“Esse filme seria o ganhador do Oscar”. Essa frase é dita por Martha Graeff ao seu namorado, o dono do Banco Master, em uma das conversas que estavam nos celulares investigados pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero. Os dois conversam sobre um projeto que seria apresentado pelo presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), segundo Vorcaro. “Ciro soltou um projeto que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes”, diz o banqueiro. “Todo mundo louco aqui”, prossegue ele. “Se fosse filme, não teria tantos desdobramentos loucos”, conclui Vorcaro, antes da frase de Martha Graeff que abre a coluna.
Por que leniência com os menores?
A frase está na esteira de uma linha importante da investigação da PF: por que o Banco Central foi por muito tempo leniente com as operações dos bancos menores? Como já dissera o Correio Político na quarta-feira (4), não foi apenas com relação ao Master – que, agora se sabe, pagava dois ex-diretores – que o Banco Central teria feito vista grossa com relação às operações. Boa parte dos bancos menores operava com mesmo alto grau de risco.
“Grande amigo da vida”

Banco Central teria sido leniente na fiscalização | Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Na conversa com Martha Graeff, assim Daniel Vorcaro menciona Ciro Nogueira. “Muito amigo meu. Um dos meus grandes amigos da vida”. No caso específico, é preciso dizer que a proposta que seria feita por Ciro Nogueira suspeita-se ser uma emenda à Proposta de Emenda à Constituição 65, que tratava da autonomia orçamentária do Banco Centra, e aumentaria a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A emenda não foi aprovada. Independentemente disso, há essa percepção da falta maior de fiscalização.
Equiparação a bancos
Na verdade, essa é uma reclamação dos bancos maiores há tempos. E vai na esteira das mudanças que foram feitas no ano passado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de fazer com que as fintechs fossem equiparadas aos bancos na fiscalização da Receita. A medida surgiu após a Operação Carbono Oculto, que mostrou como o PCC usava tais instituições para lavar dinheiro.
Linha de corte
Mesmo quem defende o Banco Central admite que houve essa leniência. Para além dos dois ex-diretores comprados, o que se argumenta é que, diante da imensidão do mundo financeiro, os menores e as fintechs ficavam abaixo de certa linha de corte em volume de negócios a ganhar a atenção da autoridade.
Fácil lavar
O resultado é que ficava bem mais fácil operar com tais instituições, bem menos rigorosas. Bem menos complicado abrir uma conta. Ou fazer investimentos. Ou, para aqueles que se utilizam do expediente, lavar dinheiro. E eis aí o tamanho da encrenca. Não é somente o crime organizado, o PCC, que lava dinheiro.
Quem lava?
Como sabem hoje até as pombas que ciscam na Praça dos Três Poderes, é amplo o espectro de quem lava dinheiro. Passa por políticos, partidos, grandes bancas de advocacia, médicos, empresários, altas autoridades nos três poderes da República. Essa é a Caixa de Pandora que o caso Master pode ter aberto.
Emendas
No caso dos parlamentares, boa parte disso viria do milionário esquema das emendas orçamentárias. Nunca, jamais, um dos políticos que aparece para defender as prerrogativas orçamentárias do Congresso veio explicar por que razão querem entre essas prerrogativas que se esconda quem é o autor da emenda e para que fim ela é destinada.
Financiamento
Parte da razão que ninguém explicita está no azeitamento das próprias campanhas, que faz com que a Câmara dos Deputados tenha tido nas últimas eleições uma taxa de permanência dos atuais parlamentares maior que 60% e se estime que agora vá chegar a mais de 80%. O esquema azeita as engrenagens.
Caixa Dois
No mínimo, porém, se o autor da emenda não colocou o dinheiro no bolso, isso é Caixa Dois. E esse dinheiro terá que ser justificado depois de alguma forma se não foi usado numa obra ou serviço do município. Para além, há os outros expedientes de outros grupos. Para isso, tamboretes por aí estariam disponíveis.
Publicado originalmente no Correio da Manhã.
Foto de capa: Vorcaro e sua namorada, Martha Graeff | Reprodução/Instagram @marthagraeff





