Enquanto vai ficando claro que não vai se concretizar o desejo do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, de ter a senadora Tereza Cristina (PP-MS) como a candidata a vice-presidente na chapa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ela mesma começa a mostrar de forma mais explícita qual é o seu desejo. A ex-ministra da Agricultura quer suceder Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) na presidência do Senado. Já anda sondando colegas. De alguns, tem ouvido que poderá ter uma parada dura: empoderado pelo fato de ser o coordenador da campanha de Flávio, Rogério Marinho também vai querer o cargo. Segundo interlocutores, ela brinca da seguinte forma: “Mas eu falo com os aliados do atual governo, e ele não”.
Flávio: moderado só no discurso
E talvez esteja aí – o fato de suas relações serem mais amplas que o campo da direita mais radical – a razão pela qual ela não deva ser a vice de Flávio. O sobrenome de Flávio é Bolsonaro. E é principalmente por ter esse sobrenome que ele foi ungido por seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, candidato à Presidência. O desejo de Valdemar de ter Tereza Cristina na sua chapa é anterior à própria candidatura atual: ele já a defendia em 2022.
Família teme sombras

Alcolumbre chega mais desgastado a 2027 | Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado
Toda a brigalhada familiar que hoje exaspera Valdemar Costa Neto refere-se a um ponto principal. Jair Bolsonaro, como o patriarca, e o seu clã querem manter o controle político da direita brasileira. Querem continuar sendo a grande referência. Então, temem dar espaço maior a qualquer outra liderança conservadora que possa vir a ofuscá-los. É o mesmo ponto que tinha desanimado o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) na corrida presidencial. E que fez Bolsonaro optar pelo general Braga Netto em 2022.
Líder no agronegócio
Por esse raciocínio, o que poderia ser uma vantagem de Tereza Cristina vira prejuízo aos olhos do clã. Se viesse a ser a vice, ela poderia neutralizar uma tendência do agronegócio de vir a apoiar Ronaldo Caiado, do PSD. Mas essa mesma liderança é vista na família como desvantagem justamente por ela ter uma liderança política que pode obscurecer os Bolsonaros.
Não quer
A chance, assim, de problemas de relacionamento como os que Jair Bolsonaro teve com seu vice, o hoje senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), faz com que ser vice de Flávio não seja mesmo um desejo da senadora do Mato Grosso do Sul. Ela não dirá claramente que não quer, mas também não se moverá.
Convite
Até porque tal convite, ou mesmo uma sondagem preliminar, nunca houve. Flávio Bolsonaro nunca teve uma conversa com ela na qual colocasse como hipótese que ela dividisse com ele a chapa presidencial. Presidir o Senado está nos seus planos. Além de Marinho, ela tem outro adversário: Davi Alcolumbre.
Reeleição
Davi Alcolumbre poderá disputar a reeleição no ano que vem. Mas há um cálculo de que ele chegará a 2027 bem mais desgastado. Está fragilizado por eventuais envolvimentos na crise do banco Master. E a resistência que faz à indicação de Jorge Messias para o STF diminui sua simpatia junto aos governistas.
Apoio
Embora seja oposicionista e conservadora, Tereza construiu relação com o governo ao atuar do mesmo lado em alguns momentos. Ela foi a relatora do PL da Reciprocidade, por exemplo, ferramenta dada ao governo para reagir, caso necessário, ao tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Comitiva
Em julho do ano passado, ela integrou uma comitiva de senadores que foi aos EUA negociar com políticos do país a amenização do tarifaço de Trump. Num momento em que Eduardo Bolsonaro exultava com a sobretaxação imaginando que ela poderia pressionar o STF a não condenar seu pai.
Progressistas
Finalmente, pode não ser somente a senadora quem não quer oficializar um apoio a Flávio. Essa pode ser a opção do seu partido. Por conta das limitações nas alianças estaduais, como aconteceu com o escanteamento do senador Esperidião Amin em Santa Catarina. “Um erro caro para o estado”, disse Amin.
Publicado originalmente no Correio da Manhã.
Foto de capa: Tereza quer sentar na cadeira de Alcolumbre | Carlos Moura/Agência Senado





