Falar sobre a emergência climática tornou-se um exercício recorrente de contagem de danos materiais, contando pontes caídas, telhados arrancados, lavouras dizimadas e prejuízos bilionários que estampam os telejornais. No entanto, há uma dimensão profunda e silenciosa desse processo que frequentemente ignoramos porque ela não deixa escombros visíveis nas ruas: o impacto invisível que habita o interior de cada um de nós.
Crescer em uma família de pequenos produtores rurais, onde o sustento principal era proveniente do trabalho árduo da construção civil, ensinou-me o valor de cada conquista. Ali, protegido pelo carinho de um pai, de uma mãe e de irmãos mais velhos, construí uma armadura invisível fundamentada na coragem. Essa proteção gerou a convicção de que nenhuma intempérie era maior do que a nossa capacidade de reconstrução. Quando, por volta dos 15 anos, uma violenta chuva de granizo destruiu o telhado da nossa casa, a resposta foi imediata e o telhado foi reformado, mas o que verdadeiramente permaneceu intacta foi a coragem.
Por décadas, essa postura se manteve e, diante das tempestades cotidianas, a reação nunca foi o pavor, mas o enfrentamento, registrando os eventos e mantendo a serenidade. Contudo, os tempos mudaram, e a intensidade dos eventos extremos rompeu essa barreira de resiliência. Recentemente, flagrei-me fazendo algo inimaginável anos atrás: literalmente rezando, pedindo proteção e força para continuar tendo coragem diante do céu que desabava.
Mais recentemente, durante um vendaval que arrancou o telhado de parte da garagem de nossa residência, vi-me segurando com as próprias mãos o portão da garagem, de vidro, numa tentativa desesperada de impedir que ele fosse estilhaçado e gerasse danos ainda maiores. Nesse momento, a coragem inabalável de outrora deu lugar a um sentimento novo, invasivo e persistente: o medo, com o qual passei a ter de conviver no dia a dia.
Essa mudança pessoal não é um caso isolado, mas o reflexo coletivo de um planeta em colapso, pois a emergência climática está abalando as pessoas em sua totalidade, tanto física quanto psicologicamente. O estresse, a ansiedade crônica diante de previsões meteorológicas e o sentimento de vulnerabilidade permanente são feridas que não sangram visivelmente, mas incapacitam, mostrando que não estamos apenas perdendo bens materiais, mas a própria paz de espírito e a sensação de segurança no lar.
Diante dessa realidade, torna-se evidente que as políticas públicas e as redes de apoio precisam evoluir com urgência para proteger as pessoas, e não apenas as questões materiais. É imprescindível que a rede de proteção avance para cuidar da integridade humana, oferecendo suporte psicológico e um olhar humanizado para o sofrimento mental gerado por esses eventos. A emergência climática está abalando de forma geral, e reconhecer essa vulnerabilidade é o primeiro passo para exigirmos um cuidado que vá muito além do cimento e do telhado.
Foto de capa: IA

