Por RUDOLFO LAGO*, do Correio da Manhã
Ninguém imagina que venha a acontecer alguma interferência do governo da China sobre a Venezuela depois da invasão do país pelos Estados Unidos com a prisão de Nicolás Maduro. Esse tipo de intervenção não é o perfil dos chineses, que preferem ser agressivos apenas no campo econômico. Mas o que aconteceu na madrugada de sábado (3) no país vizinho deixou preocupadas as empresas da China que têm ampliado seus investimentos no Brasil. Segundo um interlocutor que atua junto aos chineses, há uma impressão generalizada de que o movimento de Trump na Venezuela inaugura um tempo de maiores intervenções, o que pode mergulhar a dinâmica econômica global num campo de incerteza.
Planos globais

Luckin’ Coffee virou a maior rede de cafés do mundo | Foto: Divulgação
Ninguém fala ainda em frear seus investimentos, mas poderá haver um freio na política econômica global da China, no que ela batiza de “Nova Rota da Seda”. A primeira Rota da Seda era uma rede que conectava a China ao ocidente no seu comércio no século 2 antes de Cristo. A Nova Rota da Seda é a ideia chinesa de promover novos caminhos para os produtos do país, conectando principalmente os países do hemisfério Sul.
Brasil não assinou o tratado
Quando o presidente da China, Xi Jinping, visitou o Brasil no final de 2024, esperava sair do país com a assinatura do acordo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para aderir à Nova Rota da Seda. Não conseguiu. A diplomacia brasileira já vislumbrava ali reações do governo Trump nos Estados Unidos. Assinou outros acordos, mas evitou entrar de cabeça na estratégia chinesa. Agora, a avaliação das empresas da China são de que, na verdade, esse é o foco principal da intervenção de Trump: mandar a todos o recado de que não permitirá “intrusos” no continente
Trump não tem sutilezas
Concorde-se ou não, é assim que Trump vê outros países que têm interesse econômico na América. E Trump já demonstrou que não tem sutilezas.
As regras básicas da diplomacia não costumam valer muito para o presidente dos Estados Unidos. O problema é como os que investiram pesado no país podem prever para o futuro.
Investimentos
A China vem investindo pesado no Brasil nos últimos anos. Segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), os investimentos chineses no Brasil bateram um recorde em 2024, atingindo US$ 4,2 bilhões. As áreas mais fortes foram energia, infraestrutura, agronegócio e tecnologia, especialmente carros elétricos.
Destino
O Brasil tornou-se o terceiro maior destino de investimentos da China no mundo. Na linha da Rota da Seda, a China usa uma estratégia batizada de “silk belt” (cinto de seda), que consiste em conectar os mercados garantindo a infraestrutura, as condições para que a relação não se rompa.
Luckin’ Coffee
Na linha inversa, aumenta também a presença brasileira na China. Um exemplo: a Luckin’ Coffe, da China, ultrapassou o Starbucks e tornou-se a maior rede de cafeterias do mundo. E o Brasil fornece café para a Luckin’ Coffee. Um contrato foi firmado no ano passado para que Rondônia fornecesse café para a rede.
Pretextos
Se Trump avançará sobre o Brasil para tentar conter esse avanço chinês, ainda não se sabe. Na verdade, ele precisará de pretextos para novas ações. Como os que conseguiu no caso da Venezuela, afirmando que o país promoveria a partir do próprio governo de Nicolás Maduro o que classificou de “narcoterrorismo
Segurança
Vem daí a grande preocupação do governo brasileiro com os movimentos da oposição que visam passar a classificar o crime organizado como ação terrorista. Eles poderiam ser o pretexto pretendido por Trump para promover por aqui uma ação como fez na Venezuela e ensaia fazer agora na Colômbia.
Oposição
Boa parte dos políticos de oposição aplaudiu a ação de Trump na Venezuela. Mais afobado, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) chegou a defender uma intervenção dos EUA no Brasil. Uma situação delicada que exige muita cautela. Não apenas por parte do governo brasileiro, mas dos investidores chineses
*Rudolfo Lago é jornalista do Correio da Manhã / Brasília, foi editor do site Congreso e é diretor da Consultoria Imagem e Credibilidade.
Publicado originalmente no Correio da Manhã.
Foto de capa: Xi Jingping não conseguiu adesão à Nova Rota da Seda | Ricardo Stuckert/PR





Uma resposta
Ninguém é muita gente!! Eu gostaria que destruissem os EUA hahaha… E o Sr. Nikolas precisa de cassação e cadeia!!