Até o momento de fechamento desta coluna, ainda não se sabia se Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, compareceria ou não na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado para depor. Na CAE, a avaliação de que legalmente sua situação não mudara daquela que havia quando o presidente da comissão, senador Renan Calheiros (MDB-AL), fora até o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça negociar as condições do seu depoimento. Renan dissera na ocasião que os advogados de Vorcaro indicaram sua vontade de depor. Vorcaro, então, estava em prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica. Ou seja, naquele momento, ele já estava sob a tutela do Estado.
Mendonça deu a prerrogativa
Mas, é claro: do ponto de vista político a situação se agravou após a segunda prisão. E Mendonça deu a Vorcaro a prerrogativa de comparecer ou não. Mas a expectativa na CAE cresce. Porque há uma série de questões que os senadores ali gostariam de ver esclarecidas. No complicado jogo de empurra entre oposição e governo quanto a quem jogar a responsabilidade pela crise. O Master conseguiu criar uma teia impressionante de proteção.
Conjugação de três fatores

Vorcaro criou em torno de si enorme rede de proteção | Foto: Reprodução / Internet
A avaliação em torno de como chegou a esse ponto a crise do Banco Master é que tudo se deu pela conjugação de três fatores. O primeiro vem das brechas nas regras do sistema financeiro, a forma como o Master se pendurou no Fundo Garantidor. Sabendo-se agora que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) tentou uma emenda na PEC de autonomia financeira do Banco Central aumentando o limite que o fundo viria a garantir. O segundo fator, a cegueira fiscalizatória da autoridade monetária. O terceiro ponto é a enorme teia de proteção política.
Pirâmide com CDBs
Na avaliação técnica que se faz na CAE, Vorcaro foi montando uma espécie de esquema de pirâmide usando Certificados de Depósito Bancário (CDBs). O Master oferecia uma rentabilidade altíssima imaginando que um outro investidor fosse cobrindo o rombo, como nas pirâmides. E buscando, então, ampliar a teia de proteção para não responsabilizado.
Dinheiro público
O passo seguinte foi começar a tentar se proteger com o uso de dinheiro público. Então, entram aí os consignados de aposentados e servidores públicos a partir das operações com a compra do CredCesta do governo da Bahia. É o principal ponto que conecta a crise do Master com a CPMI do INSS.
BRB
Vai, então, para a tentativa de venda primeiro para a Caixa e depois para o Banco de Brasília (BRB). Venda que não se concretizou porque antes o Banco Central liquidou o Master. Venda que seria engordada pelos créditos falsos dos consignados dos professores da Bahia, como denunciou o Correio da Manhã.
Mais alto
Mas há quem desconfie que há algo acima do Master e alguém acima de Vorcaro. Como já disse aqui o Correio Político um comando mais alto que o de um banco considerado pequeno no mercado financeiro. Para alguns, Daniel Vorcaro não seria o ponto mais alto desse intrincadíssimo esquema.
Lavanderia
O que se desconfia é que se montou uma enorme lavanderia a partir das fintechs e dos bancos menores. Beneficiada, como já dissemos por aqui, por uma certa leniência dos mecanismos de fiscalização. Os primeiros sinais de que algo estava errado foram dados na Operação Colossus, em 2022, que investigou operações com criptomoedas.
STF
De qualquer modo, a ousadia com que Vorcaro operou hoje gera grandes constrangimentos. Dois atuais ministros do Supremo e um ex-ministro têm hoje conexões: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Ricardo Lewandowski, que foi ser consultor do banco entre deixar o STF e assumir o Ministério da Justiça.
Explicações
Pode haver explicações para cada caso. E para as demais conexões. Com o Centrão, com a direita, com o PT. O que, porém, parece inegável é que Vorcaro procurou se cercar de proteção e contatos da forma mais ampla possível. O que ele queria e até onde conseguiu chegar, é isso que a CAE espera que explique.
Publicado originalmente no Correio da Manhã.
Foto de capa: CAE tem a expectativa de hoje ouvir Daniel Vorcaro | Lula Marques/ Agência Braasil.





