Os países mais igualitários no mundo tiveram regimes social-democratas ou socialistas durante décadas. O fato de o PT governar com uma Frente Ampla Democrática, em uma nação polarizada ideologicamente, e com alternância de poder, é um avanço histórico significativo em prazo muito menor.
Essas duas observações ajudam a colocar a desigualdade brasileira em perspectiva histórico-comparativa, evitando tratá-la como se fosse uma variável independente da trajetória política e institucional de cada sociedade.
Igualdade elevada não surgiu espontaneamente. Os países hoje mais igualitários não chegaram a essa situação simplesmente porque o capitalismo neles produziu espontaneamente uma distribuição equilibrada.
Entre os membros da OCDE, os menores níveis de desigualdade da renda disponível aparecem nos países nórdicos e em vários países da Europa Central; em 2021, por exemplo, a Eslováquia tinha Gini próximo de 0,22.
Há, porém, duas trajetórias históricas diferentes por trás desses resultados.
A primeira é a social-democrata, especialmente Dinamarca, Suécia, Noruega e Finlândia. Durante muitas décadas, esses países construíram Estados de Bem-Estar universais, tributação elevada, negociação coletiva, previdência pública, saúde, educação, proteção ao desemprego, serviços de cuidado e políticas favoráveis à participação feminina no mercado de trabalho. A OCDE caracteriza precisamente o modelo nórdico pela universalidade dos benefícios e mostra seus sistemas tributários e de transferências entre os mais redistributivos.
A segunda trajetória é a dos antigos países socialistas da Europa Central e Oriental. Durante o período socialista, esses países apresentavam níveis muito baixos de desigualdade: estudos históricos encontram Ginis inferiores a 0,25 em muitos deles no início dos anos 1980. Com a transição ao capitalismo, a desigualdade aumentou, embora países como Eslováquia, Eslovênia e República Tcheca tenham preservado estruturas relativamente igualitárias.
Portanto, minha hipótese é formulada da seguinte maneira. As sociedades capitalistas contemporâneas mais igualitárias são, em grande medida, aquelas onde a distribuição de mercado foi submetida durante décadas a fortes instituições social-democratas ou onde sobreviveram instituições e estruturas sociais herdadas de experiências socialistas.
Isso não significa, entretanto, a desigualdade ser determinada apenas pela ideologia governamental. Estrutura produtiva, educação, sindicalização, demografia, propriedade, tributação e história também importam. E mesmo a Suécia experimentou aumento da desigualdade nas últimas décadas.
Há uma evidência particularmente esclarecedora: na média da OCDE, impostos e transferências reduzem em pouco mais de 25% a desigualdade produzida pela renda de mercado. Dois países podem partir de desigualdades de mercado semelhantes e terminar muito diferentes depois da intervenção pública.
A OCDE compara, por exemplo, Japão e Noruega: ambos tinham Gini de mercado próximo de 0,38, mas, depois de certa redistribuição de renda, a Noruega chegava aproximadamente a 0,27 e o Japão a 0,32.
Isso enfraquece a ideia de a desigualdade ser simplesmente um atributo imutável do capitalismo. Instituições políticas fazem diferença.
O Brasil parte de uma trajetória histórica quase oposta. Este é, a meu ver, o ponto importante para interpretar sua história.
Não é razoável comparar diretamente a desigualdade brasileira contemporânea com a escandinava e concluir: “o desenvolvimento brasileiro fracassou porque continua desigual”.
O ponto de partida histórico brasileiro foi excepcionalmente desigual: aproximadamente três séculos de escravidão, concentração fundiária, exclusão dos ex-escravizados do acesso à propriedade e à educação, cidadania política restrita e ausência de um Estado de Bem-Estar.
Além disso, diferentemente da Suécia, o Brasil jamais teve meio século contínuo de governos social-democratas. Muito menos experimentou uma revolução socialista capaz de redistribuir radicalmente propriedade e renda.
No século XX, ao contrário, atravessou duas longas ditaduras e somente a partir da Constituição de 1988 consolidou um Estado Social democrático relativamente abrangente.
Por isso, talvez seja mais fecundo inverter a pergunta. Em vez de: “Por qual razão vinte anos de governos liderados pelo PT não transformaram o Brasil na Suécia?” perguntar: “Quanto conseguiu avançar uma coalizão de centro-esquerda em uma sociedade historicamente muito desigual, sem revolução patrimonial, respeitando a propriedade privada, eleições competitivas, liberdade de imprensa, independência dos Poderes e alternância política?”
São avaliações históricas muito diferentes.
Aqui, as cinco vitórias presidenciais do PT ganham enorme significado. O fenômeno torna-se ainda mais interessante porque o PT nunca governou sozinho.
Lula não implantou um regime socialista nem propriamente um governo social-democrata homogêneo. Governou através do presidencialismo de coalizão, compondo maiorias com partidos de centro e até de centro-direita.
Depois da eleição extremamente polarizada de 2022, isso se tornou ainda mais explícito: formou-se uma Frente Ampla Democrática, incorporando forças situadas muito além da esquerda histórica.
Essa limitação pode ser interpretada negativamente — como concessão às elites, conciliação de classes ou incapacidade de realizar reformas estruturais. Mas pode também ser interpretada, sob a perspectiva da democracia pluralista, como uma realização institucional.
Um partido surgido dos movimentos sindical e popular aprendeu a disputar eleições, aceitar derrotas, formar coalizões, negociar com o Congresso, administrar uma economia capitalista complexa e retornar ao poder pelo voto. E seus adversários também chegaram ao governo.
A sequência histórica é notável: PSDB → PT → PT → PT → PT → MDB → PSL/coalizão bolsonarista → PT/Frente Ampla.
Houve, portanto, competição, derrota, alternância e retorno eleitoral. Isso é muito diferente tanto do antigo sistema oligárquico brasileiro quanto dos regimes de partido único.
O verdadeiro teste ocorreu quando a polarização chegou ao limite. É possível considerar 2016 uma ruptura política gravíssima — inclusive interpretá-la, como discutido anteriormente, como um impeachment constitucionalmente processado utilizado politicamente como mecanismo parlamentar de destituição de uma presidente eleita.
Mas é justamente o período 2016–2023 o capaz de tornar o resultado histórico posterior particularmente notável. O PT perdeu a Presidência, Lula foi preso, Bolsonaro venceu em 2018 e o sistema político experimentou enorme polarização. Apesar disso, a competição eleitoral sobreviveu.
Em 2022, Lula voltou a concorrer, venceu um presidente candidato à reeleição por margem estreitíssima. Sofreu ameaça de golpe, provocado pelo quebra-quebra na Praça dos Três Poderes, mas assumiu novamente o governo.
Isso não demonstra uma democracia perfeita. Demonstra algo talvez mais relevante: resiliência democrática.
Uma democracia não precisa ser consensual para ser forte. Pelo contrário: sua função institucional é permitir a coexistência de interesses, valores e projetos incompatíveis sem transformar adversários em inimigos a serem eliminados fisicamente ou excluídos permanentemente do sistema político.
A Frente Ampla pode então ser entendida como propriedade emergente. Sob a perspectiva da Complexidade, esse episódio ganha uma interpretação particularmente apropriada.
O sistema político sofreu sucessivamente: polarização → impeachment → crise institucional → ascensão da extrema direita → pandemia → eleição extremamente polarizada → tentativa de contestação do resultado eleitoral → formação de coalizão democrática.
A Frente Ampla não estava desenhada antecipadamente por nenhum ator. Ela emergiu das interações e ameaças percebidas pelos próprios participantes do sistema.
Setores anteriormente adversários passaram a cooperar porque mudaram suas prioridades diante de uma ameaça considerada maior. É um caso clássico de adaptação sistêmica.
O antigo adversário eleitoral Geraldo Alckmin tornar-se vice-presidente de Lula possui, nesse sentido, enorme significado simbólico. Não significa desaparecerem as diferenças entre esquerda e centro. Significa elas terem sido temporariamente subordinadas à preservação de determinadas regras comuns do jogo democrático.
Isso também muda o significado histórico do Partido dos Trabalhadores. O PT pode ser analisado em pelo menos três dimensões simultâneas.
Nasceu como partido classista dos trabalhadores, transformou-se em partido de massas eleitoralmente competitivo e, ao chegar reiteradamente ao governo, converteu-se também em organizador de coalizões pluriclassistas.
Há aí uma coevolução: PT transforma democracia brasileira ↔ democracia brasileira transforma PT.
O partido incorporou trabalhadores e movimentos sociais ao centro do sistema político. Mas, simultaneamente, as instituições democráticas obrigaram o próprio partido a negociar, moderar propostas, constituir maiorias parlamentares e aceitar restrições institucionais.
Não é simplesmente “cooptação” nem “revolução”. É coevolução institucional.
Por isso, desigualdade e democracia precisam ser analisadas juntas. Se exigirmos do PT a eliminação da desigualdade secular brasileira como critério para reconhecer sucesso, criamos novamente um critério praticamente impossível de satisfazer.
Os países hoje mais igualitários levaram muitas décadas construindo suas instituições redistributivas. Os nórdicos desenvolveram Estados de Bem-Estar universais e altamente redistributivos durante gerações.
O Brasil iniciou muito mais tarde essa trajetória e o fez em ambiente de enorme heterogeneidade social, federalismo, presidencialismo multipartidário e alternância ideológica.
Por isso, uma avaliação histórica equilibrada deveria perguntar simultaneamente: de onde o Brasil partiu, quais instituições criou, quanto reduziu pobreza e desigualdade, quais direitos universalizou, quais estruturas permaneceram e qual foi o custo democrático dessas transformações.
Essa perspectiva permite uma conclusão diferente daquela de uma história exclusivamente das permanências. O fato historicamente extraordinário talvez não seja o Brasil continuar desigual depois de cinco vitórias presidenciais do PT.
É um país originado na colonização escravista ter construído uma democracia de massas na qual um partido nascido do movimento operário pôde vencer cinco eleições presidenciais, perder o poder, sobreviver politicamente, retornar pelo voto e, diante de uma sociedade profundamente polarizada, governar através de uma Frente Ampla em vez de eliminar seus adversários.
Isso não significa o “fim da história” brasileira nem prova a irreversibilidade da democracia. Significa reconhecer uma transformação institucional real. Uma interpretação histórica capaz de enxergar somente a permanência da desigualdade, mas não essa emergência democrática, acaba cometendo justamente o problema metodológico de confundir a persistência de estruturas herdadas com ausência de desenvolvimento histórico.
Foto de capa: IA


