Por EDELBERTO BEHS*
As plataformas X e do Tik Tok foram as mais tóxicas para a democracia e o exercício da imprensa no período das eleições municipais de 2024 no Brasil, analisado pela Coalizão em Defesa do Jornalismo em parceria com o Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo e o ITS Rio.
A Coalizão monitorou, de 15 de agosto a 27 de outubro, data do segundo turno, 451 contas no X, 868 no Instagram e 291 no Tik Tok, chegando a 57 mil ataques digitais, com a análise de 597 termos e hashtags. As capitais São Paulo, Cuiabá, Porto Alegre e Fortaleza foram as cidades com o maior número de episódios monitorados.
As análises, constata relatório final da Coalizão, “revelam padrões de agressão que ameaçam o exercício do jornalismo no país e o papel fundamental da mídia como vigilante do poder público” no intuito de gerar o descrédito da imprensa. As publicações analisadas frequentemente usavam expressões como “lixo”, “militante” e “fake news” para desqualificar jornalistas e veículos.
O X foi a plataforma com a maior concentração de discursos hostis. O monitoramento registrou 35.876 ataques no período, uma média de 484 por dia, seguida do Tik Tok, com 10.239 ataques, com média de 138 por dia. O Instagram trouxe 10.889 comentários ofensivos no período, ou uma média de 147 por dia.
Mulheres jornalistas foram as mais visadas, recebendo 50,8% do total de ataques, embora representassem 45,9% dos profissionais atacados. A título de comparação entre os campeões dos alvos de agressão, Vera Magalhães, âncora do programa Roda Viva, recebeu 1.706 ataques no Instagram; o colunista Josias de Souza teve 1.084 ataques no Tik Tok.
O monitoramento realizado pela Coalização registrou 11 casos de violência física ou verbal contra jornalistas, desde ameaças (45,4%), agressões físicas (27,3%) hostilizações (18,2%), intimidações (9,1%) até furto de equipamentos (9,1%)
O recurso ao Judiciário também representou uma ferramenta de censura. Foram registrados, no período, seis casos de processo judiciais para intimidar jornalistas e restringir a atuação da imprensa, incluindo ordens de remoção de conteúdo (66,6%), suspensão de portais e de perfis de redes sociais (16,6%) e outras formas de intimidação (16,6%).
O relatório da Coalizão mostra um cenário alarmante para a liberdade de imprensa no Brasil em períodos eleitorais, quando a polarização política é intensificada. Ela propõe ações, como o fortalecimento de políticas públicas para proteger jornalistas, a responsabilização de agressores dentro e fora do ambiente online, a revisão de práticas judiciais abusivas, e o desenvolvimento de mecanismos mais eficazes pelas plataformas digitais para conter ataques digitais.
Se medidas eficazes contra tais ataques não forem tomadas, as eleições de 2026 repetirão o cenário abusivo de 2024.
A Coalizão em Defesa do Jornalismo é uma articulação de 11 organizações da sociedade civil em defesa da liberdade de imprensa, tendo como principais temas de atuação: proteção e segurança de comunicadores e jornalistas, sustentabilidade do jornalismo e integridade do espaço informacional.
*Edelberto Behs é Jornalista, Coordenador do Curso de Jornalismo da Unisinos durante o período de 2003 a 2020. Foi editor assistente de Geral no Diário do Sul, de Porto Alegre, assessor de imprensa da IECLB, assessor de imprensa do Consulado Geral da República Federal da Alemanha, em Porto Alegre, e editor do serviço em português da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC).
Foto de capa: Tânia Rêgo/Agência Brasil
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