Era fim de tarde quando as primeiras mensagens chegaram pelo WhatsApp: parentes em Abu Dhabi falando de ataques, fotos do céu tomado por fumaça e alertas de drones e mísseis. “Não, não é possível…”, pensou Elizabeth Portanova Mendes Ribeiro, filha do jornalista Mendes Ribeiro e psicóloga há mais de 25 anos, descrevendo a surpresa inicial em Dubai.
O que era até então uma notícia distante sobre um conflito entre Irã, Estados Unidos e seus aliados rapidamente se materializou no cotidiano de quem vive no centro do Golfo Pérsico. No último fim de semana, o Irã lançou uma série de ataques com drones e mísseis contra os Emirados Árabes Unidos e outros estados do Golfo. As autoridades de defesa dos Emirados disseram que interceptaram a maioria dos artefatos, mas destroços caíram em áreas civis e causaram vítimas e feridos, incluindo em aeroportos e zonas urbanas.
Segundo o Ministério da Defesa dos Emirados Árabes Unidos, desde o início da escalada militar foram detectados 165 mísseis balísticos e mais de 500 drones lançados em direção ao país. A maior parte foi interceptada pelos sistemas de defesa aérea, mas o volume do ataque revela a dimensão da ofensiva e o nível de tensão vivido na região.
No conjunto de ataques em solo dos Emirados, pelo menos três pessoas foram mortas e dezenas ficaram feridas, conforme dados oficiais compilados pelas autoridades locais e reportados por agências internacionais.
Uma das manifestações mais claras do alcance da ofensiva foi o ataque a um dos principais hubs de transporte global: o Dubai International Airport (DXB). Um drone iraniano atingiu a área próxima ao Terminal 3, provocando fumaça intensa e a evacuação imediata de passageiros e funcionários. O incidente deixou pelo menos uma pessoa morta e sete feridas, e o terminal precisou suspender operações por segurança até estabilizar a situação.
O espaço aéreo sobre Dubai segue fechado, e isso tem efeitos diretos na rotina de moradores e turistas. Milhares de voos foram cancelados ou redirecionados, deixando pessoas retidas em hotéis e aeroportos, enquanto companhias aéreas ainda reorganizam suas operações. “Esse fechamento prolongado transforma uma ameaça distante em uma experiência concreta de isolamento e reorganização da vida urbana”, relatou Elizabeth.
“Quando os telefones tocaram com os alarmes, foi um choque. Mas tudo foi feito com ordem: orientações claras para ficar longe das janelas, procurar abrigo. O governo mostrou presença e foco em proteger a população e os visitantes”, lembrou Mendes Ribeiro, destacando que o episódio ocorreu durante o Ramadã, período do ano em que a cidade costuma funcionar em ritmo mais contemplativo e com atividades socialmente mais reservadas, o que misturou espiritualidade, rotina familiar e tensão internacional em uma sensação única.
As ruas vazias, hotéis transformados em abrigos temporários e aeroportos paralisados contrastaram com a habitual efervescência de Dubai, polo global de turismo e negócios. A experiência revela a força de pequenas redes de apoio entre residentes e estrangeiros, conectando famílias e amigos mesmo em situações de separação ou restrições de deslocamento.
Apesar da gravidade, a percepção de segurança entre os moradores ainda é alta. “Aqui, mesmo diante de uma ameaça real, senti que as autoridades sabiam o que estavam fazendo, que havia estrutura e cuidado”, afirmou Elizabeth Mendes Ribeiro. Essa confiança contrasta com relatos de caos em outras partes do mundo, mostrando como uma cidade global organizada pode absorver choques sem perder coesão social.
O impacto humano vai além do estrago físico: turistas e residentes estrangeiros enfrentam atrasos, cancelamentos e reorganização de viagens, enquanto as empresas ajustam operações logísticas e hoteleiras.
O episódio também pode alterar a percepção de Dubai como destino de trabalho ou turismo. Muitos estrangeiros reconsiderarão a mudança para os Emirados diante de um cenário geopolítico volátil. Já os que já residem na cidade, como Elizabeth, tendem a permanecer, aprendendo a conviver com a incerteza sem perder a rotina e a qualidade de vida que a cidade oferece.
Dubai, afinal, passou por um momento em que a guerra deixou de ser um evento distante e virou som de alerta, suspensão de voos e escolha de vida e mesmo assim continuou a mostrar que, em sua rotina e em sua defesa, uma cidade global pode absorver choques e seguir adiante.
Foto de capa: Reprodução/Redes sociais (@LunaETHWhale) e Arquivo pessoal





