Por BENEDITO TADEU CÉSAR*
A corrida eleitoral brasileira de 2026 vai tomando forma em meio a tensões profundas e riscos reais para o campo democrático popular. As pesquisas eleitorais nacionais mais recentes esboçam um cenário complicado: embora Luiz Inácio Lula da Silva lidere as pesquisas diante dos principais concorrentes de direita, o quadro geral — sobretudo para o Legislativo e para as disputas estaduais — permanece desfavorável e fragmentado para quem se identifica com a democracia social.
No plano presidencial, levantamentos eleitorais de abrangência nacional mostram Lula na liderança das intenções de voto, beneficiado pela polarização persistente e pela permanência do bolsonarismo como ameaça concreta à democracia. Essa condição pode garantir competitividade no segundo turno, mas não resolve o problema central: o desgaste de um governo que, embora tenha entregado resultados relevantes, não conseguiu empolgar amplos setores da sociedade como em ciclos anteriores. Diferentemente de 2002 e 2006, Lula já não encarna a promessa de um novo ciclo virtuoso de crescimento e inclusão, mas sim a defesa possível de um terreno democrático sob ataque.
Além disso, quando se observam os cenários de primeiro turno, a soma das intenções de voto atribuídas aos candidatos de direita e centro-direita frequentemente supera o percentual isolado de Lula. Esse dado, recorrente nas pesquisas, indica que sua liderança é real, mas politicamente vulnerável, fortemente dependente da configuração final das candidaturas e da dinâmica do segundo turno.
No Congresso Nacional, as pesquisas eleitorais e projeções partidárias são ainda mais preocupantes para o campo democrático popular. Partidos de direita e centro-direita aparecem com vantagens consistentes na disputa pelo Senado e com tendência de ampliar suas bancadas na Câmara dos Deputados. Trata-se de um projeto de poder no espaço legislativo de longo prazo, voltado não apenas à disputa eleitoral, mas ao controle estrutural das instituições, inclusive como forma de pressão permanente sobre o Supremo Tribunal Federal. O PL, na conquista do legislativo, opera com método e antecedência, algo que o campo democrático popular negligenciou por anos.
Além deste, o campo democrático popular vive um problema mais profundo: o processo de oligarquização dos partidos políticos, que já não se limita às legendas conservadoras. À semelhança de seus congêneres europeus desde o século passado, também os partidos do campo democrático popular foram capturados por lógicas internas que concentram poder, recursos e decisões nas mãos de parlamentares com mandato, especialmente deputados federais que controlam o fundo partidário e o fundo eleitoral. A política cada vez mais deixa de ser instrumento coletivo e passa a operar como carreira individual. A renovação é bloqueada. A militância é desestimulada. A vitória do projeto partidário cede lugar à sobrevivência do mandato.
O Rio Grande do Sul é um exemplo particularmente elucidativo desse processo que, com grande probabilidade, está ocorrendo também em outras unidades da federação. Estado com longa tradição de inovação democrática e participação popular, hoje reproduz, de forma quase didática, as distorções do sistema político nacional. As pesquisas eleitorais realizadas no estado apontam, em sua maioria, uma vantagem relativa das candidaturas situadas à direita e à centro-direita, ainda que haja levantamentos que indiquem, em determinados momentos e cenários, a liderança de candidatos do campo democrático popular.
A dificuldade de construção de uma frente ampla entre PT, PSOL, PDT e PSB não decorre apenas de divergências programáticas, mas da defesa obstinada de espaços individuais por lideranças consolidadas, mesmo quando isso compromete a viabilidade de uma frente eleitoral do campo democrático como um todo. Essa fragmentação se reflete diretamente nas pesquisas, ampliando a vantagem relativa da direita e da centro-direita, tanto na disputa pelo governo estadual quanto pelas vagas ao Senado e pela composição das bancadas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.
A retirada da candidatura de Paulo Paim à reeleição teve impacto direto na configuração da disputa ao Senado no estado. Paim reunia um eleitorado amplo e transversal, que incluía setores do centro e até da centro-direita, atraídos por sua trajetória, seu perfil conciliador e sua imagem pública não confrontacional. As pesquisas eleitorais indicam que, com sua saída do páreo, parte desse eleitorado tende a migrar para Eduardo Leite, reforçando sua posição relativa na disputa — embora outra parcela possa se dispersar ou se abster.
A comparação com o desempenho eleitoral de Olívio Dutra em 2022 ajuda a compreender esse movimento. Como Olívio já se encontrava na casa dos 80 anos, uma parcela do eleitorado avaliou que havia a possibilidade concreta de ele não exercer integralmente o mandato de oito anos, o que levaria à assunção de seus suplentes, ambos vinculados ao PSOL, partido percebido por amplos setores do eleitorado mais ao centro como “radical”. Foi essa percepção de radicalidade projetada sobre a suplência — e não a idade isoladamente — que afastou da candidatura de Olívio eleitores do centro e da centro-direita.
Esse mesmo fator pesa hoje sobre as candidaturas de Manuela D’Ávila e Paulo Pimenta, ambos candidatos ao Senado. As pesquisas eleitorais no estado mostram que Manuela, que já carregava rejeições quando estava no PCdoB, não conseguiu reduzi-las após sua filiação ao PSOL; ao contrário, passou a agregar a rejeição dirigida ao novo partido. No imaginário de parte significativa do eleitorado moderado, sua candidatura é associada a posições consideradas excessivamente ideológicas, o que limita severamente sua capacidade de expansão eleitoral. A viabilidade de Manuela — assim como a de Pimenta — depende, em grande medida, de um cenário improvável: a insistência da extrema direita em manter duas candidaturas competitivas até o final da campanha. Caso contrário, as pesquisas apontam para uma tendência predominante: uma vaga de centro-direita, ocupada por Eduardo Leite, e a outra pela extrema direita.
Na disputa pelo governo estadual, os levantamentos eleitorais indicam que Edegar Pretto, apesar de sua reconhecida honestidade, sensibilidade política e capacidade de diálogo, enfrenta dificuldades para romper seu nicho eleitoral. Sua candidatura não empolga corações, não atravessa a rua, isto é, não consegue avançar de forma consistente sobre o eleitorado de centro. Sua chance real depende diretamente do desempenho de Gabriel Souza. Caso Gabriel ganhe tração nas pesquisas, pode repetir o movimento de Eduardo Leite em 2022, quando chegou ao segundo turno por margem mínima e, então, recebeu os votos da esquerda e da centro-esquerda para barrar o que era percebido como o “mal maior”, a vitória de Onyx Lorenzoni.
Juliana Brizola, por sua vez, teve sua trajetória interrompida precocemente no primeiro ensaio de voo, devido ao vazamento de processo judicial sob segredo de Justiça relativo à tutela de sua avó. As pesquisas eleitorais subsequentes indicam queda de desempenho e dificuldade de recuperação em curto prazo. Pode se recompor, mas o custo político é elevado e o tempo é curto. Isoladamente, sua tendência é alcançar desempenho próximo ao de Pretto, sem romper o teto necessário para liderar a disputa. Nesse contexto, as pesquisas não autorizam descartar a força da candidatura de Luciano Zucco, que se alimenta justamente da fragmentação do campo democrático e da incapacidade deste campo de construir uma alternativa unitária e competitiva.
Esse quadro estadual se conecta a uma estratégia nacional mais ampla da direita. Pesquisas e dados eleitorais mostram que o PL vem apostando deliberadamente na valorização de candidaturas jovens para os legislativos estadual e federal, combinando forte presença digital, discurso seletivamente identitário e coordenação nacional. Trata-se de uma tentativa consciente de renovar quadros sem alterar o projeto político, ampliando sua capilaridade social e ocupando espaços que os partidos progressistas abandonaram ou negligenciaram.
O diagnóstico final é incontornável. O cenário eleitoral de 2026, tal como revelado pelas pesquisas, expressa o esgotamento de um sistema partidário fechado, envelhecido e crescentemente oligárquico. Sem enfrentamento interno, sem renovação real e sem estratégia consistente para o Legislativo, o campo democrático popular continuará refém de lideranças isoladas e alianças defensivas. O risco não é apenas perder eleições, mas consolidar uma democracia formal, esvaziada de participação social e capturada por interesses políticos oligárquicos.
O Rio Grande do Sul, que já foi laboratório de inovação democrática, pode voltar a sê-lo. Mas isso exigirá romper com a lógica da autopreservação política, recolocar o projeto coletivo no centro e compreender que a conquista de espaço no poder executivo e no legislativo por lideranças efetivamente democráticas é imprescindível para a manutenção da democracia e o avanço da justiça social no país.
*Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em sociologia, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.
Ilustração da capa: Oligarquização e fragmentação política favorecem a direita – Lula, Edegar Pretto, Eduardo Leite, Luciano Zucco e Manuela D’Ãvila – Imagem gerada por IA ChatGPT.
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Uma resposta
Muito esclarecedor seu artigo professor Tadeu!!