Por ANGELO CAVALCANTE*
Era “só” uma intervenção do exército; era, ora, ora… para nos “livrar” do bolchevismo internacional, afinal, os comunistas faziam sua ronda e nossa liberdade estava ameaçada; conseguem confabular, nos imaginar sem o gozo e as delícias do capitalismo?
Não por acaso, senhoras com bíblias e santificados rosários em mãos, desfilavam atônitas e apreensivas a cantarolar preces e ladainhas em imensas passeatas pelo Rio de Janeiro. Aliás, reparem bem, faz tempo que cândidas e dignas senhoras portando bíblias, terços e escapulários “salvam” o Brasil.
Era a icônica e exponencial marcha por Deus, pela pátria e pela família.
Pois sim… Depois da quartelada, nove dias depois dessa infame golpada de primeiro de abril, uma lista de, pelo menos, cem pessoas fora publicada; o alto comando do golpe, desenvolveu meticulosa lista com indivíduos, brasileiros de altíssima periculosidade e que deveriam ser presos, retidos e empatados.
O primeiro nome, por óbvio, era o do indefectível Luís Carlos Prestes, dos maiores ícones da esquerda mundial, um pensador da política, um estrategista nato e referência para o próprio movimento comunista internacional.
Mas nomes como Darci Ribeiro, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Celso Furtado, dentre outros, estavam lá e devidamente postos e grafados.
Em síntese, o melhor, mais sério, sincero e qualificado do pensamento nacional fora perseguido e expulso do país.
O golpe, não por menos, emburreceu, estupidificou a pátria.
Depois disso, todos já sabem, rios de sangue foram derramados por todo o território nacional; a morte acontecia sem medidas, freios ou limites. A coisa piora depois da institucionalização do maldito AI-5 no ano da graça de 1968, quando direitos básicos e essenciais são, enfim, suprimidos, extintos.
Esse é o “libera geral” para as maiores matanças e que o muito assassino Estado brasileiro desencadeou.
Da própria promulgação do AI-5 é estelar e eterna a frase do vice-presidente Pedro Aleixo ao ser indagado sobre as intenções “sérias e verdadeiras” do presidente Costa e Silva ao qual, de imediato, responde: “Não desconfio das nobres intenções do senhor presidente; meu receio, meu medo, minha desconfiança agora é com o guardinha da esquina”.
Foi premonitório!
É por isso que nossa democracia, mesmo manca, caolha e trôpega, tem de ser respeitada, compreendida, aperfeiçoada porque na ditadura, no regime da violência, nós não temos a menor chance porque, ora bolas, seremos presos, torturados e mortos.
Aí… Lá…
…Quando você estiver numa cela imunda, socado numa solitária turva e malcheirosa, ali talvez, você se lembre de que ninguém pode brincar com a democracia.
Quando você estiver nu e dependurado em barras com seus genitais à mostra de demônios raivosos, aí você lembrará de que a democracia, ao fim, importa.
Você, ali, com o corpo coberto de hematomas e deixado numa poça de água podre para sequências de choques elétricos, de certo, nesse infindo suplício, você irá se alembrar de que democracia transcende às regras de mera disputa política e eleitoral mas diz respeito a regras e limites para a própria ação do Estado e de seus agentes.
Talvez assentado em desconfortável poltrona de metal e que carcereiros brutalizados adequadamente batizaram de “cadeira do dragão” onde descargas elétricas de 220V são contínua e ininterruptamente despejadas sobre corpos moribundos e indefesos, de certo, sob tais e desgraçadas condições, você dê o devido valor para a democracia em um país arriscado feito o Brasil.
Não ouse brincar com a democracia e é por isso que somos insistentes quando dizemos SEM ANISTIA ! É que o mal precisa ser vencido, as serpentes precisam ter medo e como bem nos ensina, o bravo brasileiro Carlos Lamarca: é ousar lutar e ousar vencer.
Sigamos! Como enuncia Ulisses Guimarães, “temos ódio e nojo da ditadura!”.
Democracia SEMPRE!
*Angelo Cavalcante_ – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.
Foto de capa: Reprodução