Duas Perguntas e um Alerta

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Por NUBIA SILVEIRA*

Duas perguntas sobre o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e o consequente sequestro do ditador Nicolás Maduro, que não são manchetes: qual o saldo de mortos deixado pela ação do imperador Trump? Como foi tão fácil chegar ao ditador? Facilidade que os Estados Unidos não encontraram nas suas tentativas, sempre fracassadas, de derrubar ou até mesmo matar o cubano Fidel Castro, nos 50 anos em que ele comandou o país. O que diferencia um ataque do outro?

Chegar até o local onde Maduro dormia não foi difícil, por duas razões: ele não era um ditador carismático e nunca contou com o total apoio dos venezuelanos. Talvez por isso, os agentes da CIA enviados, em agosto do ano passado, para Caracas, puderam rapidamente cooptar integrantes do governo Maduro, que lhes passaram informações sobre o dia a dia do chavista, os locais onde ele se protegia, dormia e outras tantas. Os informantes (traidores?) não tiveram apenas (ou nenhuma) razões ideológicas. Agiram de olho nos 50 milhões de dólares oferecidos pelos Estados Unidos a quem desse alguma pista que levasse a Maduro.No caso de Fidel Castro, a realidade era outra. Ele era visto como o herói que libertou o país da ditadura sangrenta de Fulgêncio Batista, responsável por transformar Cuba no bordel dos norte-americanos. Sem muitas análises, pode-se dizer que o grupo de Fidel era mais preparado e inteligente. Sabia detectar traidores internos, infiltrou agentes nos EUA e antecipou ataques dos norte-americanos, como a invasão da Baía dos Porcos. Os gusanos (vermes), como são conhecidos os cubanos fugidos da Ilha para Miami, sonhavam com a morte ou a derrocada de Fidel. Treinados pelas Forças Armadas dos Estados Unidos e pela CIA, tentaram com o auxílio dos norte-americanos invadir o país. A ação, como se sabe, fracassou. Muitos dos invasores morreram e, segundo algumas fontes, 1.200 foram presos.

Ao ler sobre o número de mortes causadas pelos ianques, nesse episódio da Venezuela, a impressão que se tem é de que ele está subestimado. No domingo, 4, falava-se em 80 mortos, o dobro do número divulgado inicialmente. Não se sabe se nesta conta estão os 32 cubanos, integrantes da guarda de Maduro. A previsão é de que mais pessoas foram mortas nos bombardeiros a Caracas e a outros três estados venezuelanos: Miranda, Aragua e La Guaira.

Analistas internacionais afirmam que, com a intervenção a um país soberano, Trump liberou a Rússia e a China a fazerem o mesmo com países que reivindicam como seus: a Ucrânia e Taiwan. Muitos destes analistas afirmam que Trump veria o mundo dividido entre as três potências, sem citarem o que seria feito da Ásia e do Oriente Médio. O certo é que nesta suposta divisão, Trump ficaria com o continente americano, onde admite apenas governos aliados. Quem não se submeter às suas ordens, corre risco de ser submetido à força.

O que o Brasil pode esperar de Trump, neste ano eleitoral? Posso ser ingênua, mas não acredito que sofreremos um bombardeamento como o ocorrido na Venezuela. Minha certeza é de que ele já uniu a CIA e as big techs para que intensifiquem o bombardeiro midiático, apostando em influenciadores de direita e fake news, que favoreçam candidatos como Tarcísio de Freitas (Republicanos) ou algum outro, que consiga se viabilizar. Flávio Bolsonaro (PL), lançado por seu pai, ainda é uma incógnita.

Não devemos esquecer que há 62 anos a CIA uniu-se a militares, empresários e políticos conservadores para derrubar o governo constitucional de João Goulart, por não seguir a cartilha dos Estados Unidos. Instalaram no Planalto os militares de confiança deles e das elites nacionais. Como diz o documentário de Camilo Tavares, vivemos uma noite que durou 21 anos. O futuro do Brasil teria sido outro, sem a interferência dos Estados Unidos. Um país com liberdade política e cultural, com investimentos em educação e reforma agrária. Um Brasil sem perseguições, torturas e mortes.

O ataque à nossa Constituição teve êxito numa época em que não se imaginava a existência da internet, dos aplicativos e da IA – Inteligência Artificial. As big techs, que vem agindo para diminuir o alcance de postagens contrárias à sua política, como, por exemplo, as que recriminavam e recriminam o genocídio na Palestina, trabalharão para eleger um candidato de direita, identificado com a sua cartilha. O mesmo fará a CIA. E, com certeza, não faltará dinheiro (grande parte público) para espalhar mentiras e discursos, que preguem o retrocesso do país.

Nem vamos falar da chamada grande imprensa, que prega objetividade e neutralidade, enquanto manipula as informações para que atendam aos seus interesses. Como isso ocorre? Como sempre foi feito: ao escolher as notícias que serão manchete, chamadas de capa e abertura de cada página do jornal. A manipulação também ocorre na escolha de fotos e ilustrações. Foi assim no passado e segue sendo no presente.

Se quisermos preservar a democracia e a soberania brasileiras deveremos nos manter vigilantes. Denunciar as armadilhas das plataformas de Mark Zuckerberg (Facebook, Instagram, WhatsApp e Threads), de Elon Musk (X, ex-Twitter), da chinesa TikTok, do Google, com seu youtube, e do Bluesky PBC (Bluesky). Sem esquecer o que vai pela deep web e pela dark web, cujos conteúdos não aparecem nos mecanismos de busca. Este vai ser um ano de atenção permanente, resistência e força para evitar o retorno à Idade da Pedra, apoiado pela tecnologia.


*Nubia Silveira é jornalista

Foto de capa: STR / AFP

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