Por EUGÊNIO BORTOLON*
Trabalhadores venezuelanos estão bem integrados ao RS e dificilmente adotarão o caminho de retorno.
Fundação diz que já há quase 30 mil trabalhando com carteira assinada e com todos os direitos adquiridos
O Rio Grande do Sul atingiu a marca de 29.791 trabalhadores venezuelanos com carteira assinada, com todos os direitos, como vale transporte, vale refeição e até planos de saúde. Eles estão concentrados na indústria de transformação de matérias primas que viram produtos acabados, em hotéis, restaurantes, comércio, serviços, aplicativos de entrega de produtos (ifood) ou carros particulares de transportes (Uber, 99 e outros). O contingente é razoável dentro do total de empregados com carteira assinada no Estado (2,2 milhões).
Conforme o presidente da Fundação Gaúcha de Trabalho e Ação Social (FGTAS), ligada à Secretaria do Trabalho do RS, José Scorsatto, no ano passado foram mais seis mil trabalhadores incorporados pelo mercado gaúcho. A maioria está concentrada na zona Metropolitana e na Serra Gaúcha. Há ainda muitos venezuelanos correndo de um para outro lado no mercado informal, como vendas de produtos dos mais variados tipos nas ruas e no Centro da Capital – mas este mercado parece dominado por senegaleses e haitianos, os mais visíveis para quem caminha pelos mais diversos bairros de Porto Alegre.
Uma motorista de Uber em Porto Alegre, 47 anos, médica formada em Caracas, disse há poucos dias que jamais pensa em voltar ao seu país. Está bem aqui e não quer mais viver na miséria e insegurança que existe por lá. “Mesmo com toda esta intervenção que ocorre no meu país, não estou disposta a retornar. Vida muito complicada”, disse. E garantiu que espera resposta do governo para o seu exame de revalida para trabalhar como médica. Para o Programa Atualidades da Rádio Gaúcha, Scorsatto reafirmou que não percebe sinais de que venezuelanos que estão por aqui, trabalhando ou não, queiram retornar ao seu país de origem. “Como largar tudo depois que conseguiram fincar algumas raízes por aqui?”, pergunta ele.
O fluxo de entrada de venezuelanos no Brasil, via Roraima, depois da prisão de Nicolas Maduro e da intervenção americana naquele país, continua estável, conforme os últimos relatos da equipe das Nações Unidas que trabalha na fronteira. “De certa forma, a situação continua mais tranquila na região”, afirmou. Trump continua ameaçando e chegou a dizer que a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, vai pagar um “preço muito alto” se não cooperar com os Estados Unidos.
— Tranquilidade não quer dizer que não vá ocorrer novas ondas de migração para o nosso Estado. Ao contrário, a instabilidade pode até aumentar o fluxo de pessoas querendo vir trabalhar aqui.
A assessoria de imprensa da Federação das Indústrias do RS (Fiergs) informa que 64% dos trabalhadores estrangeiros empregados no Estado são originários da Venezuela. “Estamos acompanhando há alguns anos a situação e fizemos esta constatação”, disse o presidente Cláudio Bier, baseando-se em dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2024. Naquele ano estavam empregados na indústria gaúcha quase 16 mil venezuelanos em plantas fabris, dentro de um universo de 23.782 trabalhadores estrangeiros.
Indústria
Desse total, a ampla maioria –14.079 trabalhadores – está concentrada na indústria de transformação. Os principais segmentos empregadores são o de alimentos (6.783 trabalhadores), veículos automotores (2.485), borracha e material plástico (810), produtos de metal (777) e máquinas e equipamentos (700). No setor de alimentos, destacam-se as atividades de abate de aves, que concentram 3.796 trabalhadores, e de abate de suínos, com 1.688 vínculos. Já na indústria de veículos automotores, a maior concentração está na fabricação de caminhões e ônibus, que empregava 868 venezuelanos.
Conforme Bier, a presença de trabalhadores estrangeiros, especialmente venezuelanos, é fundamental para suprir a demanda por mão de obra na indústria gaúcha. Há um déficit de trabalhadores, especialmente qualificados, e a comunidade venezuelana tem papel decisivo nesse cenário. “A falta de mão de obra no RS é um problema real. Os venezuelanos apresentam bom nível de qualificação e, aqueles que não tinham formação específica, conseguiram se adaptar rapidamente por meio da capacitação oferecida pelo Serviço Nacional da Indústria (Senai-RS) e a acolhida do Serviço Social da Indústria (Sesi-RS). Caso esses trabalhadores retornem ao país de origem, a indústria gaúcha sofrerá um impacto muito forte. Trata-se de uma mão de obra eficiente e essencial”, afirma.
Em âmbito nacional, os venezuelanos ocupam 85.805 postos de trabalho na indústria em um universo de 146.314 trabalhadores estrangeiros atuando no setor, conforme dados ainda de 2024.
Argentinos / Senegaleses/ Haitianos
O número de trabalhadores argentinos também vem crescendo no RS. Já são 5.420, atrás apenas dos venezuelanos e dos haitianos. Só em 2025, 2.183 novos empregos foram ocupados por pessoas vindas da Argentina, que enfrenta mais uma crise econômica. Indicadores macroeconômicos melhoraram no governo de Javier Milei, mas a pobreza aumentou. Os argentinos trabalham principalmente na região da Serra, como safristas (uva, maçã, amoras, verduras). Haitianos e senegaleses trabalham formalmente na construção civil, em restaurantes e hotéis. Mas a grande maioria se dedica mesmo ao comércio de rua.
A comunidade senegalesa é significativa em Porto Alegre e no RS, mas enfrenta desafios permanentes, como xenofobia, racismo e os mais diversos preconceitos. Eles conseguem, porém, manter forte organização em associações para suporte mútuo e celebrações cultural e religiosa, além de procurar facilitar a inserção dos compatriotas na sociedade. Em 2020, estimava-se cerca de 1.200 senegaleses em Porto Alegre e 3.900 no RS, mas os números estão defasados em cinco anos.
Haitianos também formam uma das maiores comunidades de imigrantes em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, buscando trabalho e recomeço, principalmente após a permanente crise no Haiti e o grande terremoto de 2010, mas não há estatísticas confiáveis sobre o número exato desta população. Eles se concentram em bairros como o Rubem Berta, na zona Norte da Capital, e enfrentam desafios como perda de documentos (intensificados pelas enchentes de 2024), mas encontram apoio em centros de acolhimento (Centro Ítalo-Brasileiro de Assistência e Instrução às Migrações – Cibai, Centro Vida, entre outros) e organizam associações (AHRS) para auxílio com língua portuguesa e integração social, atuando em serviços e comércio. Enfrentam também racismo, xenofobia e discriminação variável – para conseguir trabalho ou tratamento de saúde. Atuam principalmente em serviços, comércio e construção civil, com destaque para o empreendedorismo (vendedores de produtos chineses).
Centros de Referência são mantidos oficialmente através da prefeitura, que oferece suporte, incluindo aulas de português. A Associação dos Haitianos do Rio Grande do Sul (AHRS) e outras entidades civis prestam assistência social, jurídica e linguística, promovendo a integração. Outras associações da sociedade oferecem aulas gratuitas para facilitar a comunicação e o mercado de trabalho, como no Centro Humanístico Vida.
*Eugênio Bortolon é Jornalista.
Foto de capa: Mauro Vieira/Ministério do Desenvolvimento Social




