Cuba no escuro: Padura alerta para colapso sob pressão dos Estados Unidos

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Cuba no escuro: Padura alerta - Imagem gerada por IA ChatGPT.

Da Redação

O escritor cubano Leonardo Padura publicou no El País, em 15 de fevereiro de 2026, o artigo “A terra das últimas coisas”. No texto, Padura faz um diagnóstico duro da crise em Cuba e da escalada da política externa dos Estados Unidos sob o comando do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Com forte carga pessoal, o autor descreve um país exausto e um mundo mergulhado na instabilidade. “Já nem se sabe se existe alguma luz no fim do túnel escuro que a sociedade cubana está atravessando”, escreve logo na abertura.

Incerteza global e o papel dos Estados Unidos

O artigo começa com relatos íntimos. “Uma amiga me escreve de Bruxelas, dizendo que todas as manhãs abre o jornal com receio de encontrar notícias ainda piores do que as do dia anterior.” Outra, em Paris, sente que “o mundo não gira mais em círculos, mas avança aos trancos e barrancos”.

Para Padura, essas percepções revelam algo maior. “A incerteza se tornou um sentimento avassalador para muitos habitantes do planeta.” Ele fala em “deterioração vertiginosa de paradigmas” e questiona o destino de alianças como a OTAN e da própria União Europeia. “O caos está crescendo a um ritmo descontrolado”, resume.

Nesse cenário, aponta diretamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como “protagonista, criador e diretor desse processo de incerteza global”. Segundo o escritor, Trump teria implementado “as políticas de repressão mais cruéis contra imigrantes indocumentados”, ameaçado acordos históricos e tensionado o próprio sistema político norte-americano.

Padura cita ainda editorial do New York Times segundo o qual o presidente teria acumulado fortuna pessoal bilionária no primeiro ano de seu segundo mandato, “na ordem de US$ 1.408.500.000”. E ironiza: tudo isso “enquanto profere a retórica de que restaurou a grandeza perdida de sua nação”.

Cuba sob pressão máxima

Na segunda parte do artigo, o foco se desloca para dentro da ilha. “Como cubano vivendo na ilha, sinto neste momento, e acredito que com justa intensidade, todas as incertezas que crescem tanto dentro quanto fora do país.”

Ele descreve os efeitos da política de “pressão máxima” aplicada pelos Estados Unidos, incluindo decreto que teria resultado em embargo à importação de petróleo. O impacto, segundo o texto, é imediato: apagões recorrentes, crise no transporte público e alimentos cada vez mais caros.

O governo cubano declarou uma espécie de “período especial em tempos de paz”, evocando a grave crise dos anos 1990 após o colapso soviético. Mas Padura alerta: “A Cuba de 1991 não é a Cuba de 2026.” Hoje, afirma, o país sofre com “falta de confiança, alimentada por anos de escassez, estagnação política e projetos de estratégia econômica tão equivocados ou tímidos”.

Intervenção, colapso ou reforma?

O trecho mais tenso do artigo é uma sucessão de perguntas. O que pode acontecer? “Sufocamento, agonia, colapso?”

Padura especula sobre possíveis cenários: maior pressão internacional, eventual “intervenção militar humanitária”, ou mesmo “a política de terra arrasada usada em Gaza”. Questiona quem assumiria o comando do país em caso de ruptura e se haveria pacto político ou vácuo de poder semelhante ao vivido pelo Haiti.

Ao final, o autor desloca o debate para dentro de Cuba. Para ele, a saída não está em paliativos. “A primeira solução política necessária não é um mero ‘plano de contingência’, mas sim a introdução de mudanças profundas nas estruturas de um país devastado por diversas crises.”

Mas evita respostas fáceis. “Aventurar-se a uma resposta seria o exercício mental mais absurdo”, escreve.

Literatura e política sem filtro

Conhecido internacionalmente por seus romances policiais e também pelo romance histórico O homem que amava os cachorros, no qual reconstrói a vida de León Trotsky e de seu assassino Ramón Mercader, Leonardo Padura deixa de lado aqui a ficção para assumir um tom abertamente político e pessoal.

Se na obra literária ele investigou as fraturas do socialismo real a partir da memória histórica e das marcas do stalinismo, neste artigo enfrenta o presente cubano sem o filtro da narrativa ficcional. A referência final ao “país das últimas coisas” funciona como metáfora de um país onde, além de bens materiais, também se dissipam expectativas.

O artigo expõe o sentimento de esgotamento de parte da sociedade cubana e o temor de que o pior ainda esteja por vir — ainda que ninguém saiba exatamente o que é esse pior.


Ilustração da capa: Cuba no escuro: Padura alerta – Imagem gerada por IA ChatGPT.

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