O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, pode ser chamado de muitas coisas. Menos de representante da direita comprometida com a defesa da chamada “moral e bons costumes”. Não terá sido por isso que ganhou em Mogi das Cruzes (SP), sua cidade natal, o apelido de “Boy” (dizem que foi porque, quando criança, ele era parecido com o garoto filho de Tarzan do seriado da TV). Não terá sido por isso que foi ele quem levou a modelo Lilian Ramos para o camarote onde estava o então presidente Itamar Franco proporcionando a famosa foto da moça sem calcinha. Valdemar é um típico nome da direita tradicional brasileira. Que se molda às mudanças dos ventos políticos para sempre estar no poder.
Bolsonaro é o maior desafio
Ao longo do tempo, Valdemar acostumou-se a correr riscos. Não por acaso, conseguiu estar envolvido com os maiores escândalos tanto do PT de Luiz Inácio Lula da Silva quanto de Jair Bolsonaro. Foi condenado no processo do Mensalão e escapou por pouco de entrar na ação por golpe de Estado julgada pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). A aliança com Bolsonaro e seu núcleo, porém, tem sido o seu maior desafio político.
PL saiu de médio para virar grande

Chapas puras do PL limitam alianças de Flávio | Foto: Lula Marques/Agência Brasil
A cartada que Valdemar deu levando para o partido Bolsonaro fez com que o PL pela primeira vez crescesse de partido médio para partido grande. Rivaliza em tamanho com o PSD e o PT. Em diversos aspectos, supera os outros dois. Mas isso obriga Valdemar a ter que domar o espírito de direita mais radical dos bolsonaristas que definitivamente não é o seu. Ao levar Bolsonaro, Valdemar estabeleceu como princípio que não abriria mão do comando do PL. Essa era a condição para que não acontecesse ali o que aconteceu com o PSL.
Controle está sendo perdido
Valdemar, no entanto, está vendo o risco desse controle ser perdido. Envolvido no processo de total autofagia da família Bolsonaro, desde a prisão na Papudinha do patriarca. Os projetos da família não são os projetos de Valdemar. E, na verdade, não parece também haver unidade nos projetos da família, incluídos pai, esposa e filhos.
Bolsonaro
O primeiro ponto é o próprio Jair Bolsonaro. Ele quer se manter como a principal referência de direita mesmo estando preso e inelegível. A partir de terceiros, quer coordenar o processo. Mas derrotar Lula na eleição não parece ser o objetivo principal: está abaixo de não perder a hegemonia da direita.
Supremo
Entra aí o projeto de montar a maior bancada bolsonarista possível no Senado. Para que ela seja capaz de pressionar o STF e produzir processos de impeachment. No fundo, capaz de reverter condenações e outras situações que deixam Bolsonaro encarcerado e fora do jogo oficial da política brasileira.
Flávio e o Rio
O problema disso tudo é que tal projeto atrapalha o caminho do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na sua tentativa de derrotar Lula na eleição presidencial de outubro. Flávio sabe que precisa se ampliar. E não por acaso agiu para que isso acontecesse na chapa fechada no Rio, que une PL, União Brasil e PP.
Centrão
A chapa terá o secretário de Cidades, Douglas Ruas (PL) como candidato a governador. Para o Senado, o governador Claudio Castro (PL) e o prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União Brasil), para o Senado. Não é uma chapa bolsonarista raiz. Mas Flávio emplacou a mãe, Rogéria Bolsonaro, como suplente de Canella.
Intervenção
Mas não é assim que o barco avança em outros estados. Foi por isso que Valdemar tentou intervir em Santa Catarina para que o governador Jorginho Mello (PL) mantivesse o compromisso para o Senado com Esperidião Amin (PP). O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), cobrou e ameaça não apoiar Flávio.
Duas vagas
Aliados de Valdemar preocupam-se com a situação. Sabem que, por mais que Bolsonaro queira, o PL não irá fazer as duas vagas para o Senado. A situação limita Flávio e o afasta dos grupos mais moderados. Nesses tempos polarizados, pode até dar certo. Mas nunca foi assim que Valdemar trabalhou.
Publicado originalmente no Correio da Manhã.
Foto de capa: Bolsonaro pressiona Valdemar a outro tipo de jogo | Reprodução YouTube





