Empresa de Flávio Bolsonaro contratou contador que foi sócio do Careca do INSS | Por Benedito Tadeu César

A empresa de Flávio e Carlos Bolsonaro divide endereço com empresas ligadas ao Careca do INSS, contratou a contabilidade de um ex-sócio de Antunes e revela uma rede que chega ao escritório do senador — com um precedente curioso na relação de Flávio com a família de Adriano da Nóbrega.
Publicado em 13 de setembro de 2026 às 11:00
Editado em 12 de setembro de 2026 às 20:22

Não é apenas uma coincidência de endereço.

A empresa de Flávio Bolsonaro que apareceu registrada na mesma sala usada por pelo menos 16 empresas ligadas ao Careca do INSS contratou como responsável por sua contabilidade a empresa de um homem que foi sócio do próprio Careca.

Esse é o dado central de uma rede de relações que documentos oficiais, registros empresariais e a investigação do ICL Notícias começam a revelar.

A Bravo Grafeno, fabricante de capacetes que tem Flávio e Carlos Bolsonaro entre seus sócios, está registrada na sala 2601 do Edifício Connect Towers, em Brasília. É o mesmo endereço utilizado por empresas relacionadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, personagem central do escândalo dos descontos ilegais em benefícios de aposentados e pensionistas.

Mas o endereço é apenas a porta de entrada da história.

A contabilidade da Bravo é feita pela Voga Serviços Contábeis, comandada por Alexandre Caetano dos Reis.

E Alexandre não é apenas um contador que também prestou serviços ao Careca do INSS.

Documentos oficiais da CPMI registram que a Polícia Federal o identificou como sócio de Antonio Antunes em uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas.

A relação chega ainda mais perto de Flávio Bolsonaro: Letícia Caetano dos Reis, irmã de Alexandre, administra o escritório de advocacia do senador.

Já não se trata, portanto, de uma simples coincidência de endereço.

A questão agora é outra: por que tantos caminhos entre o núcleo empresarial do Careca do INSS e o entorno empresarial e profissional de Flávio Bolsonaro continuam levando às mesmas pessoas e aos mesmos lugares?

A sala 2601

A Bravo Grafeno foi aberta em 11 de junho de 2024, com capital de R$ 100 mil. Flávio Bolsonaro é sócio desde a constituição. Carlos Bolsonaro entrou posteriormente. Pedro Luiz Dias Leite aparece como sócio-administrador.

O endereço cadastrado é preciso: sala 2601, parte A17, do Connect Towers.

O ICL encontrou no mesmo endereço pelo menos 16 empresas relacionadas ao Careca do INSS. Entre elas está a Prospect Consultoria Empresarial, que recebeu mais de R$ 204 milhões de nove entidades investigadas no esquema dos descontos associativos.

A sala 2601 já constava dos documentos oficiais das investigações.

Quando Antonio Antunes prestou depoimento à CPMI do INSS, um parlamentar enumerou diversas empresas ligadas a ele abertas no mesmo dia e registradas naquele endereço.

O Careca não contestou. Explicou que se tratava de um endereço de correspondência escolhido pela contabilidade.

E a contabilidade nos leva novamente a Alexandre Caetano dos Reis.

O contador era sócio do Careca

Alexandre é dono da Voga Serviços Contábeis, responsável pela contabilidade da Bravo. A Voga funciona no mesmo 26º andar do Connect Towers e informa atualmente ocupar as salas 2603 a 2610.

Documentos da CPMI registram que a Polícia Federal identificou Alexandre como sócio do Careca na Camilo & Antunes Limited, constituída nas Ilhas Virgens Britânicas. A própria CPMI aprovou sua convocação qualificando-o como sócio de Antunes nessa offshore.

Segundo documentação incorporada às investigações, a Camilo & Antunes Limited adquiriu quatro imóveis em 2024 por R$ 11,05 milhões.

Há ainda um dado importante na cronologia.

A Bravo foi constituída em 11 de junho de 2024. Apenas 49 dias depois, em 30 de julho, foi aberta a RPLD Construtora e Incorporadora, dirigida por Antonio Antunes e registrada na mesma sala 2601, parte B16. A Bravo aparece como parte A17.

Portanto, empresas do núcleo de Antunes continuaram chegando ao endereço depois da abertura da empresa de Flávio.

Do contador ao escritório de Flávio

Alexandre Caetano é irmão de Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia.

Essa relação é antiga. Em entrevista à Agência Pública em 2022, Letícia contou que chegou ao escritório por indicação de Willer Tomaz, advogado e amigo de Flávio Bolsonaro.

Willer também aparece nas investigações do INSS. Documentos da CPMI registram que atuou juridicamente para Alexandre Caetano e empresas relacionadas à Voga e apontam uma transferência de R$ 120 mil de Willer para Milton Salvador de Almeida Júnior, identificado nas apurações como operador financeiro de Antonio Antunes.

A rede que começou numa sala comercial alcança, assim, a estrutura profissional de Flávio Bolsonaro.

E há um precedente na trajetória do senador que torna essa configuração ainda mais curiosa.

Um padrão que já apareceu antes

Não é a primeira vez que familiares de uma pessoa colocada no centro de graves investigações mantêm vínculos formais com Flávio Bolsonaro, enquanto essa pessoa permanece fora da relação contratual direta.

Quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, Flávio empregou em seu gabinete Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, respectivamente mãe e então mulher de Adriano da Nóbrega.

Adriano, ex-capitão da Polícia Militar posteriormente apontado pelo Ministério Público como chefe do Escritório do Crime, não era um desconhecido de Flávio. O então deputado apresentou uma moção de louvor ao policial e, quando Adriano estava preso, concedeu-lhe a Medalha Tiradentes.

Danielle trabalhou no gabinete de 2007 a 2018 e Raimunda, de 2016 a 2018. Mais tarde, ambas apareceram nas investigações das rachadinhas. Raimunda figurou no relatório do Coaf sobre as movimentações de Fabrício Queiroz e Danielle foi apontada pelo Ministério Público do Rio como integrante do esquema investigado.

Agora, Alexandre Caetano, sócio do Careca do INSS na offshore identificada pela PF, tem sua empresa prestando serviços à empresa de Flávio e sua irmã administrando o escritório do senador.

Em dois momentos muito diferentes reaparece uma característica semelhante: o vínculo formal passa por familiares ou empresas de pessoas que acabam no centro de investigações.

Coincidência ou uma forma recorrente de organizar essas relações?

A repetição torna a pergunta inevitável.

A outra ponta chega a Dark Horse

A Bravo Grafeno abre ainda outra ramificação.

Seu sócio-administrador, Pedro Luiz Dias Leite, também foi sócio de Marcello de Oliveira Lopes na Bitts Tecnologia, Consultoria Empresarial e Comunicação.

Marcello foi marqueteiro de Flávio Bolsonaro. A Polícia Federal identificou uma transferência de R$ 1 milhão feita por ele para a Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro que entrou na investigação sobre a origem de seu financiamento.

Marcello afirma que se tratou de investimento privado legítimo, realizado com recursos próprios. O contrato apresentado para documentar a operação, porém, foi assinado em junho de 2026, cerca de seis meses depois da transferência.

Não há, até agora, evidência pública de que recursos provenientes do esquema investigado no INSS tenham chegado a Dark Horse. Mas há uma nova conexão documentada entre o círculo empresarial de Flávio e outro caso sob investigação.

E se fosse o filho de Lula?

Há ainda uma pergunta que a grande mídia corporativa precisa responder.

Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula, foi investigado e amplamente exposto por sua amizade com a lobista Roberta Luchsinger e porque mensagens apreendidas pela Polícia Federal indicaram que ela buscava sua participação em negócios de interesse do Careca do INSS com o governo.

Isso foi considerado suficiente para manchetes, reportagens sucessivas e extensa exposição de seu nome.

E não há nada de errado em investigar essas relações. É exatamente isso que o jornalismo deve fazer.

A questão é: qual é o critério quando o personagem se chama Flávio Bolsonaro?

Os fatos apresentados nesta reportagem vão muito além de uma amizade: envolvem endereço empresarial, prestação de serviços contábeis, sociedade numa offshore, relações familiares e profissionais e outras conexões empresariais.

Se as relações de Fábio Luís justificaram investigação jornalística, manchetes e exposição pública, que tratamento essas relações envolvendo Flávio Bolsonaro merecem receber da mesma imprensa?

Não se trata de pedir que a imprensa poupe Fábio Luís. Muito pelo contrário.

Investigue Fábio Luís. Investigue Flávio Bolsonaro. Investigue quem quer que seja. Mas investigue com o mesmo rigor, dê a fatos equivalentes peso equivalente e não faça o sobrenome determinar o tamanho da manchete.

A sala era apenas a porta

A primeira revelação era suficientemente forte: a empresa de Flávio e Carlos Bolsonaro estava registrada no mesmo endereço utilizado por pelo menos 16 empresas relacionadas ao Careca do INSS.

Mas a sala 2601 era apenas a porta.

O que surgiu depois mostra que as relações não terminam no endereço: chegam à contabilidade da Bravo, ao antigo sócio do Careca, ao escritório de advocacia de Flávio e a outras pessoas de seu círculo empresarial e profissional.

O precedente de Adriano da Nóbrega acrescenta uma questão ainda mais incômoda: não é a primeira vez que familiares de um personagem envolvido em graves investigações aparecem formalmente vinculados à estrutura política, empresarial ou profissional de Flávio Bolsonaro.

Agora, em plena campanha presidencial, são fatos que precisam ser investigados — e tratados pela imprensa segundo o mesmo padrão aplicado aos adversários de Flávio.

A investigação que começou com um endereço termina, por enquanto, com duas perguntas: até onde vai a rede de relações entre o entorno de Flávio Bolsonaro e o núcleo empresarial do Careca do INSS?

E por que descobrir essa resposta ainda não mobilizou a grande mídia corporativa com o mesmo empenho dedicado ao filho de Lula?


Ilustração da capa: A sala 2601 foi apenas o ponto de partida: documentos revelam conexões de endereço, contabilidade, sociedade e relações familiares entre o entorno empresarial de Flávio Bolsonaro e o núcleo do Careca do INSS. Crédito: Ilustração produzida por inteligência artificial para a Rede Estação Democracia.

Sobre o autor

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Benedito Tadeu César
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED - Rede Estação Democracia.

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