Da Redação*
O blogueiro Paulo Figueiredo doou US$ 10 mil — cerca de R$ 54,5 mil pela cotação da época — a um comitê ligado à deputada republicana Maria Elvira Salazar em agosto de 2024. Um mês depois, a parlamentar apresentou no Congresso dos Estados Unidos um projeto de lei que tinha entre seus principais alvos o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A informação foi revelada pela Agência Pública a partir de registros da Federal Election Commission (FEC), órgão responsável pela fiscalização do financiamento eleitoral nos Estados Unidos. A contribuição foi realizada em 14 de agosto de 2024 ao Salazar Victory Committee, estrutura de arrecadação vinculada à campanha da deputada pela Flórida.
Cinco dias depois, o dinheiro foi distribuído entre o Salazar for Congress e o Freedom Force PAC, comitê de ação política relacionado à campanha. Figueiredo, que possui cidadania norte-americana, estava legalmente autorizado a fazer as contribuições.
Projeto veio um mês depois
Em 16 de setembro de 2024, Salazar e o também republicano Darrell Issa apresentaram o No Censors on Our Shores Act. A proposta previa impedir a entrada nos Estados Unidos de autoridades estrangeiras que adotassem, contra cidadãos norte-americanos, medidas consideradas pelo Congresso incompatíveis com a liberdade de expressão garantida pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA.
Ao apresentar o projeto, Salazar citou diretamente Moraes e relacionou a iniciativa às decisões do STF envolvendo plataformas digitais e, particularmente, ao confronto do ministro com a rede X, de Elon Musk.
A articulação prosseguiu em 2025. Em fevereiro, já iniciada uma nova legislatura, Figueiredo e Eduardo Bolsonaro estiveram no gabinete de Salazar e defenderam a reapresentação do projeto. A proposta avançou em comissão na Câmara dos Representantes, mas não chegou a se transformar em lei.
Sanções vieram pelo governo Trump
As medidas que efetivamente atingiram Moraes não decorreram desse projeto. Foram adotadas meses depois diretamente pelo governo de Donald Trump.
Em 18 de julho de 2025, o secretário de Estado Marco Rubio anunciou a revogação do visto norte-americano de Moraes e de familiares. A justificativa apresentada pelo governo dos EUA voltou a mencionar supostas violações da liberdade de expressão e decisões brasileiras que teriam atingido cidadãos e empresas norte-americanas.
Doze dias depois, em 30 de julho, a ofensiva ganhou dimensão maior. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos submeteu Moraes às sanções previstas na Lei Global Magnitsky, mecanismo destinado a atingir estrangeiros acusados pelo governo norte-americano de graves violações de direitos humanos ou corrupção.
No mesmo dia, Figueiredo agradeceu publicamente a Salazar pela atuação contra o ministro. Em transmissão pela internet, afirmou que a deputada havia sido uma “aliada de primeiro momento nessa luta”. Salazar também comemorou a decisão e atribuiu a Trump e Rubio o atendimento de uma reivindicação que vinha fazendo publicamente.
Articulação começou antes da doação
A relação da congressista com Figueiredo e Eduardo Bolsonaro, porém, antecedia tanto a doação quanto as sanções. Em março de 2024, ela recebeu uma comitiva de parlamentares brasileiros de extrema-direita em Washington. Dois meses depois, durante audiência no Congresso norte-americano sobre a situação política brasileira, exibiu uma fotografia de Moraes e o classificou como “operador totalitário”.
A revelação dos registros eleitorais acrescenta agora um dado financeiro a essa relação política: Figueiredo contribuiu com US$ 10 mil para a estrutura eleitoral de Salazar cerca de um mês antes da apresentação do projeto contra autoridades estrangeiras, iniciativa na qual Moraes foi nominalmente apontado pela congressista. Mas, os documentos citados não indicam ilegalidade na doação.
* Redator: Solon Saldanha
Foto: Maria Elvira Salazar mostra foto de Moraes. Crédito: Metrópoles

