Existe de fato um paralelo histórico discutido entre a trajetória do Reino Unido entre aproximadamente 1870–1930 e a dos Estados Unidos desde os anos 1980. A ideia central é centros hegemônicos passarem por uma fase de financeirização quando sua liderança produtiva relativa começa a declinar. Porém, isso não significa perda imediata do poder global.
Durante grande parte do século XIX, o Reino Unido foi a principal potência industrial e financeira do mundo. Entretanto, a partir de cerca de 1870 ocorreram três mudanças estruturais: ascensão industrial de Estados Unidos e Alemanha – desaceleração relativa da indústria britânica – crescente especialização financeira de Londres.
A City of London tornou-se o principal centro de financiamento internacional, seguros marítimos e investimentos externos. Nesse período, o capital britânico financiou ferrovias, portos e infraestrutura em vários continentes. Paradoxalmente, o Reino Unido tornou-se mais rico financeiramente justamente quando sua liderança industrial diminuía.
Foi notável a persistência da hegemonia monetária. Apesar da perda industrial relativa, a moeda britânica — a Libra Esterlina — permaneceu dominante no sistema monetário internacional por décadas.
Mesmo após a ascensão econômica dos Estados Unidos, a Primeira Guerra Mundial, a libra ainda era amplamente usada como moeda de comércio, moeda de reserva e moeda financeira. Isso ocorreu porque a hegemonia monetária depende de fatores estruturais: redes financeiras, confiança institucional e profundidade dos mercados de capital.
A substituição da libra pelo Dólar dos Estados Unidos foi lenta e gradual. Momentos importantes incluem o fortalecimento financeiro de Wall Street após a Primeira Guerra, a criação do Federal Reserve em 1913 e a consolidação do sistema monetário após a Segunda Guerra Mundial com o acordo de Conferência de Bretton Woods. Logo, a liderança produtiva americana começou antes da liderança monetária plena.
O paralelo com os EUA contemporâneos se dá porque, desde os anos 1980, os Estados Unidos apresentam alguns fenômenos comparáveis: crescente peso do sistema financeiro, forte expansão de mercados de capitais e relativa desindustrialização. Ao mesmo tempo, o sistema financeiro americano continua dominante e o dólar dos EUA permanece como principal moeda global.
Apesar do paralelo, existe uma diferença crucial do caso atual: a economia americana ainda possui, enorme capacidade tecnológica, liderança em setores estratégicos e mercados financeiros extremamente profundos. Por sua vez, a ascensão da China cria uma configuração geoeconômica possível de levar a um sistema monetário multipolar, em vez de uma substituição direta.
As transições hegemônicas são lentas porque, historicamente, a mudança da moeda dominante ocorre com atraso ao envolver efeitos de rede muito fortes. Uma moeda internacional é sustentada por mercados financeiros líquidos, instituições estáveis e grande volume de ativos seguros. Por isso, a libra continuou importante mesmo quando a economia britânica já não era a maior do mundo.
O paralelo histórico sugere: a financeirização pode coexistir com declínio industrial relativo, a hegemonia monetária tende a persistir por décadas e a transição para um novo sistema internacional costuma ser lenta. Assim, a possível ascensão monetária da China não implica necessariamente um colapso rápido do papel global do Dólar dos Estados Unidos, mas sim uma transição prolongada e possivelmente multipolar.
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Publicado originalmente em Blog Cidadania & Cultura.
Foto de capa: Divulgação





