CORRESPONDENTE POLÍTICO | Master: haverá luz sobre “deliberada cegueira”?

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Por RUDOLFO LAGO*, do Correio da Manhã

A primeira coisa que vem impressionando técnicos e senadores da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) é a impressionante capacidade que um “tamborete” – ou seja, um banco considerado pequeno – como o Master teve de criar uma inacreditável rede de proteção em torno de si. A cada enxadada que a investigação do Master dá na terra, saem de lá minhocas cada vez mais graúdas. De todos os níveis, em todos os poderes. Mas a segunda coisa que por ali se comenta é que o Master é a ponta vistosa de um iceberg cuja base já se vinha investigando. Uma base que é extremamente grave: os organismos de fiscalização financeira vêm fazendo vista grossa para uma série de irregularidades no sistema bancário.

Já mostrava a Operação Colossus

Em 2022, a Polícia Federal realizou a Operação Colossus, para combater evasão de divisas e lavagem de dinheiro. A operação descobriu um esquema que teria movimentado R$ 51 bilhões utilizando criptoativos para lavar dinheiro. Mas o que impressionou foi como tudo isso teria sido admitido pelos mecanismos de controle. Concluiu o relatório daquela investigação que haveria uma “deliberada cegueira” para tudo o que acontecia.

“Cegueira” de bancos e mecanismos

Motta e Alcolumbre podem enrolar CPI | Foto: Lula Marques/Agência Brasil

A tal “cegueira” envolvia não somente os bancos e fintechs a partir dos quais o esquema operava. Envolveria também quem faz a fiscalização e é autoridade monetária. Podemos aí estar falando da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), do Conselho de Controle da Atividade Financeira (Coaf) e do próprio Banco Central. Diante da magnitude do volume de minhocas gordas que sai de cada enxadada sobre o Master, mesmo antes de o Congresso retornar às atividades, debates a respeito disso acontecem na CAE do Senado.

GT pode requisitar documentos

Especialmente porque foi ali criado um Grupo de Trabalho (GT) para acompanhar as investigações do Master. GT que, se imagina, pode vir a ser a solução para se evitar a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Embora não tenha o poder de polícia de uma CPI, a CAE pode requisitar documentos, inclusive sigilosos, e convocar pessoas para depoimentos.

Desmoralização

É possível, portanto, a partir do Grupo de Trabalho ali criado manter o tema em evidência e fazer com que por ali o Senado tenha participação relevante no processo. O que se comenta na CAE é que pode vir por lá uma solução política para não fazer com que o Senado corra o risco de se desmoralizar.

Abafa

O risco viria a partir de uma grande “operação abafa” sobre o Master. Porque o que se comenta é a possibilidade de que tanto os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), quanto do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil) façam o máximo para enrolar e postergar a instalação de uma CPI ou CPMI.

Motta

Na sexta-feira (23), Hugo Motta viu seu nome envolvido no rolo a partir da notícia de que fez uma emenda na lei que regulamentou o mercado de carbono criando uma injeção compulsória de bilhões de reais no sistema, o que poderia beneficiar negócios de Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, dono do Master.

Alcolumbre

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não viu seu nome envolvido diretamente. Mas o fundo de Previdência do Amapá, estado de Alcolumbre, é um dos que investiu dinheiro no Master e se vê enrolado a essa altura, com um rombo de R$ 400 milhões. Podem estar envolvidas no Amapá pessoas ligadas a Alcolumbre.

CPMI

Uma CPMI, comissão mista, talvez fosse mais fácil de ser instalada que uma CPI, comissão somente na Câmara ou no Senado, porque há outros pedidos na fila. Mas dependeria de Alcolumbre convocar uma sessão mista do Congresso e, nessa sessão, ler o pedido e instalar a comissão.

Eleições

O que se imagina é que Alcolumbre possa ficar adiando esse momento. Como estamos em um ano eleitoral, se tal instalação for adiada por muito tempo, a comissão se inviabiliza. A partir do final do primeiro semestre, a expectativa é que o Congresso se esvazie completamente por causa das eleições


*Rudolfo Lago é jornalista do Correio da Manhã / Brasília, foi editor do site Congreso e é diretor da Consultoria Imagem e Credibilidade.

Publicado originalmente no Correio da Manhã.

Foto de capa: GT na CAE pode ser caminho para evitar desmoralização | Lula Marques/ Ag..ncia Braasil.

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