Talvez. Talvez não.
Porque entre derrubar e reconstruir há um deserto político — e ele costuma ser povoado por radicalização, ressentimento e instabilidade regional.
O povo não é o governo
A resposta de Inês Oludé ao editorial do Estadão, intitulada “Os necrojornalistas e o choro pelo Irã”, desloca o foco para algo essencial: regimes não são povos.
Independentemente de juízos sobre o governo iraniano, há 85 milhões de iranianos que não se confundem com a estrutura teocrática que os governa, que não participaram de decisões estratégicas, que não redigiram doutrinas militares nem escolheram confrontos regionais. São civis, famílias, trabalhadores, crianças.
Declarar que “ninguém vai chorar” por um país sob bombardeio é uma frase de efeito que pode soar como uma condenação a um regime. Mas ecoa como desumanização de um povo.
E a desumanização é sempre o primeiro passo para a banalização da violência.
O luto não é um endosso político. É um reconhecimento da condição humana.
A experiência que recomenda cautela
Intervenções militares no Oriente Médio nas últimas décadas ensinaram uma lição persistente: remover ou enfraquecer governos não equivale automaticamente a produzir estabilidade.
A invasão do Iraque, a fragmentação da Líbia e a longa guerra no Afeganistão mostram que o “dia seguinte” costuma ser mais complexo do que o primeiro comunicado oficial.
O próprio editorial reconhece incertezas estratégicas e riscos de escalada regional. Essa prudência é necessária. Mas precisa ser acompanhada de reflexão mais profunda sobre legitimidade e limites.
O risco da escalada
A resposta iraniana com mísseis e o risco de ampliação do conflito colocam em alerta toda a região. O Estreito de Hormuz, por onde transita parcela relevante do petróleo mundial, tornou-se variável central. Mercados reagem rapidamente. A inflação global acompanha.
Quando a imprensa prioriza apenas o impacto econômico, há um deslocamento silencioso: discute-se o preço do barril, mas menos o preço político de decisões tomadas sem consenso internacional claro.
Força não substitui regras
Ao apostar na política do choque, o presidente dos EUA reafirma poder militar. Mas tensiona a arquitetura jurídica que sustenta a ordem internacional que Washington diz defender.
Sem autorização multilateral clara e sem definição precisa de objetivos e limites, a ofensiva corre o risco de repetir um padrão conhecido: vitória militar rápida, seguida de instabilidade prolongada e enfraquecimento das normas que sustentam a estabilidade internacional.
A extrema-direita global costuma celebrar essa lógica como prova de liderança firme. Força resolve. Bombas educam. A experiência recente sugere que a força abre portas — e às vezes abismos.
O papel da imprensa
A imprensa não deve ser neutra diante de violações de direitos. Mas também não pode naturalizar a guerra como solução quase intuitiva para conflitos complexos.
O papel do jornalismo não é chorar indiscriminadamente. Mas tampouco é decidir quem merece lágrimas.
Entre o realismo estratégico do editorial do Estadão e a indignação moral da resposta de Inês Oludé, há um ponto comum possível: a necessidade de preservar a humanidade no debate público. Regimes autoritários são condenáveis, mas guerras não são instrumentos simples de redenção histórica.
Pode-se discordar do governo iraniano. Pode-se criticar sua política externa. Mas não se deve reduzir um país inteiro a um veredito sumário.
Ninguém é obrigado a chorar por governos. Mas qualquer sociedade democrática deveria ser capaz de chorar por pessoas.
Porque, no fim, o que distingue civilização de barbárie não é quem tem mais mísseis. É quem mantém intacta a capacidade de reconhecer a dor alheia — mesmo quando a geopolítica tenta nos convencer de que ela é apenas um detalhe.
Ilustração da capa: Ataque dos EUA e Israel ao Irã – Imagem gerada por IA ChatGPT





