CORRESPONDENTE POLÍTICO | Jorge Messias e o feitiço do tempo

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O tempo e seus mistérios são tema de diversas obras artísticas. Caetano Veloso já disse que ele é “um dos deuses mais lindos”. Já Renato Russo explorou o quanto é relativo: às vezes, sentimos que “temos todo o tempo do mundo”; às vezes achamos que “não temos tempo a perder”. No cinema, a comédia O Feitiço do Tempo explorava a ideia de um loop no qual o personagem acordava sempre no mesmo dia. Provavelmente, neste momento o advogado-geral da República, Jorge Messias está mais com a dicotomia de Renato Russo, premido a achar às vezes que precisa ganhar tempo e outras vezes avaliando que não tem tempo a perder. Ou caindo no loop de se sentir acordando sempre no mesmo dia.

Indicação foi há quatro meses

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou Messias para a vaga aberta por Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal no dia 20 de novembro do ano passado. Ou seja, Messias já espera pela sabatina do Senado há quase quatro meses. Na espera mais longa, o hoje ministro André Mendonça aguardou por quase cinco meses. Nos dois casos, a demora tem o mesmo nome e sobrenome: Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Tudo depende do clima político

Pinimba de Alcolumbre virou pessoal? | Foto: Lula Marques/Agência Brasil.

Na Advocacia-Geral da União, Messias aguarda o momento em que o presidente Lula deverá ter uma conversa com Davi Alcolumbre para azeitar o caminho para que aconteça a sabatina e depois a aprovação ou não do seu nome em plenário. Quando haverá, porém, essa conversa, não há no momento expectativa. Tudo depende do clima político. E o clima político não melhora. Alcolumbre está agora pressionado a instalar uma CPMI para investigar o caso Master. Qualquer movimento errado pode pesar contra a indicação de Jorge Messias.

Virou questão pessoal

Até porque o caso Master pode respingar nas relações de Alcolumbre no Amapá. O Fundo de Previdência do seu estado foi um dos que aplicou grande quantidade de dinheiro no Master. A essa altura, muitos avaliam que a pinimba com Messias virou quase uma questão pessoal. Nem mesmo o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), o nome que Alcolumbre preferia, se moveria tanto.

Risco

Nem Lula nem Messias querem correr esse risco. Então, esperam um momento em que o clima político desanuvie. Ganham tempo. Mas sabem que quanto mais próxima a sabatina ficar das eleições de outubro mais a disputa política pode contaminar o ambiente. Não têm, assim, tempo a perder.

Para depois

Já há até quem argumente se não seria melhor deixar a avaliação de Messias para depois da eleição. O que faria com que a espera batesse de longe a de André Mendonça. A demora chegaria a quase um ano. Não é o mais provável e não se trabalha nesse sentido. Mas é uma hipótese que chegou a ser cogitada.

Conversas

Enquanto isso, Jorge Messias cumpre o papel que lhe cabe. Conversa com os senadores para aparar eventuais arestas. O advogado-geral da União já conversou pessoalmente com cerca de 70 senadores. E sai das conversas convencido de que o problema não está na avaliação que os senadores têm dele pessoalmente.

Relações

Messias já trabalhou no Senado. Tem ali boas relações. Inclusive com os parlamentares mais à direita, especialmente os evangélicos, como ele. Várias vezes, ele foi acionado pelo governo para destravar questões que esbarravam nos deputados e senadores desse segmento. Os 38 senadores evangélicos, porém, estariam divididos.

Derrota

O risco vira, então, a chance de os senadores de oposição, independentemente do que pensam sobre Messias, sentirem que pode ser uma chance de imprimir uma derrota a Lula em um ano eleitoral, criando, assim, uma situação de desgaste. Especialmente quando – outra vez o Master – o STF encontra-se na berlinda.

Abril

Assim, o horizonte agora aponta para uma possível sabatina somente a partir de abril. Messias ainda passaria este mês na espera. Com todos torcendo para que o clima político amaine. Em tempos de Master e possíveis delações, será que, em vez de tempestade, poderá vir essa bonança?


Publicado originalmente no Correio da Manhã.

Foto de capa: Messias: entre ganhar e perder tempo | José Cruz/Agência Brasil

Sobre o autor

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Rudolfo Lago
Ex-diretor do Congresso em Foco Análise, é chefe da sucursal do Correio da Manhã em Brasília. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.

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