Num diálogo que ficou famoso quando vazou, na Operação Lava Jato, do então presidente da Transpetro, Sergio Machado, com o então senador Romero Jucá (MDB-RR), Jucá propunha a construção de um pacto para conter as investigações, “com o Supremo, com tudo”. A Lava Jato acabou anulada porque se descobriu que, na verdade, havia um “pacto” no sentido oposto, entre o então juiz da operação, Sergio Moro, e procuradores para combinar acusações e condenações. A cada passo agora, porém, do que se descobre sobre as ações do Banco Master, de Daniel Vorcaro, fica mais impressionante o tamanho da teia de proteção que foi montada. Teia que, exposta, pode vir a comprometer a “democracia, com tudo”.
Banco Central exposto
Esse era o tema de várias conversas na quarta-feira (4) em Brasília e em São Paulo. A extensão de tudo o que já se sabe e pode vir a se saber. A começar pelo Banco Central. Os documentos mostram envolvimento de dois ex-diretores do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, que agiriam na instituição para atender aos interesses do Master. Mendonça determinou o afastamento de ambos, mas eles já estavam afastados.
Leniência com fintechs

Sicário se matou na prisão. O que ele sabia? | Foto: Divulgação
Desde o início da crise do Master, circulam no mercado financeiro impressões de que o Banco Central não vinha sendo leniente apenas com eventuais operações de alto risco que envolviam o banco de Vorcaro e as operações de seus sócios. Que esse tipo de operação de alto risco que Vorcaro fazia era feita também por outras das chamadas fintechs, essas novas empresas financeiras do mundo digital. Se é verdade, por que tal leniência? A descoberta dos dois ex-diretores afastados eliminou totalmente o risco?
Vorcaro era o chefe de tudo?
Vorcaro é um homem de apenas 42 anos. E o Master estava longe de ser um gigante do mundo financeiro. Um dos questionamentos que eram feitos na quarta em Brasília e em São Paulo, no mundo financeiro, justamente perguntava se terá sido ele mesmo quem conseguiu, assim, construir uma teia de proteção com conexões no STF, no BC, em partidos, no governo e na oposição.
Delação
Se Vorcaro era o chefe de tudo, a lei não lhe permitiria fazer um acordo de delação premiada. Mas ele pode apontar que há alguém acima dele na organização criminosa montada. Quem? Com qual tamanho? Com qual grau de autoridade? É por aí o risco de desmoronar a “democracia, com tudo”.
Suicídio
O suicídio de Luiz Philipi Mourão, conhecido como Sicário, acrescenta mais ingredientes graves. Sicário era o responsável pelo monitoramento e obtenção de informações sigilosas de pessoas consideradas adversárias de Vorcaro. O medo que o faz atentar contra a vida fala do quanto ele deve saber.
Sicário
Ninguém tem um apelido desses por acaso. Sicário vem do latim “sicarius”, que quer dizer “homem da adaga”. Um dos termos para adaga em latim era “sica”. O termo, assim, passou a designar assassinos de aluguel. No caso da investigação em curso, homens no mínimo capazes de “quebrar os dentes” de jornalistas.
Onde se meteu?
Onde, então, se meteu boa parte da República brasileira? O que pode ainda surgir? Perguntas que circulavam na quarta: por que a Procuradoria-Geral da República era contra a nova prisão e acabou admoestada pelo ministro André Mendonça? Se o caso continuasse nas mãos de José Antonio Dias Toffoli, se saberia o que agora se sabe?
Risco sistêmico
Sócio da Hold Assessoria, o cientista político André Cesar atua em São Paulo com clientes do mercado financeiro. Desde a manhã de quarta, a nova operação da Polícia Federal gerava, segundo ele, forte apreensão. Uma crise de credibilidade do Banco Central pode provocar de fato o famoso “risco sistêmico”.
De que serve?
Para André, porém, o risco maior é com a democracia, às vésperas de eleição presidencial, com o desencanto que provoca uma crise que envolve todo mundo. “Minha preocupação é o eleitor, diante de tudo, avaliando as opções e o que aconteceu, começar a se perguntar: ‘Isso serve para quê'”?, questiona.
Publicado originalmente no Correio da Manhã.
Foto de capa: Foi mesmo Vorcaro quem montou tal teia? | Rubens Cavallari/Folhapress





