Da Redação*
A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões, depois de praticamente dobrar desde 2017. Economistas apontam uma combinação de fatores para explicar a escalada: cortes de impostos concentrados nas camadas mais ricas, gastos militares elevados, aumento do custo dos juros e pressões inflacionárias associadas às guerras e à política tarifária do governo Donald Trump.
Somente os juros da dívida devem consumir cerca de US$ 1,1 trilhão, mais que o dobro dos US$ 419 bilhões registrados em 2021. Os gastos militares, por sua vez, permanecem próximos de US$ 1 trilhão anuais. Em apenas cinco meses, o endividamento norte-americano avançou mais US$ 1 trilhão, antecipando uma marca que o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) esperava que fosse alcançada apenas em 2027.
Menos impostos e juros maiores
Para Pedro Faria, economista associado à UFMG, os cortes tributários promovidos nos governos Trump contribuíram para reduzir receitas e ampliar os déficits. Medidas aprovadas em 2025 elevaram em cerca de US$ 4,7 trilhões a projeção de déficit para a década seguinte, ao mesmo tempo em que foram previstos cortes expressivos em programas públicos. Leia-se recursos para fins sociais.
Pedro Paulo Zahluth Bastos, professor do Instituto de Economia da Unicamp, chama atenção também para a distribuição dos custos. Segundo ele, a receita do imposto sobre lucros caiu 23% neste ano fiscal, enquanto os pagamentos de juros beneficiam principalmente fundos, bancos e famílias de maior renda. A carga tributária norte-americana equivale a aproximadamente 25% do PIB, abaixo dos cerca de 34% observados, em média, nos países da OCDE.
Economistas afastam risco de insolvência
Apesar do tamanho da dívida, os especialistas rejeitam a hipótese de insolvência dos Estados Unidos. O país emite o dólar, principal moeda de reserva internacional, e o Federal Reserve pode atuar como comprador de títulos do Tesouro em situações de estresse financeiro.
O problema estaria menos na capacidade de pagamento e mais no encarecimento do financiamento. Os títulos norte-americanos de 30 anos chegaram a render 5,33% em 18 de agosto, maior nível desde 2007.
Bastos atribui parte dessa pressão à inflação provocada pela alta do petróleo e pelas tarifas comerciais, mas também ao que denomina “risco Trump”: a incerteza gerada por conflitos comerciais, ameaças a parceiros internacionais e questionamentos sobre instituições norte-americanas.
Mesmo assim, o dólar ainda representa cerca de 57% das reservas cambiais mundiais, contra 20% do euro, 5,5% do iene, 4,5% da libras esterlina e apenas 2% do yuan. Para os economistas, portanto, os US$ 40 trilhões são um sinal importante de deterioração fiscal e de aumento dos custos financeiros, mas não significam que os Estados Unidos estejam próximos de ficar sem condições de honrar sua dívida.
* Redator: Solon Saldanha
Ilustração criada por IA. Crédito: Redação da RED

