Por ANGELO CAVALCANTE*
Ouvi de um imprestável que compunha a “bovinosseata” e conduzida pelo indefectível Nicolas Ferreira, assim dito, deputado federal por Minas Gerais; por sinal, galopância incidental saída do “nada” e com destino a “lugar algum”, algo que, de fato, me pôs a refletir.
O indivíduo, feito um desses papagaios repetidores, bafejava ufanizado, triunfal e imponente sobre certa ” força dos conservadores “.
E salivante, apressado e ansioso, urrava: ” Esses somos nós, os conversadores! ” e coisa e tal…
Nessa observância, não pude não me recordar dos efetivos conservadores de origem vitoriana e de uma Inglaterra intensamente regida por processos e procedimentos formais, por hierarquia, pela crença numa moral duradoura e por valores bastante bem definidos em uma nação que deu o “start” da Revolução Industrial, por sinal, ainda em curso nos dias que correm.
Pois bem…
A Revolução Industrial a partir da Inglaterra inaugura ou re-inaugura o urbano; nesse paralelo possui a capacidade e a potência de redefinir suas cidades não como espaços de convivência e de vida, mas ao contrário, como locus da decadência e da reificação do homem.
Não é coincidência que o filósofo e economista alemão Karl Marx (1818-1883) irá, justamente, tratar desse processo de desconstrução do homem, da sua massificação e brutalização a partir da feitura da “coisa” da mercadoria.
O senhor Friedrich Engels (1820-1895), o eterno companheiro de lidas e estudos de Marx, irá se aprofundar na análise desse fenômeno de des-humanização da vida para além do repugnante e deletério “chão-de-fábrica” e lança suas rígidas e criticas angulares analíticas sobre as cidades industriais inglesas, suas vilas, bairros e comunidades.
Fruto do estudo engelsiano surge a importante obra ” A situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra ” (1845) ou um preciso e impactante retrato da imundície, da putrefação urbana e que eram as cidades inglesas.
Engels mergulha na medonha intimidade das moradias dos trabalhadores, na coletivização nociva, forçada onde famílias inteiras eram empurradas para o dentro de quartos ou cubículos minúsculos sem calefação, água potável, uma entrada perene de ar ou uma privada e tudo isso pagando, óbvio, por preços de alugueis dilacerantes.
O dedicado Engels denuncia, por exemplo, esgotos e efluentes saindo de cortiços e ajuntamentos e, incrível, pela ausência de dispositivos básicos de esgotamento e drenagem, retornavam piorados e mais infectantes para os mesmos locais de origem.
Pestes e doenças eliminavam populações inteiras; era um genocídio sanitário onde crianças, aos milhares, morriam de diarréia, pneumonia ou claro, de fome.
A expectativa de vida desses homens e mulheres e sob tais condições não chegava a trinta e cinco anos e as periferias da capital de Vossa Alteza, a rainha, por exemplo, era um desterro de pobreza, miséria e da mais escancarada decadência humana.
Pois sim…
Por incrível que pareça, foi precisamente no período vitoriano (1837-1901) a partir do encontro, dos conflitos e unidades entre o Partido dos whigs (liberais) e o Partido dos tories (conservadores) que os imensos dramas de uma Inglaterra afundada nos ciclos de uma potente e irreversível Revolução Industrial são postos em questão.
Foram os conservadores, não raro, influenciados pela ética de anglicanos e calvinistas que decidiram encarar esse drama de frente, posto que não fazia sentido que a principal nação do mundo apresentasse indicadores sociais tão devastadores.
Ora… Os políticos conservadores da Inglaterra, trabalhistas e os mesmos conservadores, resolveram a problemática da moradia do seu país; foram eles que, ao período, deliberaram pela principal política de moradia do mundo.
Fizeram mais… Com maioria na Câmara dos Comuns (parlamentares eleitos)e na Câmara dos Lordes (parlamentares indicados), os conservadores ingleses estabeleceram políticas sociais definitivas a envolver educação, saúde, participação política e distribuição da renda.
Nesse sentido, vale destacar o sistema de saúde inglês ou National Health Service (NHS) e que é dos mais completos e eficientes do mundo; funciona, reparem bem, de maneira descentralizada, é público, integralmente gratuito e universal. Não por menos inspirou nosso SUS.
O Partido Conservador sempre, é claro, em confronto e disputa com o Partido Trabalhista, foi decisivo para a própria modernização de uma Inglaterra brutal, desumana e autoritária.
Há que se considerar da reação e dos reveses do tatcherismo e que, a partir dos anos de 1980, em parelha com o atrasado governo de Ronald Reagan (EUA) é dos grandes pólos e das efetivas bases do pensamento neoliberal no mundo.
Ainda assim… Conservadores ingleses foram decisivos para o próprio desenvolvimento humano da população da Inglaterra.
É que há muita confusão com relação ao pensamento conservador… Vale estudar e saber sobre, por exemplo, o pensamento do filósofo irlandês Edmund Burke (1729-1797), o pai do conservadorismo moderno inglês que, não por acaso, influenciou pensadores como o iluminista Denis Diderot e o filósofo alemão Immanuel Kant e do seu compromisso com a superação da miséria, do abandono e do desamparo social na Bretanha.
Com relação aos “conservadores brasileiros” da política, eles existem… E claro, estão no PT!
O Partido dos Trabalhadores (PT) é, stritu sensu , conservador! Isso sim…
Quanto aos ditos bolsonaristas e aderentes… Ora, esses são apenas atrasados! São, provavelmente, fascistas tardios ou ainda, meros e assumidos imbecis. Ao fim, com a qualidade política subterrânea e lodaçal e que vem se apresentando no Brasil, há evidentemente, espaço enorme para todas as modalidades e variantes de imbecis.
Mas… Asseguradamente, conservadores não são! Antes fossem!
*Angelo Cavalcante é economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Itumbiara.
E-mail : angelo.cavalcante@ueg.br
Foto de capa: Reprodução/Instagram




